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Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos e um neto.
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wDivagações e citações - Quinta-feira, Agosto 28, 2008


Procrastinação

     Eu nasci e me criei em Pesqueira, cidade do Agreste de Pernambuco. Naquela época, minha cidade natal era o que podíamos chamar de “Terra de Brutos”, pois parecíamos moldados e conformados pela geografia do lugar. Desde crianças, tornávamo-nos seres agrestes, como o solo fértil e pedregoso que pisávamos com pés descalços. Era descalço que, ainda criança, eu me embrenhava pelo mato, indiferente a pedregulhos e espinhos. Ao perceber que um espinho entrara no meu pé, olhava de soslaio. Sendo espinho de mandacaru, eu me dava ao trabalho de tirá-lo com a mão, sendo espinho menor, limitava-me a arrastar o solado do pé numa pedra. Até a adolescência, jogava futebol, descalço, com sol a pino, numa quadra de cimento queimado, aquele bem lisinho. Se hoje eu tivesse que cruzar a quadra naquelas condições, certamente ficaria com queimaduras de terceiro grau. Naquela época, isto não me causava mossa. Parecia até uma preparação para a dança do Toré, sobre as brasas incandescentes da fogueira de São João. Os adultos faziam mais do que as crianças, quando engasgados por espinha de peixe, limitavam-se a uma talagada d’água ou de farinha.
     Eu era muito pequenino, ou como dizíamos, bem pixototinho. Estávamos apenas eu e mamãe na sala de jantar. Eu não me lembro se eu comia uma fruta quando ela resolveu comer um pouco de peixada. Engasgou-se com uma espinha e usou os métodos comuns, sem resultado. Não melhorou, ao contrário, ficou cada vez pior, inclusive sangrando. Sem pensar direito, subitamente abri a boca dela e vi que a espinha estava atravessada na úvula palatina, que chamávamos de campainha; rapidamente enfiei minha pequenina mão e retirei a espinha, mostrando-a a mamãe. Ela tossiu mais um pouco, bebeu o líquido que ofereci e melhorou. Apenas quando tudo estava resolvido e as coisas se acalmaram é que sorrateiramente me escafedi até o quarto e me deitei; o mais apropriado seria dizer que desabei na cama, pois minhas pernas não me sustinham, tremiam mais do que vara verde. Demorou muito até eu me acalmar.
     Este episódio me marcou profundamente. Percebi um pouco de minha natureza. Em situações difíceis, costumo ter iniciativa, ser calmo e racional. Depois que passa o “sufoco”, eu desmorono. De certa forma, foi o que aconteceu este ano. A partir do dia 2 de janeiro, quando Sílvia sofreu o infarto, ela passou por momentos muito difíceis. Desde criança, a Biologia revelou, como nenhuma outra disciplina, minha ignorância e meu desinteresse por algumas coisas importantes. Premido pelas circunstâncias, fui obrigando a ouvir atentamente médicos e enfermeiros, aprendi a entendê-los, pois era essencial que eu superasse minha natural aversão aos assuntos ligados à Biologia e pudesse discutir algumas questões de vida ou morte. Evitei consultas à Internet que pudessem desinformar-me mais do que me informar. Eu fazia perguntas e as repetia a médicos diferentes. Concentrava-me, como poucas vezes na vida, pois era a única forma de me preparar para participar do tratamento que Sílvia recebia. Ao contrário do que comumente se pensa, algumas decisões não são exclusivamente técnicas, apesar de a arrogância dos médicos levá-los a pensarem que as decisões são da exclusiva responsabilidade deles.
     No início de abril Sílvia voltou para casa, mas retornou, duas semanas depois, às pressas para o hospital, ficando hospitalizada até maio. Só a partir de junho é que ela passou a ser menos dependente de mim. Creio que, como sempre acontece, na hora de relaxar, o efeito retardado da pressão de um semestre se abateu sobre mim. Se eu fosse propenso, provavelmente teria entrado em profunda depressão. Tento manter a vida normal, mas sinto-me como se participasse de uma corrida na qual os demais concorrentes estivessem em pista de corrida e eu corresse sobre areia movediça.
Nota
     Ah! Faz-se necessária uma observação. Apesar de eu me referir à querida Pesqueira como “Terra de Brutos”, a fama de minha cidade era outra. Mesmo sendo do Agreste, era conhecida como “Atenas do Sertão”, pois jovens de outras cidades do interior pernambucano iam estudar em Pesqueira, tida como cidade de intelectuais. Pode até ser, mas não tínhamos intelectuais que fossem misantropos avessos às coisas cotidianas. Todos os amigos conterrâneos que despontaram como intelectuais ou artistas, mesmo que não fossem do tipo “cão chupando manga”, eram tão moleques quanto eu.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quinta-feira, Agosto 28, 2008
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