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Rabiscos e divagações

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Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos.
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Rabiscos e divagações
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Agostinho Neto
"Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos"
Vital Farias
"Não há vento favorável para quem não sabe a que porto quer chegar"
Luiz Carlos Prestes
"Eu não vivo do passado, o passado é que vive em mim"
Paulinho da Viola
"Quando a riqueza de poucos afronta a miséria de muitos, a insegurança é de todos"
Josué de Castro


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wDivagações e citações - Segunda-feira, Maio 29, 2006


Peba na pimenta

     Certa vez, através do MSN Esther me entrevistou em porcas e parafusos e eu fiquei muito impressionado com o resultado, pois Esther foi muito competente, eu comentei a entrevista aqui. Não tendo o talento e a competência de Esther, eu não me arrisco. Foi assim que, um dia destes, numa conversa emessênica com Toinho Alves do Quinteto Violado eu disse que gostaria de entrevistá-lo para publicar alguma coisa aqui no Agreste. Ele se prontificou a fazermos a entrevista na hora, mas eu sugeri que ele me enviasse um texto curto sobre o DVD recém lançado pelo Quinteto, ele se propôs a escrever na hora, dando uma idéia geral para que eu tivesse uma base para escrever um texto meu ou usar o dele e me deixou à vontade para alterar o texto como achasse conveniente. Cinco minutos depois, Toinho me enviou o texto, eu li e pensei que não valia a pena reescrever, resolvi transcrevê-lo.


     "Seu Malaquias preparou...": Cinco Peba na Pimenta! O show é uma seqüência que conta a história da Música Popular Nordestina, no contexto da MPB, movida pelo espírito de vanguarda do Quinteto Violado. Premiando os tópicos de seu repertório. Precisamos de uma poesia de "costura" Buscamos Xico Bizerra.Convite feito e aceito. O poeta recifense é quem conta, em versos, o valor da banda e, nela, quem é cada um. Cada um dos cinco, e esse cinco que é um. No esqueleto do roteiro, seis módulos de espetáculo, envolvendo música e dança. Num cenário do pintor Manuel Dantas Suassuna e sua arte "animal e sacra" de um Nordeste parido, com asas e votos, os cinco são personagens vivos de sua própria história, de um passad-presente-futuro que está pra ser dito
     Já a abertura do show formula a proposta: cada "pimenta" ardendo no seu tempo, com suas características, serenamente, "enrubescendo" ao cantar suas "loas" e sua feliz história de "Retirantes". Já afirmada em outros tempos até. Gente do bem, pois vai e volta, que faz ferver o caldeirão da história. Então, é a vez do povo, que saúda seu orgulho (e porque não: glória!): ao dançar o Mergulhão - uma reprodução do momento que antecede o Cavalo Marinho, em suas apresentações. O Quinteto pede licença, e com a benção do Maracatu Piaba de Ouro e do Mestre Salustiano vê o bailarino-filho: Pedro Salu. Num intercâmbio, de fato, com o paulista Ivaldo Bertazzo e seus "cidadãos" dançantes.
     Pés aflitos fazem o pedido: toque Quinteto, "for all", toque! Ouvidos e olhos também... Daí, a partir de agora, o Brasil ¿ o mundo inteiro - vai ver e ouvir, em DVD. O Quinteto Violado e seus amigos convidados: Dominguinhos, Geraldinho Azevedo e Chico César. Eles que compõem um quadro da música brasileira, com moldura criada e esculpida nos arranjos do Quinteto Violado. Com seus "entalhes" profundos de elementos populares e instrumentos eruditos.
     O repertório que não foi conquistado em vinte e cinco ou trinta e cinco dias. Foi depurado e ¿bem curtido¿ em trinta e cinco passos - anos de trajetória musical. O Quinteto de "Violados" Nordestinos, que desde meninos, descobrem seus "versos", numa busca que nasce no interior de Pernambuco. Músicas de seu Luiz (Gonzaga), Humberto Teixeira, Zé Dantas e Zé Marcolino.. De Guio Moraes a João do Vale, João Batista e Rivera. E do próprio Quinteto, de Toinho a Marcelo, de Dudu a Ciano, de Roberto a eles mesmos...


