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Rabiscos e divagações

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Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos e um neto.
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Rabiscos e divagações
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"Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos"
Vital Farias
"Não há vento favorável para quem não sabe a que porto quer chegar"
Luiz Carlos Prestes
"Eu não vivo do passado, o passado é que vive em mim"
Paulinho da Viola
"Quando a riqueza de poucos afronta a miséria de muitos, a insegurança é de todos"
Josué de Castro


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wDivagações e citações - Quarta-feira, Abril 25, 2007


Há vida inteligente na blogosfera?

     Para mim foi grande honra e imenso prazer ser indicado pro Amita de brancoepreto como o primeiro de uma lista de cinco espaços da blogosfera que ela julga serem destinados à vida inteligente. Como nem tudo é agradável, a indicação dela resulta numa tarefa impossível: indicar cinco outros. Eu não consigo, pois entre os elos agrestinos há muita vida inteligente, cada visita minha é um aprendizado, além de ser também um grande prazer. É motivo para muitas postagens comentar sobre todos os meus elos na blogosfera e pretendo fazê-lo aos poucos. Para não ficar inadimplente, aproveito e faço homenagem a duas pessoas que perdemos recentemente.
Nel Meirelles, de Fala Poética, cuja última postagem, poucos dias antes de falecer, transcrevo a seguir. Na foto , publicada aqui em 19 de julho de 2004, Moacy Cirne (de óculos) e Nel.
      Meus amigos:
Em primeiro lugar quero agradecer todas as manifestações de preocupação e carinho que tenho recebido aqui no blog, por e-mail, telefonemas etc. Na verdade não estou de férias. Estou atravessando um momento complicado de saúde, mas que em breve estará resolvido. No meu estado não há como escrever, daí o blog ter andado parado, o que não significa que abri mão dele ou do prazer de escrever. Aproveito para deixar um poema antigo, do qual gosto muito.

beijos gerais.

ofertório da saudade anunciada
esvai-se o tempo
abrindo o tampo
de tudo de tanto
que tento nas noites
escrever de fugaz
que escorre da cana
que quebra na cama
que doido se trai
que muda de uma
pra outra estação
que cobre o rosto
descobre que posto
que a vida que rouba
o rosto que morde
não fala não fala
no mudo ouvido
e todo sentido
que pode nascer
da porta aberta
que aperta o nome
do que nunca se soube
se houve ou se há
amarga a língua
de talagada
tango samba balada
a boca velada
a vela apagada
a luz que acende
sem meias verdades
sandálias descalças
vestindo saudades
nos meus olhos teus


     Li Stoducto de palavras tortas era uma guerreira, alegre, determinada, dinâmica e muito produtiva. Teve algumas canções gravadas, inclusive por Milton Nascimento. Justificou cada minuto que passou entre nós. Alguns amigos dela republicarão seus poemas aqui . Na foto, publicada aqui em 14 de junho do ano passado, Márcia Maia, de Mudança de Ventos e Tábua de Marés, o ator José Santa Cruz e Li Stoducto. Ela me disse, por telefone, que foi muito bom abrir uma exceção e participar de nosso encontro.

Constelação pernambucana

     João Rosa Neto, que mantém uma maravilhosa página Riobaldo & Diadorim sobre a principal obra de João Guimarães Rosa, levantou a dúvida sobre a frase de Manuel Bandeira ¿Depois de Joaquim e Ascenso, João. Depois de João, Mauro e Carlos. Depois destes, você. Bonita a constelação pernambucana no céu da Federação. Viva o Recife e o seu rio com os seus cais de auroras!¿. Pelo que sei, Bandeira se refere a Joaquim Cardozo que nasceu (1897) e faleceu (1978) no Recife, publicou peças teatrais e poemas, mas teve como atividade principal o cálculo estrutural, sendo considerado o maior calculista em cimento armado, responsável pelos cálculos das obras projetadas por Oscar Niemeyer. Ascenso Ferreira nasceu em Palmares, Zona da Mata de Pernambuco, em 1895, e faleceu no Recife, em 1965. João Cabral de Melo Neto, nascido no Recife em 1920, é consagrado fora de Pernambuco e dispensa maiores comentários. Mauro Mota, membro da Academia Brasileira de Letras, é poeta, contista, ensaísta e memorialista, nasceu no Recife, em 1911. Carlos Moreira nasceu no Recife em 1920, é dele o poema Pequeno Guia da Cidade do Recife.

