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Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos.
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Julho 31, 2006


Ningen no Joken

O maior filme que já vi, com mais de nove horas de duração, é Guerra e Humanidade; geralmente ele é apresentado em três sessões, com mais de três horas cada uma. As duas primeiras partes do filme foram concluídas em 1959 e a terceira em 1961. Ao contrário de muitas trilogias, este filme tem unidade absoluta, as três partes formam uma seqüência, não são três filmes, mas um filme em três partes. No Brasil, cada parte teve tradução diferente para o título, respectivamente: Não há maior amor; Estrada para a eternidade; e Uma prece de soldado. Sendo um filme de guerra, Ningen no Joken é considerado a mais forte e profunda obra pacifista da história do cinema.
A minha filha adolescente, Flora, manga muito de mim, pois sempre que ela vem discutir um livro ou um filme comigo, eu não me lembro dos detalhes, dos nomes de personagens, ou da seqüência dos eventos da obra. Ela não consegue entender como eu posso ter opinião sobre uma coisa se não me lembro com precisão dela. Eu sei que é esquisito, mas eu tenho boa noção do que é São Bernardo, Angústia, Vidas Secas ou qualquer obra de Graciliano Ramos, até por ter lido no mínimo três vezes cada livro dele. Contudo, por favor, não me perguntem o nome dos personagens, pois além de Baleia, certamente vou errar ao tentar citá-los.
Como eu disse na postagem anterior, ao elaborar a lista e botar Guerra e Humanidade no topo da mesma, eu não saberia narrar o filme, não conseguiria analisar os aspectos técnicos e artísticos, mas sei o impacto que ele em mim provocou. O drama humanista apresentado através de um personagem japonês é comovente. O ponto de vista de quem perdeu a guerra, por si só, deveria despertar a curiosidade geral. Em Pernambuco, após a Restauração Pernambucana de 1654, vencedores e vencidos dividiram o mesmo panteão, coisa rara, pois a História não é a narrativa de fatos, mas a interpretação dos vencedores.
O que mais me tocou no filme de Kobayashi é que ele teve distanciamento crítico, além de muita sensibilidade. O filme critica a forma brutal e desumana como os japoneses tratavam os prisioneiros chineses, mostra, com velada simpatia, o árduo processo de organização e resistência dos prisioneiros chineses, a contradição entre o administrador civil, pacifista, das minas de trabalhos forçados e o exército nacional japonês; o ingresso do mesmo administrador no exército, a ida dele à Manchúria, sua oposição aos desmandos e crueldades de um sargento japonês contra seus próprios soldados, e culmina com a prisão do protagonista pelo Exército Vermelho, com a transferência do mesmo para a Sibéria. É um filme emocionante e sugiro que quem tenha oportunidade de vê-lo que não a perca.
Infelizmente, o filme continua atual. Bush diz que o Governo de Israel não comete crime de guerra quando ignora todas as normas preconizadas pela Convenção de Genebra, além de, mais uma vez, descumprir todas as resoluções da ONU. Numa coisa Bush tem razão: embora sejam crimes contra a humanidade, nem mesmo podem ser considerados crimes de guerra, pois para isto precisaria haver uma guerra declarada, mas o exército sionista ataca, deliberadamente, civis, observadores da ONU, escolas, hospitais, a Cruz Vermelha Internacional, sem reconhecer que ataca um estado, um governo, um povo, mas apenas ¿terroristas¿. Não há prática de crime de guerra, há crime contra a humanidade e prática de genocídio.
Na condição de diretor de Ningen no Joken, Kobayashi não renunciou à condição étnica, à nacionalidade, à cultura, mas tomou partido: da liberdade, da justiça e da paz; ao fazê-lo, corajosamente, iguala todos adeptos da beligerância, todos praticantes da violência, todos exploradores e repressores, pois os senhores da guerra, independentemente de credos e nacionalidades, constituem a maior ameaça à humanidade. Ao defender a humanidade, Kobayashi, sem deixar de ser japonês, tornou-se cidadão do Mundo.