Aniversariantes

     Nos dias 26, 28 e 30 deste mês três aniversariantes dos elos agrestinos, respectivamente: Acir Vidal, Mariza Lourenço e Fernando Cals. Acir, em Contra o Vento satiriza tudo e, como é comum no Brasil, ri de nossa triste situação. Mariza, de Proseando, desenvolve intensa atividade literária na blogosfera, sendo criadora de listas de discussão literária e blogues coletivos, além de ajudar muita gente criando o gabarito de muitos blogues. O Arquiteto Fernando é um atento Observador a ponto de descobrir Agreste através de Bloggagens de Flora, minha filha, desde então eu o incorporei aos elos agrestinos e o leio regularmente. Como Acir é amigo de Elomar e padrinho de filho de Xangai, em homenagem aos aniversariantes, ofereço um CD com muitas músicas de Elomar na voz de Xangai. Para baixá-lo, clicar aqui.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Maio 29, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Quarta-feira, Maio 24, 2006


Comentários

     Na época da Rádio Nacional, as Irmãs Batista se destacaram e se tornaram famosas em todo Brasil. Em Pernambuco, famosos mesmo eram os Irmãos Batista: Dimas, Otacílio e Lourival, cantadores dos melhores, inclusive citados no poema de Manuel Bandeira plagiado por Djavan (ver aqui). Um conterrâneo destes famosos cantadores, Paulo Patriota, de O zoom cotidiano, outro dia fez um comentário à postagem sobre a Oficina Francisco Brennand. Eu li o comentário e, para minha surpresa, na postagem seguinte, Paulo comentou que o seu comentário na postagem anterior sumira. Fui verificar e constatei que era um fato. Eu não sei se isto já ocorreu com outras pessoas, mas asseguro que jamais alterei ou editei comentário algum. E não o fiz por quê?
     Conheço muita gente que muda a postura, o comportamento, ao deter algum poder, mesmo que seja uma parcela mínima e localizada de poder. É um grande aprendizado o exercício do poder. Na atual conjuntura política brasileira, vemos completa dissociação entre o discurso e a prática. O governo, além de não fazer o que prometeu, faz o que sempre combateu. Parte da oposição, que já foi governo, usa os mesmos expedientes que o atual governo usava quando era oposição.
     O que isto tem a ver com os comentários de um blogue? É que temos todo o poder em relação a eles. O que fazemos no exercício deste micropoder pode ser projetado para o caso de sermos, por exemplo, donos do Mundo. Um déspota esclarecido exerce a censura; inicialmente para proibir a publicação de inverdades; depois, para impedir que o povo seja desinformado; noutro momento, para não permitir que dados e informações incorretas sejam publicadas; noutra circunstância, uma notícia pode ser prejudicial ou inoportuna; veta um crítica injusta e infundada; um belo dia, pelo hábito do exercício do poder absoluto, proíbe por que não gosta e vai mais longe, proíbe por que não está do jeito que ele quer.
     A única forma sensata de lidar com o poder que temos sobre os comentários feitos nos nossos blogues é deixá-los como são feitos, é resistirmos à tentação de corrigirmos um errinho de digitação, ou fazermos um pequeno acerto, um simples ajuste... não! Este é o tipo de poder que, por princípio, não devemos exercer.
     Eu expliquei a Paulo Patriota que não excluí o comentário dele, não o faria por ele e não o faria por mim. Espero que tenha sido o único comentário excluído, por razões desconhecidas. Se mais alguém teve comentário excluído, peço desculpas e assevero que não fui eu, aliás, a exclusão de comentários não é problema meu, não é problema do provedor, não é problema de quem o postou, mas é, como diria o apedeuta-mor, um problema da sociedade brasileira, assim sendo, não precisa nem pode ser resolvido.
     Aproveitei a minha passagem virtual pelo Sertão de Pernambuco e roubei uns versos publicados por Raimundo Pajeú.


O chifre pra muita gente
Seja linheiro ou com dobra
Serve para corrimboque
E guarda rapé que sobra
E ainda sendo queimado
Serve para espantar cobra.

Se numa casa qualquer
O chifre é dependurado
Serve pra trazer fortuna
Ou pra tirar mau olhado
Cura também dor de dente
Se for chifre de veado

O chifre sendo linheiro
Para as bandas do sertão
Bota-se na prateleira
Da bodega e no balcão
Para tirar a coragem
Do caboclo valentão.

Porém chifre na cidade
É coisa bem diferente
Serve pra fazer palheta
Botões de camisa e pente
E só não dá muito certo
Chifre em cabeça de gente.