     Audálio Alves visitou o túmulo de Carlos Pena Filho no aniversário da morte dele e, lá mesmo, escreveu:


Quartetos da Elegia Quarta

Maldito quem me lembre e te esqueça.
                                   Amigo,
quando falo de amigo, quero vê-lo.
Insone tenho o polvo da memória.

E porque me ignoro é que te lembro,
digo a morte contrária, inverto a vida,
tenho mortos meus pés, onde começas,
com a língua a dizer que já não cessas.

Mas com garras, com asas, com espinhos,
venho
clamar com tigres e chorar com águias
ante o porto do homem o seu embarque.

Reconheço o silêncio que nos cerca.
Meço a morte impassível, reconheço:
em mistura com a terra, aqui cultivas
o silêncio imortal que não conheço.

Eternize-se a terra como serva
de quem se uniu em pêlo à sempre-viva:
Porque em vida louvaste o ar e a erva,
dê ramo a solidão definitiva.

Saberei se me escutam quando falo
apenas de meus lábios a meus dentes,
pois agora direi secretamente:
Eu a morte recuso, quando venha.

A morte não entendo se ao trazer-te,
                             aqui
e além dessas prisões enfileiradas,
não beijou tuas mãos, prostrada ao solo.

                             Vinhas barco,
vinhas vindo encalhar entre hortelãs:
essa frota de cruzes, esse ar,
esse mastro à deriva das manhãs.

Mas hoje és tu, tão jovem e tão descido.
Por isso trago às mãos os artefatos
de descer e subir, e trago as chamas
que me hão de queimar para encontrar-te:

Malditos pois carneiros e cavalos
                             — maldito
o quanto paste aqui, levante os olhos
ao acenar da relva em desespero.


Mauro Mota escreveu:


Diálogo com Carlos Pena Filho
no primeiro aniversário
de sua partida do Recife

                  ¿Por qué pregunto donde estás,
                 si no estoy ciego,
                 si tu no estás ausente?¿


                       Pedro Salinas

— Carlos, foste há um ano?
     — Nem me lembro!

Nesse julho de chuva não me fui.
Estou. Meu calendário é de setembro,
da mesa do Savoy: Caio, Zé, Rui.

Das casuarinas lá da minha rua
13 de maio.
     — Carlos, de que mais?

— Da Lagoa do Carmo.

     — E o sangue e a tua
ida (para onde?) que hoje um ano faz?

— O remo é azul, azul é o passaporte.
Vejo-me. Hoje me vi. Navego. Pára
a canoa no Cais de Santa Rita.

— Quem morre no Recife engana a morte.
Se criei, no azul, os meus azuis, foi para
esta cidade que me ressuscita.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Abril 25, 2007
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Terça-feira, Abril 17, 2007


Poetas bustificados

     Manuel Bandeira nasceu no dia 19 de abril de 1886, na Rua da Ventura, atual Joaquim Nabuco, no Recife, faleceu às 12 horas e 50 minutos do dia 13 de outubro de 1968, no hospital Samaritano, Botafogo, Rio de Janeiro. Em 20 de março de 1963, Manuel Bandeira escreveu o poema:


Recife

Há que tempo não te vejo!
Não foi por querer, não pude,
Nesse ponto a vida me foi madrasta,
Recife.

Mas não houve dia em que te não sentisse dentro de mim:
Nos ossos, nos olhos, nos ouvidos, no sangue, na carne,
Recife.

Não como és hoje,
Mas como eras na minha infância,
Quando as crianças brincavam no meio da rua
(Não havia ainda automóveis)
E os adultos conversavam de cadeira nas calçadas
(Continuavas província,
Recife)

Eras um Recife sem arranha-céus, sem comunistas,
Sem Arraes, e com arroz,
Muito arroz,
De água e sal,
Recife.

Um Recife ainda do tempo em que meu avô materno
Alforriava espontaneamente
A moça preta, Tomásia, sua escrava,
Que depois foi a nossa cozinheira
Até morrer,
Recife.

Ainda existirá a velha casa senhorial do Monteiro?
Meu sonho era acabar morando e morrendo
Na velha casa do Monteiro.
Já que não pode ser,
Quero, na hora da morte, estar lúcido
Para mandar a ti o meu último pensamento,
Recife.

Ah Recife, Recife, non possidebis ossa mea!
Nem os ossos nem o busto.
Que me adianta um busto depois de eu morto?
Depois de morto não me interessará senão, se possível,
Um cantinho no céu,
"Se o não sonharam", como disse meu querido João de Deus,
Recife.