Ficha técnica:
Guerra e Humanidade

Não há maior amor (Ningen no joken I - Japão - 1959)
Direção: Masaki Kobayashi.
Elenco:Tatsuya Nakadai, Michiyo Aratama, Ineko Arima.
Em preto e branco.
Duração: 208 minutos.
Legendas em inglês.
Vencedor do Prêmio San Giorgio, em 1960, no Festival de Veneza.

Estrada para a eternidade (Ningen no joken II - Japão - 1959)
Direção: Masaki Kobayashi.
Elenco:Michiyo Aratama, Kaneko Iwasaki, Kokinji Katsura.
Preto e branco.
Duração: 181 minutos.
Legendas em inglês.

Uma prece de soldado ( Ningen no joken III - Japão - 1961)
Direção: Masaki Kobayashi.
Elenco: Tatsuya Nakadai, Michiyo Aratama, Yusuke Kawazu.
Preto e branco.
Duração: 190 minutos.
Legendas em inglês.
Observação: a cinemateca do MAM dispunha de cópias com legendas em português.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Julho 31, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Quinta-feira, Julho 27, 2006


saboreando palavras

     No próximo dia 3 de agosto, o SESC Minas Gerais de Uberlândia lançará a publicação resultante do Concurso de Literatura e de Artes Gráficas Saboreando Palavras, na qual há trabalhos selecionados de quarenta e cinco representantes de nove estados brasileiros; entre os conhecidos, Márcia Maia, de Mudança de Ventos e Tábua de Marés, Tanussi Cardoso, do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro e Vera do Val de Rosebud, além de Manoel Carlos do Agreste.
Evento: lançamento de Saboreando Palavras, uma antologia gráfico-literária
Data: 02 de agosto de 2006 às 19h30
Local: saguão de artes do SESC Uberlândia
          Rua Benjamin Constant, 844
          Uberlândia - Minas Gerais
No mesmo local serão expostas, de 02 a 16 de agosto, as gravuras selecionadas.