João Siqueira de Amorim


Luandino Vieira

     Em algumas oportunidades, fiz referências ao escritor angolano Luandino Vieira, inclusive ousei afirmar que Mia Couto não existiria sem terem existido Luandino Vieira, Arnaldo Santos, José Craveirinha, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa... (ver aqui, aqui e aqui) Na verdade, sempre tive intenção de escrever especificamente sobre Luandino, mas encontrei um comentário de Alberto Oliveira Pinto que, de certa forma, me exime da tarefa de apresentá-lo, bastando a transcrever o comentário.

     Na minha adolescência, na segunda metade da década de 70, Angola independente era um anátema em Lisboa e em todo o Portugal, e ler escritores angolanos um tabu. O único recurso que então encontrei de me reaproximar do meu país foi lendo autores brasileiros. Mas havia uma ilha, quase uma lenda, nas livrarias de Lisboa: os livros de Luandino Vieira! Li-os todos e durante anos Luandino foi, para mim, A LITERATURA ANGOLANA.
     Só conversei com ele muito mais tarde, há poucos anos, em casa de Arnaldo Santos, onde percorremos a nossa Luanda saboreando a kitaba da Zeza e do Arnaldo. Luandino, o Kota do Maculusso, confirmou o que eu sempre suspeitei: a Maria da Fonte do Kinaxixi era a Kianda soterrada! O Prémio Camões de Luandino é de todos nós, aqueles para quem Luanda é a cidade da infância, mas também a da maturidade. Luandino não retrabalhou apenas o kimbundu e o português do musseque. Subverteu o discurso colonial português, defrontando-o corajosamente na cadeia. Depois da independência, foi pioneiro na televisão de Angola, sem nunca ter visto televisão antes. Luandino ajudou a construir o país. Luandino imortalizou a cidade de asfalto e o musseque. E Luandino imortalizou também... o Parque Heróis de Chaves! Viva Luandino Vieira!!!!
     Tua sakidila, tata iami!!!!


Cobras e linguagens

     Transcrevo um trecho do livro A Casa Velha das Margens de Arnaldo Santos, pois acho que ele tem a ver com a entrevista de Mia Couto publicada na postagem anterior e com o comentário de Alberto transcrito acima.


     Mas, mesmo que se acreditasse saído da barriga da jibóia, ou de outro mundo desconhecido, ele não era profeta e muito menos um padre. Se começasse a falar de maneira misteriosa, cada vez poderiam pensar que ele tinha avariado da cabeça, devido a arrochada que lhe deram, e que estava louco.
     Um dia viria, que ele também falaria depois a cada um, a seu tempo, e tudo lhes faria constar de si próprio, no que fosse conveniente, nas suas próprias línguas e nas suas próprias maneiras. Onde teria lido algo semelhante? Nos Sermões do Padre António Vieira, seguramente. Mas algo lhe obrigava a atraiçoar o texto, Padre Vieira não dissera, decerto, nas próprias maneiras, não estaria propriamente assim nos discursos. Naquela sua terra que ele voltara a reencontrar, havia mais que uma maneira de falar. Fala do sunguilamento, fala de mambo, fala de maka, as exclamações, os gestos e os silêncios eram atributos necessários. Como lhes poderia falar numa só linguagem? Era essa uma decisão interior que começava a nascer, e Emídio não suspeitava onde ela lhe poderia conduzir. Não poderia sr um aventureiro na sua própria terra, suas raízes lhe impediriam de errar como um desconhecido, mas esse pensamento, ainda que honesto, no momento desgostou-lhe. Amarrava-lhe


Glossário

1.
O glossário não é um extrato de dicionário, trata-se do vocabulário específico publicado em Agreste, em geral formado por palavras e expressões de línguas africanas ou regionalismos pernambucanos.
2.
O glossário pretende elucidar o uso de termos e expressões como são publicados em Agreste, empregados em outros contextos, alguns possivelmente têm significados diferentes.
3.
Para acessar o glossário, por favor, usar o menu superior ou clicar aqui


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Maio 24, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sábado, Maio 20, 2006


Raramente saímos de nós

     Mia Couto lançou, recentemente, o livro O outro pé da sereia, em função disto, esta semana, Tito entrevistou-o com exclusividade e transcrevo a entrevista abaixo.