     Carlos Pena Filho nasceu no Recife, em 17 de maio de 1929. No dia 1º de julho de 1960, à saída da redação do Jornal do Commercio, Peninha pegou carona com um amigo, pouco depois, o carro se chocou com um ônibus e o poeta faleceu. Do seu poema Guia Prático da Cidade do Recife, destaco a parte da homenagem a Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Joaquim Cardozo:

Manuel, João e Joaquim

Desse tempo, é o que resta
para um discreto dizer,
pois quem cantou esse tempo
já não é de meu saber.
Hoje a cidade possui
os seus cantores que podem
ser resumidos assim:
Manuel, João e Joaquim.
No Jardim Treze de Maio
Manuel vai ficar plantado,
para sempre e mais um dia,
sereno, bustificado,
pois quem da terra se ausenta
deve assim ser castigado.
Dali não poderá ver
a casa do seu avô
e nem a rua da Aurora,
nem o que o tempo acabou,
nem o mar nem a sereia
e nem o boi morto na cheia
desse rio escuro e triste
de lama podre no fundo
e baronesas na face,
que vem, modorra e preguiça,
parando pelas campinas,
e escorregando nos montes
até esse sítio claro,
onde cobriram seu leito
de pedra, ferro e cimento
organizados em pontes.
Desde a Velha, carcomida
paisagem para detentos,
que é por onde sempre passa
esse povo marginal,
escuro e anfíbio, que habita
o cais dito Areal,
até a ponte mais nova
que tem o nome mais velho:
a ponte Duarte Coelho.

Mas tudo o que for do rio,
água, lama, caranguejos,
os peixes e as baronesas
e qualquer embarcação,
está sempre e a todo instante
lembrando o poeta João,
que leva o rio consigo
como um cego leva um cão.

Mas vieram de longe as águas
que aqui no Recife estão.
Já começaram areia e pedra
lá bem perto do sertão
e é por isso, talvez,
que escuras e tristes são.
Porém não foi só tristeza
sua peregrinação.
Em seu trajeto tiveram
a farta satisfação
de dar de beber a secos
homens, cavalos e bois
e em seu incerto caminho
ainda viram depois
os sítios cheios de sombra,
onde dorme o sono espesso
do poeta Joaquim que foi
fazer estação de águas
nos olhos de seu amor
e trouxe, nos seus acesos,
os cajueiros em flor.

     Nos dois poemas há referência a um busto para Manuel Bandeira, quando o poeta vivia. Mário Melo não permitiu, pois ele mantinha a observância à lei que proíbe este tipo de homenagem a pessoas vivas. Quando, como diz o frevo de Nelson Ferreira, Mário Melo partiu para a eternidade, além de deixar um manto de tristeza sem igual, deixou o caminho livre para o busto a Manuel Bandeira. Ironicamente, após a trágica morte, quem ficou bustificado em bronze, no jardim da Faculdade de Direito (de Castro Alves e Tobias Barreto), de frente para o Parque Treze de Maio, foi o próprio Carlos Pena Filho. Manuel Bandeira ficou plantado no cruzamento das ruas da União e do Riachuelo, também na Boa Vista.

     Transcrevo texto escrito por Manuel Bandeira em 26 de fevereiro de 1961


Saudades da Carlos Pena Filho

     Em 22 de janeiro do ano passado escrevi ao poeta Carlos Pena Filho a seguinte carta:


     Caro poeta, muito obrigado pelo Livro Geral, e me desculpe ter demorado tanto em vir dizer-lhe quanto gostei de seus poemas, especialmente dos sonetos "A Rosa, no Íntimo", "Por seres bela e Azul...", "Soneto do Desmantelo Azul", de "Poema de Natal" e do recifíssimo "Guia Prático". Não quer isso dizer que não me agradam os outros; em todos encontro, a cada passo, algum impressionante achado das suas "pacientes buscas no espírito". Por exemplo, no "Retrato Breve" aquela dormida do adolescente com Ida, Rosa e outras "nas curvas da própria mão". Nunca pensei que se pudesse pôr tanta beleza no imemorial e sempiternal gesto de iniciação erótica.
     Desvaneceram-me as citações de meus versos no meio dos seus - as "Índias do Leste", a "Noiva da Revolução". Não é verdade que nossa melhor glória são esses resíduos que deixamos na memória dos outros?:
     Muito concho fiquei também com a parte que me coube no elogio da trinca Manuel, João e Joaquim em "Guia Prático".
     Depois de Joaquim e Ascenso, João. Depois de João, Mauro e Carlos. Depois destes, você. Bonita a constelação pernambucana no céu da Federação. Viva o Recife e o seu rio com os seus cais de auroras! Um abraço.