Melhores filmes

     Moacy Cirne, do balaio vermelho promoveu uma enquete entre seus leitores, os quais deveriam listar os vinte melhores filmes. O resultado da enquete provou o que eu já sabia: não entendo de cinema! O filme que listei em primeiro lugar foi, provavelmente, o menos votado de todos.
     Eu tenho muitos motivos para não apresentar uma lista com os vinte filmes preferidos, mais ainda se for uma lista dos vinte melhores filmes, a começar pelo fato de eu não ser cinéfilo, pois o cinema é, para mim, quase um entretenimento, não tenho a sagacidade e a competência para observar os aspectos técnicos e artísticos dos filmes, portanto, sou incompetente para classificá-los.
     Nem vou enumerar os demais motivos, pois seria uma lista enorme, apesar disto, eu enviei minha seleção por um motivo que se sobrepôs a todos os demais: Moacy me pediu para fazê-la. Então cumpri a minha obrigação, com enorme dificuldade.
     Na falta de critérios artísticos e técnicos, listei os filmes pelo impacto que eles provocaram em mim, por vezes modificando minha forma de ver e interpretar a realidade. Daí ser plenamente justificado o primeiro lugar para o filme de Kobayashi, o qual me causou profunda emoção, fez-me sonhar várias vezes com a guerra e os temas tratados no filme. Ainda hoje, muitos anos depois de tê-lo visto, mais do que do filme em si, lembro-me com exatidão de como ele me comoveu. Creio que o critério por mim adotado já desabona a minha lista, mesmo que os filmes nela contidos tenham qualidades técnicas e artísticas; eu não seria capaz de defendê-la se alguém a desqualificasse, apenas eu conseguiria dizer que, para mim, foi muito importante assisti-los quando eu o fiz.
     A minha lista tem outro problema: propositalmente excluí filmes brasileiros, pois se não o fizesse, certamente daria mais margem para polêmicas, apenas para exemplificar, de todos os filmes de Glauber Rocha eu só gostei mesmo (gostar de verdade!) de um: Barravento, achei-o um filme digno de ser incluído em qualquer seleção internacional, mas quem sou eu para fazê-lo e excluir os demais filmes do famoso diretor? Também gosto muito dos filmes de Nelson Pereira dos Santos, exceto alguns bem comerciais, como O Milagre da Vida (nem sei bem se é este o título, eu o vi em Moçambique, há cerca de vinte e cinco anos) que narra a trajetória de uma dupla sertaneja; pelo que eu soube, com o dinheiro do tal filme, o diretor financiou a produção de Memórias do Cárcere ou Vidas Secas, pois o recém empossado na Academia Brasileira de Letras é grande admirador da obra de Graciliano Ramos e gastou dinheiro para produzir filmes baseados em livros de grande autor alagoano.
     Considero uma aberração cultural o filme de Cacá Diegues sobre o Quilombo de Palmares (que contou com a assessoria e o aval de renomados intelectuais negros), mas gostei muito de Chuvas de Verão, Chica da Silva, do mesmo diretor, é uma porcaria e houve uma minissérie na televisão, com o título de Chica da Silva, com roteiro de Antônio Calado, muito boa. O cortiço foi um filme excelente, mas a refilmagem foi absurdamente ruim. Para não alimentar polêmicas indevidas, pois eu correria o risco de elaborar uma lista de vinte piores com filmes consagrados (por exemplo, O homem que copiava) e de vinte melhores com filmes não valorizados pelos especialistas (por exemplo, O caso dos Irmãos Naves), eu preferi desconsiderar o cinema nacional na minha relação.
     A minha lista é tão inconsistente que, eu precisasse elaborá-la outra vez, por certo, cerca de oito filmes seriam incluídos nela, por um motivo muito simples, como não sou sistemático, não disponho de anotações sobre filmes que vi, eu me esqueço até mesmo de alguns dos favoritos. Ao escrevê-la, uma coisa não me surpreendeu: o neo-realismo é minha preferência.
Transcrevo a minha lista.

1. Guerra e Humanidade (Ningen no Joken), de Masaki Kobayashi. Japão, 1961.
2. Roma, cidade aberta (Roma, città aperta), de Roberto Rossellini. Itália, 1945.
3. Noites de Cabíria (Le Notti di Cabiria), de Federico Fellini. Itália, 1957.
4. Ladrões de Bicicleta (Ladri di biciclette), de Vitorio De Sica. Itália, 1948.
5. De Crápula a Herói (Il Generale della Rovere), de Roberto Rossellini. Itália, 1959.
6. Viver (Ikiru), de Akira Kurosawa. Japão, 1952.
7. Pai Patrão (Padre Padrone), de Irmãos Taviani. Itália, 1977.
8. Os deuses malditos (La Caduta Degli Dei), de Luchino Visconti. Itália, 1969.
9. Tempos modernos (Modern Times), de Charles Chaplin. EUA, 1936.
10. Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso), de Giuseppe Tornatore. Itália, 1989.
11. Amarcord (Amarcord), de Federico Fellini. Itália - França, 1973.
12. Corações e mentes (Hearts and Minds), de Peter Davis. EUA, 1974.
13. Um dia um gato (Az Prijde Kocour), de Wojtech Jasny. Tchecoslováquia, 1963.
14. Inquilino (Le Locataire), de Roman Polanski. França - EUA, 1976.
15. Encouraçado Potenkin (Bronenosets Potyomkin), de Grigori Aleksandrov e Sergei Eisenstein. URSS, 1929.
16. O Incrível Exército de Brancaleone (La lncredible Armata Brancaleone), de Mário Monicelli. Itália, 1965.

Poderiam compor a lista:
Os companheiros; Acusem de minha morte Klávdia K. (URSS); Um clarão nas trevas (Wait Until Dark, de Terence Young. EUA, 1967.); México insurgente (Reed, México insurgente, de Paul Leduc. México, 1970) ; Thelma e Louise (Thelma & Louise, de Ridley Scott. EUA, 1991.); O grande ditador (The Great Dictator, de Charles Chaplin. EUA, 1940); Luzes da Cidade (City Lights, de Charles Chaplin. EUA, 1931); Operação Patty Candela (Patty Candela, de Rogelio Paris. Cuba, 1976); O poderoso chefão (de Francis F. Coppola. EUA); Verão de 42; Casablanca (de Michael Curtiz. EUA, 1942.); O caso Mattei; Panberi ne Zimbabwe (Panberi ne Zimbabwe, de João Manuel Costa e Carlos Henriques. Moçambique - Zimbabwe, 1981); I de Ícaro (I comme Ícaro, de Henri Verneuil, França, 1979.); Sacco e Vanzetti (Sacco e Vanzetti, de Giuliano Montaldo. Itália, 1971.); A festa de Babette (Babettes Gaestebud, de Gabriel Axel. Dinamarca, 1987); Cidadão Kane (Citizen Kane, de Orson Welles. USA, 1941); Um corpo que cai (Vertigo, de Alfred Hitchcock. USA, 1958); Uma carta de amor (Message in a Bottl, de Luis Mandoki.EUA, 1999); e outros, incluindo quase todos de Fellini, De Sica (menos a Estrada da Vida, é claro!)... e seria uma lista infindável.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quinta-feira, Julho 27, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sábado, Julho 22, 2006


Aos que vierem depois de nós
          Bertolt Brecht (tradução de Manuel Bandeira)

Realmente, vivemos tempos muito sombrios!
A inocência é loucura.

Uma fonte sem rugas denota insensibilidade.

Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes,
em que é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!

Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo.

Mas evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo.

Realmente, vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia.

Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, - espero.
Assim passou o tempo que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas.

E a meta achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes, desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz.

Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.


     Em 2004 a BBC de Londres fez uma pesquisa entre europeus cuja pergunta principal era: qual o estado que representa maior perigo à paz mundial? Por esmagadora maioria os europeus responderam: Israel.
     Acusado de ser o responsável pelo massacre de Sabra e Shatila no Líbano, em 1982, Ariel Sharon foi considerado culpado de ato de genocídio pelo próprio parlamento de Israel.
     Mais uma vez a escalada do terrorismo de estado nos deixa estarrecidos. Tudo isto nos choca, mas também fico envergonhado e indignado quando vejo muitos pacifistas afirmarem que não há condição para a interrupção imediata das atrocidades cometidas pelo governo israelense com total apoio do governo estadunidense. Até que ponto Israel precisa destruir escolas, postos de saúde, casas, estradas, empresas, infra-estrutura e matar, matar, matar? Só depois de muita destruição e dor, os tais pacifistas dirão: Shalom Hachshav, Paz Agora!

Sobre terrorismo de estado, já tratei aqui.

Voa, voa, voa...

     Em 40 meses de governo, Lula fez 102 viagens internacionais e 283 viagens nacionais; ficou 382 dias fora do Brasil e 602 dias fora de Brasília, em resumo: dos 1.201 dias de governo, ficou 984 dias "voando". Ganhará o título de Presidente Abelha do século, pois quando não voa, faz cera e... adora "mé"!
     Concordo com quem diz que o problema não é Lula ir para o exterior, o problema é que ele sempre retorna.
Obs.: mé, corruptela de mel, referência à cachaça.

Registro

A aniversariante do dia é Geórgia de Ponto Gê, parabéns!


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sábado, Julho 22, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Terça-feira, Julho 18, 2006


Bodas de Coral

     São trinta e cinco anos de estrada de um dos mais importantes grupos musicais do Brasil. O grupo pernambucano Quinteto Violado inicia as comemorações dos seus trinta e cinco anos de carreira na próxima quinta-feira (20), a partir das 20h. Será um espetáculo diferente, num dos restaurantes mais charmosos de Olinda, a Capital Brasileira da Cultura, a Oficina do Sabor. Além do "apimentado" repertório do DVD 5 Peba na Pimenta, recém lançado pelo grupo, o chef César Santos oferece um jantar a altura da ocasião. A outra inovação da apresentação fica por conta da interatividade. Não vai existir um palco propriamente dito, o público presente vai poder fazer perguntas, tirar dúvidas sobre a vida e carreira do grupo. As pessoas presentes também vão conferir, pelo telão, as participações especiais de Dominguinhos, Chico César, Geraldo Azevedo e Pedro Salu no DVD, gravado no SESC Vila Mariana, em São Paulo. Os ingressos individuais para o espetáculo e o jantar vão custar R$ 150,00 (ao lado do palco) e R$ 70,00 (na parte superior do restaurante com telão). Estão à venda no restaurante e pelo telefone (81)3429-3331. Eu vi uma apresentação parecida, sem tanto charme, no Mistura Fina, no Rio de Janeiro, no lançamento do CD retrospectiva em 5 movimentos.
Evento: lançamento do DVD 5 Peba na Pimenta
Local: Oficina do Sabor - Rua do Amparo, 335, Amparo - Olinda - PE
Data: 20/07/2006 ¿ quinta-feira
Horário: a partir das 20 horas
Ingresso, com jantar incluído:
     Ao lado do palco: R$ 150,00
     Parte superior: R$ 70,00
Informações: (81)3429-3331

Sorteio do DVD, para participar gratuitamente, por favor, clicar aqui

Ai... se sesse!

     Em 1992, em Arcoverde, Sertão de Pernambuco, o poeta paraibano Zé da Luz foi desafiado a fazer um improviso no qual falasse de amor, evidentemente, no linguajar matuto, como o que ele utilizava em seus poemas. Sem se fazer de rogado, Zé da Luz produziu a pérola que transcrevo a seguir.

Ai... se sesse!

Se um dia nóis se gostasse
Se um dia nóis se queresse
Se um dia nóis dois se impariasse
Se juntinho nóis dois vivesse
Se juntinho nóis dois morasse
Se juntinho nóis dois drumisse
Se juntinho nóis dois morresse
Se pro céu nóis dois assubisse?!
Mais, põem, se acuntecesse
Que São Pêdo num abrisse
As portas do céu e fosse
Te dizer quarqué tolice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse
Pra que eu me arresorvesse
Eaminha faca puxasse
E o bucho do céu furasse?!
Tarveiz qui nóis dois caísse
E o céu furado ariasse
E as virge todas fugisse?!?


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Julho 18, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Quinta-feira, Julho 13, 2006


Rui Nogar

     Francisco Rui Moniz Barreto, Rui Nogar, nasceu em Lourenço Marques (Maputo), Moçambique, em 1932. Militante da Frelimo foi o primeiro Secretário-Geral da Associação de Escritores Moçambicanos. Silêncio Escancarado foi o seu único livro. Faleceu em 1993. Apresento abaixo, dois poemas de Rui Nogar.

Xicuembo

eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria.
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco

agora eu quer dormir quer comer
mas não pode mais dormir
mas não pode mais comer

suruma dos teus ólho Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração

eu bebeu suruma oh suruma
suruma dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração

e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo o gente
é mulher de todo o gente
todo gente todo gente

menos meu minhamor


Altruísmo (em nome de Lavoisier)

eu quero morrer
na devida altura
com caixão de chumbo
lágrimas de família
e cadáver simétrico

mas um padre não mãe
tem paciência
o céu que me destinavas
será o chão que me acolher

e quando já ninguém
estiver observando
e o chumbo se cansar de geometria
e todos me julgarem já inútil

eu regressarei à terra de mansinho

e de livre vontade
de livre vontade vos juro

matarei a fome
a dez milhões de parasitas

isto para que não digam
que não servi para coisa alguma

in "Silêncio Escancarado"

O Fio de Amizade - Lisboa (anos oitenta) - Glória de Sant'anna

Eu já tinha visto lá adeante por sobre as cabeças que se movem os olhos azuis do Mia.
Há um aceno.
Está muita gente.
A Teresa aproxima-se feliz no ambiente da inauguração da exposição dos seus quadros, em que aqui e além por entre os outros, há pássaros bizarros de outra dimensão.
"Venha cá. Olhe o Rui Nogar."
Todos nos conhecemos de nome, mas por vezes não em pessoa.
É o caso. A curiosidade é reciproca.
Ele tem um rosto calmo de curvas cheias, onde se reflecte uma espécie de serenidade fugidia. A face é de um suave bronze claro. Uma poalha de cabelo branco.
Quebro o momento:
"Está sempre em Lisboa?"
"Nem sempre."
"Alguém me disse que está com um trabalho sobre literatura."
"Sim. Estou a fazer, estou a preparar um estudo literário para Moçambique. Mas as recolhas, as pesquisas, as análises comparativas, tudo leva tempo. Mais tempo do que se prevê."
"Mas quando vem alguém de lá e queira fica em minha casa.
Hoje chegou o Mia."
"Eu sei. Estou a vê-lo. Vem aí."
Entretanto a Teresa já deambula por entre os visitantes.
Sorrio ao Mia - que ainda recordo pequeno, em algumas das minhas breves idas do norte à Beira.
"Agora estou na Inhaca, diz ele. Troquei medicina por uma defesa de tese em biologia. A Inhaca precisa de cuidados urgentes. O mar faz uma grave erosão na Ilha. Há que estudar a maneira de a deter antes de dez anos..."
O Rui Nogar escuta. Eu escuto enquanto vou pensando no que de esforço, paciência e tecnologia serão precisos para não perder a Inhaca. Porque isso me comove digo de repente:
"Plante pinheiros!" O Rui exclama: "Isso não..."
E o Mia, rápido, corta a possível súbita associação de ideias: "Nada. Ela está-me a picar."
A conversa suspende-se em risos.

Foi assim que vi o Rui Nogar pela primeira e última vez.
Soube que ele morreu.
Quem mo disse chorava.
É a partida. O vazio. A ausência.
Mas o fio indefinível da amizade que une os poetas, permanece.
Seja onde for, permanece.


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De Camões a Pessoa

"De Camões a Pessoa - A Viagem Iniciática" (Editora Sete Caminhos), com pinturas e textos de Ellys e poemas de Maria Azenha, é o livro que será apresentado na Casa Fernando Pessoa no próximo dia 17 de Julho pelas 18h30. Sobre o mesmo, escreve Luciano Reis na contracapa: "... é uma obra que nos proporciona podermos fruir da respiração vibrátil dos dois maiores mestres da literatura portuguesa. Por isso a sua dimensão vai para além daquilo que está escrito."
A sessão contará com leitura de poemas a cargo de Paulo Anes, também ele poeta.

CASA FERNANDO PESSOA:
Rua Coelho da Rocha, 16-18 Campo de Ourique
1250-088 Lisboa
Tel: 21 3913270 / 21 3913277


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quinta-feira, Julho 13, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sábado, Julho 08, 2006


Vidas secas

     Reproduzo a seguir comentários de Marcelo Xavier, de O profeta do acontecido, sobre o romance Vidas Secas de Graciliano Ramos.


     Três meses depois de ser libertado de seu cárcere da Ilha Grande, Graciliano Ramos resolveu escrever um conto inspirado no sacrifício de uma cadelinha que foi morta diante dos seus olhos, quando o escritor alagoano era menino, em Buíque, no sertão pernambucano. Diante das resmas de papel, na penumbra e a pena suspensa, pensou; "o que se passa na cabeça de uma cachorra?". Imaginou que o pobre animal se imaginaria renascendo num "mundo cheio de preás". E escreveu a história, começo, meio e fim.

     Publicada sob encomenda para o suplemento literário de O Jornal, depois de enviar o texto, começou a se arrepender (como acontece a quase todos os escritores). Para ele, o conto parecia fraco, sem qualidade. Mas resolveu deixar passar: de qualquer maneira, precisava dos honorários para poder sustentar sua família. Mesmo assim, o sentimento de que seu escrito soava ruim lhe assomava. Dias depois, ao retornar aos encontros nas rodas de leitura da Livraria José Olympio, se surpreendeu com a repercussão positiva que seu conto provocara ali. O poeta Augusto Frederico Schimidt e Zé Lins do Rêgo insistiram para que Graciliano continuasse aquela instigante história.

     Imaginou que a cadela pertencesse a uma família de retirantes, que chega a uma fazenda abandonada, sobrevivendo de maneira famélica. Perseguidos pela polícia, são obrigados a errar pelo sertão. Assim nascia Vidas Secas , decerto o livro mais bem escrito que já li (e reli). Escrito com lavor de joalheiro, um primor de elegância e estilo. Sobre o romance, existem dois fatores que o tornam também peculiar dentro da obra do autor de São Bernardo. O primeiro é que é o seu único livro escrito na terceira pessoa; o segundo é que, por uma questão de ordem financeira, ele se tornaria numa obra originalíssima. Já que o Velho Graça tinha mulher e filhas para criar, ele se obrigou a produzir o livro em forma de contos em separado, para poder publicá-los (como ocorreu com o primeiro), para dezenas de revistas e jornais.

     Dessa forma, Vidas Secas nascia como uma colcha de retalhos cerebralmente concebida. Cada "conto" era enviado a publicações como Diário de Notícias , O Cruzeiro , O Jornal , onde ele espertamente mudava apenas o título. Por conta disso, ao lermos a obra de forma linear, não encontramos uma narrativa segmentada. Baleia, o primeiro texto a vir à lume, foi o primeiro (como sabemos). Um mês depois é que Sinhá Vitória ganhava revisão final. Paradoxalmente, é possível encontrar uma lógica temática, conceitual, dentro de vários esquetes em texto, como se fossem quadros de uma exposição. Outro "Velho", o Rubem Braga o chamava de "romance desmontável"...

     Graciliano era extremamente rigoroso e metódico ao escrever. Depois do esboço, ia escrevendo e reescrevendo, limando e polindo, moldando e remoldando, como se fosse um joalheiro ou escultor, a buscara forma ideal. Como se sabe, o Velho reescrevia seus textos sem parar, só os publicando depois que estivessem finalmente enxutos e livres de excessos. É por isso que o seu estilo é tão peculiar e para mim o mais bem elaborado de toda a história da Literatura Brasileira. Mais do que o enredo, ou até muito mais, é isso o que tanto atrai nos livros de Graciliano: é um convite à discrição e sobriedade literárias.

     Essa secura estilística também estava retratada e plenamente exposta no enredo. Para ele, a exposição de quadros era a descrição fiel de uma região "aspérrima" (pegando o termo euclidano). Certa vez, o Graça disse: "procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na área mais recuada do sertão, observar a reação desse espírito bronco ante o mundo exterior, isto é, a hostilidade do meio físico e da injustiça humana". Para o autor de Caetés , portanto, para ela, a sua demanda psicológica ia além da leitura dos regionalistas como Zé Lins (Fogo Morto) e José Américo de Almeida (A Bagaceira). É essa secura e ótica portinaresca e ultra-realista que fundiu a cuca da crítica literária. Até então, nenhum um autor brasileiro havia chegado tão fundo naquele universo rarefeito e sombrio de Vidas Secas .

     E Baleia? Sempre achei curioso (e nunca é desproposital) que este nome, que evocasse mares camonianos, fosse um paradoxo num mundo árido. Mas o maior paradoxo é perceber que ela era o elo racionalizante num mundo onde o homem se torna irracional (Fabiano, que demonstra dificuldade de se comunicar com outras pessoas, como na cena em que ele apanha do "polícia") e pode, enfim, projetar uma relação harmônica com os animais: "Baleia andou feito gente, com dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do seu corpo". E essa harmonia é perfeita, exemplar, tudo se relaciona, tudo se planifica, tudo é pleno. Nesse ponto, o Velho Graça consegue demonstrar toda a riqueza poética do seu mundo crestado e patético.

     Porém mais do que isso, os seis meses que compreenderam a odisséia de Baleia e sua família significam um outro valor maior "que se alevanta": além, muito além do inefável drama dos retirantes, como afirma o ensaísta Dênis de Moraes, em Vidas Secas , Graciliano defenderia essa dura realidade com a arma que ele dispunha ao seu alcance: a sua inabalável convicção pela potência das palavras.


Nota minha: o parto de sá Juvita, cantado por Luiz Gonzaga, diz que, no Nordeste, cachorro de pobre tem nome de peixe.

Registro

     No dia do nascimento de meu neto, aniversariou Paulo Patriota de O zoom cotidiano, ontem aniversariou a Bisbilhoteira de Bisbilhoteira de plantão, a ambos parabéns, desejo mais um ano de alegrias e realizações.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sábado, Julho 08, 2006
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Julho 03, 2006


Merci, Parreirrá et Zagalô, merci beaucoup

     Dizem que não é possível agradar a gregos e troianos, mas Rivaldo e Alex agradam a gregos, troianos e turcos! Estão em plena forma e jogam um bolão. Rivaldo, de tão audacioso, numa decisão de campeonato espanhol, jogando pelo Barcelona, na entrada da área, de bicicleta, fez o gol do título, ousou e venceu. Alex foi peça fundamental do Palmeiras e do Cruzeiro em seus mais recentes títulos nacionais, mudou pouco a forma de jogar, continua sendo um grande armador (coisa que a seleção nacional não teve) e um mestre na bola parada, de diferente apenas o fato de ter se transformado em artilheiro no campeonato turco. Nem foram convocados. Parreira e Zagalo convocaram jogadores fora de forma, mas com patrocinadores influentes. Em 1994, Parreira convocou um tal de Paulo Sérgio, empresariado pelo mesmo empresário do próprio Parreira, tendo feito parte da seleção, conseguiu um contrato em um clube alemão e ninguém ouviu mais falar dele.
     A seleção é a cara do país: os interesses das transnacionais se sobrepõem aos interesses populares, além disto, falta honestidade e competência ao comando.
     Para ler uma entrevista com a visão de Eric Hobsbawm sobre a Copa do Mundo de Futebol, por favor, clicar aqui.

Avô

     Viajei para Curitiba onde acompanhei o nascimento do meu primeiro neto. Em momento tão emocionante é impossível não pensar na vida e no mundo que recebe um bebê tão especial. Quando me tornei pai, muitos de nós lutávamos para transformarmos a realidade e propiciarmos liberdade, paz, justiça e igualdade às futuras gerações. Ao me tornar avô, constato que, por incompetência, oportunismo ou covardia, mantivemos o mundo como ele é; minha esperança é que as futuras gerações cumpram o papel que não cumprimos.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Julho 03, 2006
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Praia do Porto - Costa Dourada
Litoral Sul de Pernambuco
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Parque das Emas
Goiás - Mato Grosso do Sul
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Chapada dos Guimarães
Mato Grosso
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Serra dos Órgãos
Estado do Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Campos do Jordão
São Paulo
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Provetá - Ilha Grande
Estado do Rio de Janeiro
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Candeias
Jaboatão dos Guararapes
Pernambuco
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Mercado São Josá - Recife
Pernambuco
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Piedade
Jaboatão dos Guararapes
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Pouso Alegre
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Vista de Casa
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Cristo Redentor
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Nascente - Pão-de-Açúcar
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Santa Tereza
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