Tito:
     Como nasceu este livro, O outro pé da sereia?
Mia Couto:
     Há tanto motivo de inspiração, mas o principal foi um documento do século XVI, da presença portuguesa no interior de Moçambique, na zona do Vale do Zambeze. Há ali um episódio verídico, de um missionário jesuíta, D. Gonçalo da Silveira, que num certo momento vem catequizar o imperador de Monomotapa que era importante para a estratégia portuguesa de domínio da Rota do Ouro. O que sucede com este senhor é que, quando ele chega, em 1560, é recebido por um português que fazia o papel de ministro do comércio na corte do imperador.
Tito:
     Mas já está a revelar o fio da narrativa?
Mia Couto:
     Não. Este é o episódio verídico, não o que vem no livro. Este ministro leva ofertas para demonstrar a simpatia do imperador. Leva ouro e o jesuíta rejeita. Manda mulheres e o jesuíta rejeita, dizendo que a mulher que tem a sua devoção é: uma imagem de nossa senhora, benzida pelo papa. Por via de vários equívocos de tradução de português para o dialecto local, faz com que lhe chegue a informação ao imperador de que o português tem uma mulher. O imperador pergunta: e ela é bonita? E dizem-lhe que é lindíssima. Aí o imperador exige ver a mulher. O D. Gonçalo lá vai, por via dos equívocos, convencido de que o imperador já está interessado em se converter.
O imperador ajoelha-se e diz que quer passar a noite com a imagem. Aí adensa-se o equívoco. O missionário diz que tem de haver muito respeito, mas acede a que seja construído um altar no quarto do imperador. Às quatro da manhã o jesuíta é chamado de urgência ao imperador que lhe diz que aquela mulher passou a noite a falar com ele numa língua que ele não entendia. Agora fica a interrogação, de que maneira teria o D. Gonçalo aproveitado esta situação?
Tito:
     E como é que ele (Jesuíto) aproveitou este episódio?
Mia Couto:
     Disse ao imperador que se ele se convertesse iria entender tudo o que aquela mulher lhe tinha dito. E ele aceitou e converteu-se. Estranhamente, uma semana depois, D. Gonçalo é assassinado. Ele tinha alguns sinais de que isso lhe pudesse acontecer. Ele deixa escrito "mais preparado estou eu para morrer, do que aqueles que me vão matar" e diz ainda "irão lançar o meu corpo onde nunca o encontrarão".
Estes dois vaticínios são verdadeiros. Ele é atirado para a margem do Zambeze e nunca mais o encontraram, nem à estátua
Tito:
     De que forma isso acaba por ser aproveitado para o romance?
Mia Couto:
     Aproveito isto e faço com que um pastor, nos dias de hoje, veja cair do céu um objecto, que ele pensa ser uma estrela. Ele acha que aquilo que cai do céu é efectivamente uma estrela e decide enterrá-la junto ao rio. É nesse momento que ele descobre a ossada de D. Gonçalo, a imagem da Nossa Senhora e um baú com documentos. Eu prometo não contar muito mais. Mas há sempre esta tentação de matar estas personagens para começar outra coisa. O livro caminha pelo cruzamento destas viagens e cruzamentos, mostrando que as viagens que empreendemos quase todas são ilusórias, quase todas não nos levam a lugar algum. Nós às vezes tomamos o facto de nos deslocarmos por viajar, mas não é a mesma coisa. Nós raramente saímos de nós, e só há viagem quando nos descentramos e conseguimos viajar através de outras pessoas.
Tito:
     Fala-se muito na questão da identidade e da identificação, até que ponto Moçambique lhe influencia directamente?
Mia Couto:
     Se não vivesse em Moçambique não escreveria assim, para além da questão da linguagem que é evidente, sobretudo devido a um determinado convívio com a realidade. Ali, a fronteira entre o que é ou não real é uma outra. Sem querer mistificar África, há uma percepção diferente do que é ou não é real. Mesmo junto dos meus colegas da biologia, devotos do pensamento racional, se eu lhes dissesse que aqui havia uma árvore que de noite nadava no rio, eles admitiriam que isso talvez fosse possível.
     Isto e um ensinamento óptimo, é sinal de que a ficção está ali e está patente.
Tito:
     De que forma?
Mia Couto:
     Por exemplo li, há algum tempo, no jornal estatal moçambicano esta estória. Durante duas semanas o Notícias de Maputo traz uma notícia de uma cobra que está a ocupar o edifício do distrito de Dondo (Câmara Municipal). A notícia diz que a cobra já matou seis pessoas, não através de picadela, mas porque pisaram a sombra dela. Mais curioso ainda, esta cobra, de noite, canta o hino nacional. Isto é dito como se fosse natural. Como se houvesse cobras cantadoras e patrióticas. Parte para lá um biólogo, cheio de equipamento para falar de cobras à população. No final eles agradecem, mas dizem-lhe que ele falou de todas as cobras, menos da deles.
     Ele diz: "mas eu falei, falei das mambas preta. Ela é uma mamba preta". A determinada altura já começa a haver dúvidas sobre se aquilo é efectivamente uma cobra. Aí o biólogo pergunta: "mas isto é ou não é uma cobra?". Eles respondem: "Quase é uma cobra senhor doutor, quase é". Esta categoria do "quase ser" é muito bonita, esta possibilidade de podermos "quase ser".


     Oportunamente, quando Tito liberar a publicação do resto da entrevista, pretendo publicá-la aqui.

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sábado, Maio 20, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Terça-feira, Maio 16, 2006


A Ilumiara Brennand, o primeiro contato

     Inexistia a Oficina Francisco Brennand quando lá estive pela primeira vez; eu um projeto, homem em formação, quinze ou dezesseis anos de idade, em mim se destacavam, como na maioria dos adolescentes, duas características: a necessidade de auto-afirmação, a qual resvalava para a empáfia, e a excessiva e angustiante timidez que, a duras penas, escapava do acabrunhamento, da misantropia. Estas duas características se sobressaíam nas aulas-passeio, como a que me levou à Cerâmica São João, dos irmãos Brennand. Arrogante, eu sabia tudo, principalmente distinguir se algo era verdadeiro, interessante ou importante. Nestas aulas, com rápida apreciação, eu formava juízo de valor e decidia se me interessaria pelo que me apresentavam ou se ficaria a buscar um entretenimento e optaria por fazer piadas, geralmente de mau gosto e politicamente incorretas, às vezes engraçadas. Tímido, procurava sempre permanecer no meio do grupo, até como forma de garantir o anonimato quando todos riam, fora de hora, após eu sussurrar uma piada. Ah! Outra característica digna de destaque era a minha ignorância, cultivada com um misto de orgulho e desleixo, pois jamais ouvira falar em um tal Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand, também desconhecia o fato de que aquelas terras pertenceram a um dos principais líderes da Insurreição Pernambucana, André Vidal de Negreiros. Confesso que não sei quanto esta informação alteraria o meu comportamento na tal visita, pois, desde pequenino, diante de mapas ou globos, eu ficava longo tempo parado, o que despertava a curiosidade geral, alguns imaginavam que eu tentava decorar os nomes de cidades e acidentes geográficos, ninguém sabia que eu observava deslocamentos de tropas imaginárias: Aníbal e seus elefantes, Spartacus, Taras Bulba; e quantas vezes fui um dos insurretos? Até namorei Ana Pais! Contudo, naquela visita, eu ignorava em que terras nós estávamos.
     Primeiro, visitamos a olaria. Lá, decidi que nada havia de interessante, como resultado, minhas lembranças se resumem ao imenso prédio de dez mil metros quadrados, quase em ruínas e, se não me engano, duas imensas chaminés. O fabrico de tijolos e telhas não representava novidade e não me despertou interesse. Depois, visitamos a fábrica de garrafas. Logo à chegada, ainda impregnado pelo desinteresse, fiz piadas, das quais não me lembro, provavelmente associei o lugar, com fornos e labaredas, ao inferno, devo ter apelidado algum operário de Canguinha ou outro nome de um diabo qualquer, mas um galego (que em pernambuquês significa aloirado) alto, com ares de dono daquele inferno, o verdadeiro Satanás, me despertou a atenção. Eu não me lembro de quando ele se aproximou do grupo de estudantes e começou a nos observar, mas me lembro de que ele respondeu a algumas perguntas provocativas que eu lançara e fez referência aos meus gracejos. Senti-me constrangido por ter sido observado, mas rapidamente o constrangimento se transformou em deslumbramento. Ele mais parecia um artigiano vidreiro, com habilidade ele criou algumas belíssimas garrafas. Em pouco tempo, por suas palavras, eu soube detalhes técnicos de fabrico e reciclagem de garrafas, como a malacacheta entra no processo, como o ferro torna o vidro esverdeado, como o cobalto o azula, como são impressas figuras na superfície do vidro de fantasia. O fogo, ao ressaltar o brilho dos seus olhos azuis me revelou que eu estava diante do verdadeiro Satanás que seduzia pela habilidade artística, pelas sábias palavras, pela capacidade de moldar barro, recriar alabastro e trabalhar a pedra, derretendo-a, soprando-a, dando-lhe cor e forma, petrificando a vida, dela mantendo graça e beleza. Como dizemos em Pernambuco, ele é o cão chupando manga: Francisco Brennand.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Maio 16, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sexta-feira, Maio 12, 2006


No mundo da bola

     Máicon Severino é o principal jogador do glorioso Independente. Hábil atacante, começa a despertar as atenções gerais e já sonha em jogar no Recife. Com um hordéolo, ele reclama muito e só se dispõe a jogar porque sabe que será observado por olheiros, segundo se diz, enviados da capital pela direção do Santa Cruz, contudo faz corpo mole e quer ser poupado do treino-apronto. Genésio Estrovenga, o técnico, não se conforma. Ele é ex-jogador, foi respeitado zagueiro, tendo inclusive se destacado na equipe do União. Isto no tempo que não se levava desaforo pra casa e que abaixo do céu da boca tudo era canela. Agora não, basta alguém triscar no atacante para ele se desmilingüir, rolar no chão, entrar em convulsão.
Genésio não se contém: — isto é muita frescura! bastou um cartazinho à toa e já ficou de salto alto!
Máicon insiste: — não dá pra treinar, arde muito!
Genésio apela para a Psicologia: — Máicon! Deixe de mi-mi-mi! Não é por causa de um terçol no olho que você não pode jogar! Deixe de besteira! Ôxe! Seja homem! Um simples terçol no olho!
Dr. Adalberto intervém: — Genésio... terçol no olho? Isto é pleonasmo!
Forma-se a rodinha e alguém pergunta: — Máicon, vai dar pra jogar contra o Comercial?
Máicon: — eu estava disposto a jogar à base do sacrifício, mas piorei muito, eu pensava que era um terçol no olho e a coisa ficou tão ruim que já virou um pleonasmo!

Entre flamenguistas

João Alberto: — estou desanimado, este ano o Flamengo será mais uma decepção.
Pedro Eugênio: — deixe de ser pessimista, você não vê que o time está renovado?
João Alberto: — é por isto mesmo, agora, o cobra do time é Minhoca!

Parabéns Moacy Cirne



MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sexta-feira, Maio 12, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Segunda-feira, Maio 08, 2006


A arte de bem postar

     Do pouco que sei sobre literatura, a maior parte aprendi em conversas com o amigo e escritor Moacir Lopes. Às vezes ele enumera e destaca atributos que caracterizam bons e maus escritores. Ele costuma dizer que os maus escritores exigem muito de seus leitores, por falta de clareza ou concisão e, muitas vezes, por falta de informação; que um escritor não pode ser panfletário ao dar informações, mas não pode presumir que o leitor sabe, previamente, o que ele quer dizer, tudo tem que ser dito de forma simples, clara e objetiva. A simplicidade é sempre destacada pelo amigo Moacir Lopes, como o principal atributo de um bom escritor.
     Na postagem sobre o 25 de abril, por não querer me repetir, fiz alguns comentários e associei a música usada como senha para o movimento; sendo uma música proibida em Portugal, Grândola, Vila Morena, ao ser executada, despertou desconfiança e provocou emoção. Eu me lembro de ter conversado com Zeca Afonso, autor da antológica canção. Há quem não goste dela, mas as obras de arte podem ganhar significado pelas circunstâncias em que são produzidas, seja como for, minha filha, ao ouvi-la, sem conhecer a História, ficou emocionada, mais ainda quando eu relatei os fatos, coisa que não fiz em minha postagem, o que, além de me incluir na imensa lista de maus escritores que exigem demais dos leitores, foi um exemplo de como não atendi aos requisitos mínimos da arte de bem postar. Houve casos de pessoas que desconheciam os fatos, o que é compreensível, pois são trinta e um anos, nos quais, mesmo em Portugal, tentaram apagar o que houve, como no caso da polêmica retirada da letra R de Revolução, em 2005, por ocasião da comemoração dos trinta anos da Revolução dos Cravos.
     Em compensação, sobre o tema, trago dois exemplos da arte de bem postar. Luma, de Luz de Luma, deu uma dica muito interessante, de uma postagem com uma apresentação circunstanciada dos acontecimentos de 25 de abril de 1975, para lê-la, por favor, clicar aqui. Denise Arcoverde, de Síndrome de Estocolmo, também foi nota dez, simplesmente republicou uma postagem de 2004, na qual ela fez uma excelente síntese, além disto, como boa pesquisadora, incluiu atalhos para alguns sítios que trataram do tema, em Portugal e no Brasil, para lê-la, por favor, clicar aqui.
     O relato do Espreitador é encerrado com o texto:


19:20 - O Prof. Marcello Caetano sai do quartel do Carmo, numa viatura blindada. É conduzido, com os ministros Dr. Moreira Baptista, Rui Patrício e Silva Pinto, para o quartel do Regimento de Engenharia nº1, na Pontinha.

26 de Abril de 1974
O dia seguinte
.

01:30 - São apresentados ao País pela RTP, os membros da Junta de Salvação Nacional.

- General António de Spínola ¿ (Presidente)
- Capitão-de-fragata António Alba Rosa Coutinho.
- Capitão-de-mar-e-guerra José Baptista Pinheiro de Azevedo
- General Francisco da Costa Gomes
- General Jaime Silvério Marques
- Coronel da Força Aérea Carlos Galvão de Melo
- General da Força Aérea Diogo Neto

     A constituição da Junta é motivo de surpresa nos meios políticos.
     Porque preside o general António de Spínola e não o general Costa Gomes, que era o chefe da organização militar de que Spínola foi apenas vice-chefe?
     Como foi possível que o general Jaime Silvério Marques, cuja detenção militar tinha sido ordenada pelos chefes da revolução, passe da prisão para o Governo?
     A presença de Galvão de Melo e do general Neto revela a preocupação de formar uma Junta sem sinal de esquerda ou de direita, critério fundamental de António de Spínola.

     Mas é possível fazer revoluções sem norte político? É esta a pergunta que os observadores atentos fazem.


     Alguns dos principais dirigentes e banqueiros salazaristas vieram para o Brasil; aqui, com a ajuda do BNDE, os banqueiros refizeram suas fortunas e, no momento oportuno, retornaram a Portugal, alguns deles se tornaram donos de muitas das principais riquezas no Brasil e em Portugal. Eu não imaginava que conheceria ou teria contato com alguns dos personagens citados, mas, curiosamente, estive na casa de Rui Patrício em Santa Tereza e isto justifica uma postagem à parte, como também justifica uma postagem a forma como conheci o Marechal Costa Gomes.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Maio 08, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Terça-feira, Maio 02, 2006


Angola

     Eu fiquei muito triste quando Lúcio Lara renunciou ao mandato de Deputado e se retirou da vida pública. Principal colaborador de Agostinho Neto durante o processo de Luta de Libertação Nacional em Angola, Lúcio Lara representava a continuidade da revolução de acordo com os princípios morais e éticos preconizados e praticados por Agostinho Neto. Transcrevo abaixo o início do que disse Lúcio Lara no enterro do Camarada Neto.


O nosso juramento não será em vão I - Lúcio Lara

     Camarada Presidente,
     Querido Amigo,
     Que ingenuidade a nossa quando, no incessante derrubar de obstáculos que tem sido a nossa luta, acreditamos que eras invulnerável.
     Habituamo-nos, Comandante-em-Chefe, sob o Teu comando, a não acreditarmos na derrota e a forjarmos vitórias para o nosso Povo.
     A certeza da vitória eras Tu, que sabias sorrir diante do perigo, que sabias criar com os olhos secos, que não conhecias nem o medo nem a dúvida diante dos objetivos que desde cedo foram traçados.
     Das prisões portuguesas em Angola, em Cabo Verde e em Portugal, soubeste retirar a experiência necessária para as transformar em escolas de luta para o nosso Povo. Das bofetadas da PIDE soubeste aprender que o ódio não é dos homens, mas dos monstros, que o racismo sofrido na carne pode transformar-se em anti-racismo revolucionário, em amor pela Humanidade.

Adeus à hora da largada - Agostinho Neto

Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer
o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbados a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca da luz
Os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca da vida.


     Para completar a homenagem a Angola, uma música, Sarabanda, na voz Bonga, para ouví-la, por favor, clicar aqui ou abaixo
.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Maio 02, 2006
Comentário e zombaria:




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