     Levava a carta este endereço: "Sr. Dr. Carlos Pena Filho, Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco". Pus Palácio da Justiça porque me haviam informado, erradamente, que o poeta era promotor público. Pois bem, agora, mais de um ano depois, devolvem-me a carta de Pernambuco e leio no verso do envelope esta declaração assinada por um Farias, decerto o estafeta, e datada de 27 de janeiro de 1960: "Desconhecido no local indicado" Havia um carimbo da posta restante com a data 9-2-1960.
     Vá lá que no Palácio da Justiça do Recife não houvesse ninguém para informar quem fosse um grande poeta da cidade colaborador assíduo do Diário de Pernambuco. Mas por que não me foi logo recambiada a carta, por que deixaram mofar na posta restante durante mais de um ano?
     Ainda bem que no dia 27 de janeiro de 1960 escrevi nesta mesma coluna uma crônica onde falava do Livro Geral. Mas eram apenas meia dúzia de linhas e nem sei se Pena Filho chegou a lê-las. Não me consolarei do pesar que tive com a devolução dessa carta, em que mandava ao jovem grande poeta pernambucano a mensagem da minha admiração e do meu afeto.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Abril 17, 2007
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Quarta-feira, Abril 11, 2007


Gratidão

     Em janeiro deste ano, participei do Ciclo de Debates sobre Preservação Histórica e Desenvolvimento Urbanístico, realizado no auditório do Arquivo Nacional, promovido pela ACAN, Associação Cultural do Arquivo Nacional. Entre outras atividades, foi realizado um debate, do qual fui o mediador, entre os arquitetos Augusto Ivan, Secretário Municipal de Urbanismo, e Alfredo Britto que discutiram métodos e técnicas utilizados na preservação histórica de edificações e suas interferências nas transformações urbanísticas, tendo como referência o Rio de Janeiro.
     Na maioria das vezes, ser moderador de debates é trabalhoso e apresenta risco de parecermos atrapalhados, deselegantes ou indelicados. Desta vez, não foi o caso, pois os debatedores, ambos pesquisadores e professores de urbanismo, abordaram o tema com pertinência, profundidade e naturalidade. Para quem os conhece, não foi surpresa, pois ambos são muito respeitados, mais do que isto, o nome de Augusto Ivan surge sempre que alguém faz referência ao Corredor Cultural do Rio de Janeiro, como seu criador, por mais que saibamos que a criação foi um processo e contou com a participação de muitas pessoas. Alfredo Britto foi responsável pela recuperação e restauração de algumas importantes edificações cariocas, inclusive o próprio prédio do Arquivo Nacional.
     Há pouco mais de dez anos, eu visitei, em Madri, o INAP, Instituto Nacional de Administração Pública. Lá fui recebido pelo Diretor Geral da instituição, Don Francisco Ramos Fernández-Torrecilla. Na ocasião, o INAP preparava-se para assumir o planejamento e a execução dos programas de formação de dirigentes e servidores públicos da Comunidade Européia. Na visita, pude constatar que o instituto contava com excelentes, modernas e bem equipadas instalações; além disto, desenvolvia e implementava metodologias e cursos de capacitação, qualificação e formação, na área da Administração Pública.
     Durante o debate no Arquivo Nacional, eu me lembrei desta visita. Por quê? É que ficava claro, para quem visitava o INAP, que se tratava de importante instituição européia, pois havia muitos indícios. O primeiro deles era a importância de quem o dirigia: um ex-senador e, por três legislaturas, deputado, além porta-voz do Grupo Parlamentar Socialista nas Cortes Constituintes, bem como ex-Secretário de Estado para a Administração Pública, no primeiro Governo Socialista da Espanha. Também evidenciavam a importância do INAP as responsabilidades assumidas perante a comunidade européia, as bem equipadas instalações e as metodologias ali desenvolvidas e implementadas. Contudo, talvez apenas os especialistas ou técnicos pudessem interpretar estes indicadores, mas havia uma evidência da importância do INAP: a sua sede. O Instituto se localizava na Calle Atocha, em um antigo casarão, quase um palácio, muito bem recuperado e restaurado.
     Quem chega ao Arquivo Nacional, antes mesmo de conhecer a instituição e seu trabalho, percebe que se trata de importante órgão, pois o belo palácio, antiga Casa da Moeda, foi primorosamente restaurado. Não há lugar mais propício para a discussão que se travou naquela tarde, pois o próprio espaço que nos recebia é um exemplo da importância da preservação histórica e dos impactos que ela causa no desenvolvimento urbanístico de uma cidade como o Rio de Janeiro.
     Em outras ocasiões, participei de debates sobre diversos temas, tanto na condição de debatedor quanto na de moderador. Como moderador, muitas vezes, tive que me valer da presença de espírito e da capacidade de improviso para evitar tumultos, confusões e constrangimentos. Naquela tarde foi diferente, pois as coisas fluíam com naturalidade. Não apenas havia a naturalidade como se conduziam os debatedores, profundos conhecedores, teóricos e práticos, do tema. Mais do que isto, o que me chamava a atenção era a naturalidade como fluía o evento, propiciada pelo rigoroso trabalho de organização do mesmo. Antes do início das atividades, cada participante recebeu uma pasta personalizada contendo a programação detalhada e instruções específicas; a todo instante, a comissão organizadora apoiava e orientava, de forma discreta e eficaz, o trabalho da mesa diretora. Em momento algum eu precisei me preocupar com detalhes organizativos e operacionais, pois tudo seguiu como se comandado por controle automático. Pude acompanhar as palestras, desfrutar das excelentes companhias e até deixar-me embalar por agradáveis recordações, às quais este evento se incorporou.
     Ao fim do evento, recebi elogios do Presidente da ACAN e um documento de agradecimento pela participação. Foi meu único momento de quase constrangimento, não pela timidez ou pela humildade, mas pela certeza de que, se alguém precisava agradecer, eu é que deveria manifestar gratidão, pela honra e pelo prazer que minha participação me proporcionou, ao Arquivo Nacional, na pessoa de seu Diretor Geral, Jaime Antunes da Silva, que tão bem nos recebeu, e à Associação Cultural do Arquivo Nacional, na pessoa de seu Presidente, Lício Araújo, que, à frente de laboriosa equipe, tudo planejou, organizou e realizou para que todos nós saíssemos da agradabilíssima tarde com a ilusão de que evento de tal magnitude se realiza sozinho.

Saudade

     Há pouco tempo, perdemos o poeta Nel Meirelles; no sábado, a chuva interrompeu os dias ensolarados e trouxe um manto de tristeza que cobriu a Cidade do Rio de Janeiro para anunciar a partida de Li Stoducto.

Memória Virtual Brasileira

     A Biblioteca Nacional criou, com a colaboração de outras instituições, um novo serviço, a Rede da Memória Virtual Brasileira. Inicialmente está prevista a disponibilidade de dados e informações sobre dez temas: Administração (Conselho Ultramarino, Casa dos Contos), Artes (Arte Pictórica Rupestre, Barroco, Modernismo, Fotografia, Arquitetura, Gravura, Música Popular, Música Clássica), Ciências (Viagens Científicas, Guia de Fontes), Costumes (Missão Francesa no Brasil, Augusto Malta, Folclore, Culinária, Avenida Central), Escravidão, Imprensa (Periódicos do Século XIX), Literatura (Literatura Colonial, Poesia Romântica, Ficção Romântica, Realismo), Política (Guerra do Paraguai, Revolta da Vacina, Conselho de Estado), Povos Indígenas e Religião (Companhia de Jesus). A página, em processo permanente de construção, apresenta cronologia, antologia literária, mapas históricos, galerias digitais e base de dados.
Creio que todos devemos contribuir, pois é um excelente projeto. Eu já dei uma pequena contribuição ao escrever um verbete sobre Pereira Passos, para vê-lo, basta clicar aqui

O Planeta movido a internet

     Eu tinha o arquivo e, mesmo sendo grande, enviei para algumas pessoas, mas agora c.a.t. me enviou o atalho para ouvir diretamente o decassílabo apresentado por Raimundo Nonato e Nonato Costa, sem precisar baixar. Vale a pena, basta clicar aqui


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Abril 11, 2007
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sábado, Abril 07, 2007


O Recife na poesia

     Na postagem anterior, eu disse que Bento Teixeira nasceu em 1545(?), em Portugal onde faleceu em 1619. Em 1601, ele veio para o Brasil. O seu livro Prosopopéia, publicado em 1601, constituiu o primeiro registro poético do Recife. Na verdade, Bento Teixeira chegou muito antes ao Recife, pois em 21 de setembro de 1593, o Senhor Visitador, inquisidor representante da Corte de Portugal, Heitor Furtado de Mendonça chegou ao Recife e três dias depois convocou, em Olinda, diversos acusados de atividades suspeitas e Bento Teixeira foi um dos primeiros a depor, acusado de escrever sonetos, cantigas, trovas, tercetos e farsas. Bento Teixeira era considerado muito inteligente e violento, alegando ter sido enganado pela mulher, ele a matou. Terminou seus dias preso em Lisboa, submetido a maus-tratos.
     Depois de Bento Teixeira, por muito tempo não houve registros poéticos do Recife.
     Tomado pelos batavos, o Recife se transformou, graça à ação de Maurício de Nassau, no primeiro núcleo urbano brasileiro a proporcionar condições decentes à população. Nassau trouxe o latinista e poeta Franciscus Plante, o médico e naturalista Willem Piso de Leyden, o astrônomo e naturalista George Marcgrave, os pintores Frans Post e Albert Eckhout, o médico Willen van Milaenen, o humanista Elias Herckmans, o cartógrafo Cornelis Sebastianszoon Golijath, os historiadores Nieukoff e van Baele e o arquiteto Pieter Post, sendo incorporados à missão científica os artistas amadores Zacharias Wagener e Gaspar Schmalkalden aqui residentes. Construiu palácios, pontes, diques e canais, criou o horto zoobotânico e promoveu o desenvolvimento das ciências e das artes.
     Gregório de Matos e Guerra nasceu em Salvador, Bahia, em março de 1623 ou dezembro de 1633. Recebeu, no batismo, o nome de João, logo mudado para Gregório. Doutor em leis em Coimbra, magistrado em Lisboa e na Bahia. Retornou ao Brasil em 1981 ou 1682. Gregório de Matos, conhecido como Boca do Inferno, pelo crime de sua poesia, foi degregado para Angola. Retornou ao Brasil, fixando-se no Recife, onde levou "vida folgazã e licenciosa", mas proibido de fazer sátiras, e faleceu em 1696, deixando viúva Maria dos Povos e o filho Gonçalo Matos. É dele o segundo registro poético do Recife.


Descrição da Vila do Recife

          Gregório de Matos

Por entre o Beberibe e o Oceano,
em uma área sáfia e alagadiça,
jaz o Recife, povoação mestiça
que o belga edificou, ímpio tirano.

O povo é pouco e muito pouco urbano,
que vive de uma pura erva lingüiça,
unha-de-velha insípida enfermiça,
e camarões de charco todo ano.

As damas cortesãs e mui rasgadas,
olhas-podridas, sopas pestilências,
sempre com purgações, nunca purgadas.

Mas a culpa têm Suas Reverências,
que as trazem tão rompidas e escaldadas,
com cordões, com bentinhos e indulgências.

A procissão de Cinzas em Pernambuco

          Gregório de Matos

Um negro magro em sufulié justo,
dois azorragus de um joá pendentes,
barbado o Peres, mais dois penitentes,
cem crianças com asas, sem mais custo.

De vermelho o mulato mais robusto,
três fradinhos meninos inocentes,
dois ou doze brichotes mui agentes,
vinte ou trinta canelas de ombro onusto.

Sem débita reverência seis andores,
um pendão de algodão tinto em tijuco,
em fileira dez pares de menores.

Atrás um cego, um negro, um mameluco,
três lotes de rapazes gritadores;
é a procissão de cinzas em Pernambuco.


Frase da semana


"Companheiros... O pobrema nos aeroporto é passagero!" - Lula

Enviada por Ariane



MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sábado, Abril 07, 2007
Comentário e zombaria:




Clicar nas fotos para ver os álbuns correspondentes
Praia do Porto - Costa Dourada
Litoral Sul de Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Parque das Emas
Goiás - Mato Grosso do Sul
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Chapada dos Guimarães
Mato Grosso
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Serra dos Órgãos
Estado do Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Campos do Jordão
São Paulo
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Provetá - Ilha Grande
Estado do Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Candeias
Jaboatão dos Guararapes
Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Mercado São Josá - Recife
Pernambuco
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Piedade
Jaboatão dos Guararapes
Pernambuco
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Pouso Alegre
Minas Gerais
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Pão-de-Açúcar
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Cristo Redentor
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Nascente - Pão-de-Açúcar
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Poente - Floresta da Tijuca
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Maracanã
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Niterói
Rio de Janeiro
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Vista de Casa
Quinta da Boa Vista
Rio de Janeiro
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Vista de Casa
Zona Norte
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Micos
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Igreja da Penha
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro