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Rabiscos e divagações

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Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos.
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Rabiscos e divagações
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"Não há vento favorável para quem não sabe a que porto quer chegar"
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"Eu não vivo do passado, o passado é que vive em mim"
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"Quando a riqueza de poucos afronta a miséria de muitos, a insegurança é de todos"
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wDivagações e citações - Sexta-feira, Abril 28, 2006


Versejar

     Nós, brasileiros, há muito tempo, perdemos a oralidade que ainda caracteriza povos africanos; contudo, no Nordeste a literatura ainda é oral. Muito mais a prosa, pois estórias, casos, crônicas do cotidiano e lendas são maravilhosamente narradas, mesmo quando não foram registradas por escrito; a poesia menos, pois a chamada literatura de cordel popularizou a publicação dos nossos poetas populares. Uma coisa é certa: a escrita não dispensa, ao contrário, exige a apresentação oral. Nossos poetas, e Pernambuco deu grandes poetas, antes de escreverem são capazes de declamarem seus versos.
     Os nossos especialistas em literatura discutem o que dizem os nossos poetas, como eles escrevem seus poemas, mas em Pernambuco é essencial saber como os poetas recitam os seus poemas, como eles versejam.
     Como este mês faz cento e vinte anos que nasceu Manuel Bandeira, ofereço um presente especial aos poucos amigos que freqüentam o Agreste. Por favor, no menu superior, em Música - Manuel Bandeira (1 e 2), é possível ouvir trinta e seis poemas, infelizmente não são recitados pelo nosso grande poeta. Assim, os amigos não saberão como Bandeira versejava, os poemas são recitados por Juca de Oliveira. Como ele fazia versos? Deixemos que ele mesmo diga, da forma que mais bem conseguia dizer, em versos.


Desencanto - Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.


     Para ouvir Desencanto, na voz Juca de Oliveira, basta ir ao menu superior - Música - Manuel Bandeira, clicar aqui ou abaixo
.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sexta-feira, Abril 28, 2006
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Abril 24, 2006


Vinte e Zinco

     Em 1999, na comemoração dos vinte e cinco anos da Revolução dos Cravos, foi lançada a coleção Caminhos de Abril composta pelos seguintes livros: Amor, só Amor, Tudo Amor, de Alexandre Pinheiro Torres; Vinte e Cinco a Sete Vozes, de Alice Vieira; A Reviravolta, de Almeida Faria; Vale a Pena Ter Esperança, de Carlos Brito; Dona Pura e os Camaradas de Abril, de Germano Almeida; Uma Carga de Cavalaria, de Manuel Alegre; As Vésperas Esquecidas, de Maria Isabel Barreno; Apuros de Um Pessimista em Fuga, de Mário de Carvalho; Vinte e Zinco, de Mia Couto; Um Fotógrafo em Abril, de Sebastião Salgado; O Dia Último e o Primeiro, de Urbano Tavares Rodrigues. Nestes trinta e dois anos, muito já se disse sobre o Vinte e Cinco de Abril em Portugal, eu teria muito pouco a acrescentar, talvez destilasse nostalgia, mesmo não sendo saudosista, certamente desfiaria um rosário de lágrimas pelos descaminhos da revolução em Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé. Prefiro largar algumas frases soltas de personagens de Vinte e Zinco e ouvir Grândola, Vila Morena na voz de Zeca Afonso, primeira e eterna impressão da Revolução dos Cravos, sempre a me emocionar.

"Cegueira é ver o nada.
O não ver nada é a morte."
"A vida é infinita.
Mas nada é tão enorme quanto a morte."
- Dos cadernos de Irene.
"Até que o leão aprenda a escrever, o caçador será o único herói." - Nozipo Maraire, em Carta a Minha Filha.
"Ingênuo não é o que acredita, mas o que pensa que os outros também acreditam." - Desabafo de Lourenço de Castro.
"Nossa tristeza é a seguinte: ganhamos sem nunca chegarmos a ser vencedores". - Voz de Marcelino, vinda do seu último chão.

     Como disse antes, emocionado, ouvi Grândola, Vila Morena na voz de Zeca Afonso, para ouvi-la, por favor, clicar aqui ou abaixo

Observação: o livro Vinte e Zinco foi relançado em 2004, com uma capa muito bonita, mas a imagem esmaeciada, meio desfocada, da capa da edição original condiz com a minha forma de ver a Revolução dos Cravos.

Título presidencial

     As opiniões se dividem: Lula-Lá-U merece o título de Presidente Abelha ou de Presidente Lagosta? Três argumentos favoráveis a cada proposta. Presidente Abelha: de manhã faz cera, à tarde voa e à noite toma muito . Presidente Lagosta: tem casca grossa, merda na cabeça e se cria nas costas do Brasil.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Abril 24, 2006
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wDivagações e citações - Quarta-feira, Abril 19, 2006


Manuel Bandeira: 120 anos!

Ontem, hoje, amanhã: a vida inteira,
Teu nome será sempre, para nós, Manuel, bandeira.

     Carlos Drummond de Andrade

Minha adolescência - Manuel Bandeira

     A história de minha adolescência é a história de minha doença. Adoeci aos dezoito anos quando estava fazendo o curso de engenheiro-arquiteto da Escola Politécnica de São Paulo. A moléstia não me chegou sorrateiramente, como costuma fazer, com emagrecimento, febrinha, um pouco de tosse, não; caiu sobre mim de supetão e com toda a violência, como uma machadada de Brucutu. Durante meses fiquei entre a vida e a morte. Tive de abandonar para sempre os estudos. Como consegui com os anos levantar-me desse abismo de padecimentos e tristezas é coisa que me parece a mim e aos que me conheceram então um verdadeiro milagre. Aos trinta e um anos, ao editar o meu primeiro livro de versos, A cinza das horas, era praticamente um inválido. Publicando-o, não tinha de todo a intenção de iniciar uma carreira literária. Aquilo era antes o meu testamento - o testamento da minha adolescência. Mas os estímulos que recebi fizeram-me persistir nessa atividade poética, que eu exercia mais como um simples desabafo dos meus desgostos íntimos, da minha forçada ociosidade. Hoje vivo admirado de ver que essa minha obra de poeta menor - de poeta rigorosamente menor - tenha podido suscitar simpatias.
     Conto essas coisas porque a minha dura experiência implica uma lição de otimismo e confiança. Ninguém desanime por grande que seja a pedra no caminho. A do meu parecia intransponível. No entanto saltei-a. Milagre? Pois então isso prova que ainda há milagres.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Abril 19, 2006
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Abril 17, 2006


Na próxima terça-feira, dia 18, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, o escritor Moacir C. Lopes lançará o livro As fêmeas da Ilha da Trindade. Estamos habituados a vermos entrevistas de escritores, músicos ou artistas antes do lançamento do mais recente trabalho, nas quais, geralmente, eles dizem que se trata do trabalho mais importante da vida. É o esquema promocional dos que não têm compromisso com a verdade, muito menos com o público. No caso de Moacir, ele é de uma franqueza que deve incomodar os que com ele trabalham, pois Moacir bota a verdade (no caso, o seu compromisso com a Literatura) acima das conveniências e dos interesses comerciais, muito em desacordo com as práticas políticas e sociais vigentes no Brasil. Vejam abaixo as duas transcrições que faço. A primeira é uma mensagem que o editor de Moacir enviou para ele e a segunda é a resposta de Moacir ao editor. A mensagem do editor:

Olá, Moacir.
Tudo bem?
Aproveito a cópia de sua mensagem para o Manoel Carlos para lhe fazer umas perguntas. Eu as faria de qualquer maneira, para substanciar mais o press-release.
Vamos a elas:
1 - Qual a ordem do romance em relação à sua obra. É o quinto, décimo terceiro, vigésimo?
2 - Quando surgiu a idéia do livro?
3 - Desde quando ele está pronto?
4 - Você conhece ou se lembra de outros exemplos de sexo entre homens e bichos na literatura?
5 - Que importância você dá ao livro em relação ao conjunto de sua obra?
6 - Você sabia que as cabras, que na ilha chegaram ao número de seiscentas, foram exterminadas pela Marinha por motivos ecológicos?
7 - É a primeira vez que você narra uma história usando seu próprio nome? Você diz que foi à ilha duas vezes e recebeu a incumbência de saber o paradeiro de dois personagens. Fale um pouco sobre isso, esse embaralhar de ficção com realidade.
8 - Se quiser acrescentar algo interessante que já não esteja no texto que enviou para o Manoel Carlos, fique à vontade.
Abraço
Alvanísio


E a resposta de Moacir:
1. As fêmeas da Ilha da Trindade é meu décimo romance. Aliás, eu tinha por projeto publicar dez romances. Mas acho que vou ultrapassar este projeto, pois estou escrevendo outro romance histórico e tenho já planejado escrever outro na linha poética e de realismo mágico de A ostra e o vento.
2. Este tema já vem do Maria de cada porto, no qual existe um capítulo que se passa nesta ilha. Realmente, eu estive na ilha em 1950, a bordo do contratorpedeiro Baependi. A missão João Alberto aconteceu de verdade. A pesca de duas tartarugas gigantes aconteceu realmente e uma delas está de fato exposta no Museu Nacional, da Quinta da Boa Vista. O capítulo da pesca e dos peixes por-favor-me-pegue foi real, participei dela. Veja no Dicionário Aurélio que o Aurélio registra o verbete "por-favor-me-pegue" e dá como abonação o trecho de Maria de cada porto. Aquela ilha me deixou muito impressionado. A história do tesouro da Catedral de Lima é um mito ou verdadeiro que foi ali enterrado e muita gente tem ido atrás dele, e morrido por ele. Ficou na minha cabeça aquele registro que fiz no Maria de Cada porto, e faz uns dez anos resolvi desenvolver num romance autônomo.
3. Este romance está pronto faz 9 anos. Em 1998, já o havia escrito, quando a Marinha me convidou a fazer uma viagem à Ilha da Trindade. Foi oportunidade de rever a ilha e conferir as minhas observações de 1950. Veja a última página desse romance, em que registro esse fato.
4. Não conheço na literatura nenhuma menção ao relacionamento homem-animal. Daí, a Eduarda achar neste meu romance a originalidade quanto a este asssunto, e a coragem de eu abordá-lo. Visto que é prática comum no interior do Brasil, e talvez no mundo e ninguém teve coragem de abordar o tema. (Off - brincadeirinha da Eduarda: Jesus Cristo, numa de suas viagens ao interior do Ceará, teve relação sexual com uma cabra, daí o surgimento do queijo-de-coalho).
5. Não dou a ele grande importância no conjunto de minha obra. Tenho consciência de que não tem o valor de Ostra, Belona, Rebanhos, nem Cais, saudade em pedra. Isto, porque não pratiquei linguagem no mesmo nível criativo. O tema não me permitiu.
6. Sim, foram exterminadas por motivos ecológicos, pois estavam destruindo o que resta da rara vegetação. Naquele capítulo inicial, em que cito cientistas que estiveram na ilha, os nomes são reais, inclusive o Halley, o do cometa Halley, que iniciou a migração de cabras e ovelhas.
7. Em romance, é a primeira vez que me insiro como co-personagem, usando meu próprio nome. Em livros anteriores, eu apareço com vivências próprias, mas mascarado na pele de outros personagens, como eu-narrador. A incumbência de eu saber do paradeiro de dois personagens, incluindo a Maristela, é ficção, nada tem com a realidade. Mas, em três ou quatro contos que publiquei no livro de contos O navio morto, apareço como personagem, com meu próprio nome, em fatos vividos por mim ou coadjuvante de outros personagens com quem vivi certos fatos.
8. O que me deu idéia de escrever este romance, foi a partir de um fato, ocorrido em 1942 (que eu soube quando lá estive em 1950), quando um sargento levou sua mulher para a ilha, enquanto ele lá servisse, e os outros 39 marinheiros a fustigaram sexualmente de tal forma que o marido, esse sargento, acabou louco, querendo matar os 39 colegas da guarnição da ilha. Resolvi mudar o personagem de sargento para tenente, o tenente Maurício, e reproduzir mais ou menos o que teria acontecido. Como eu dei o nome de Marcela em A ostra e o vento, para transmitir a idéia de mar-cela, prisioneira do mar, neste romance dei o nome de Maristela para dar a idéia de "estrela-do-mar", para inseri-la como um dos elementos da própria ilha.
Abraço
Moacir

Observações:
1) Moacir se refere a alguns livros dele sem usar os títulos inteiros; Ostra = A ostra e o vento; Belona = Belona, latitude noite; Rebanhos = Por aqui não passaram rebanhos. De todos os livros dele, o que o autor considera mais bem escrito é Belona, latitude noite. Eu acho interessantíssimo O passageiro da Nau Catarineta, pelo resgate de várias lendas, mas isto é outro assunto, daria uma longa postagem.
2) A foto foi tirada por mim, na casa de Moacir, ao lado dele, minha filha Luana.
3) Há uma comunidade sobre Moacir Lopes no Orkut.
Espero encontar os amigos no lançamento.
Dia 18/04/2006, terça-feira, 19 horas
Palácio do Catete, Catete, Rio de Janeiro.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Abril 17, 2006
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wDivagações e citações - Terça-feira, Abril 11, 2006


Kinaxixe

     Doenças e circunstâncias levaram Manuel Bandeira a criar Pasárgada, bem mais que um poema, um paraíso, no qual Bandeira realizaria todas as fantasias, dos sonhos do menino - o cotidiano de toda criança sã - aos mais dissimulados desejos juvenis. Nas atuais metrópoles, mergulhadas em violência urbana similar à das guerras civis, muitos se refugiam na internet e nela criam seus paraísos, como o de Bandeira, sem anjos ou harpas, apenas o ambiente de realização de sonhos e fantasias. Porém, muitos fazem das evocações os seus paraísos, um bom exemplo é Kinaxixe, bairro suburbano de Luanda, em Angola, que Arnaldo Santos transformou em paraíso; mais que um lugar, um tempo de descobertas e revelações, paraíso infantil do escritor.

     Meu primeiro mergulho mais profundo na literatura angolana foi através da prosa de Arnaldo Santos, Luandino Vieira e Viriato Cruz. Na minha opinião, eles foram os principais responsáveis pelo desenvolvimento da literatura em português angolano. Na mesma linha, tempos depois, Mia Couto elevou a literatura moçambicana a novo patamar, evidentemente, precedido por José Craveirinha, Rui Nogar, João Reis, Noémia de Sousa e outros.

     Arnaldo Santos tem três coisas que me encantam: a linguagem; a capacidade de me fazer descobrir o mundo que o cerca; e o resgate cultural. Estes três elementos se fundem numa narrativa agradável, através da qual, Arnaldo Santos nos revela o retrato sócio-cultural-econômico-político angolano, a universalidade do escritor é baseada na profundidade com que ele trata a História e a Cultura de Angola. Dele, incluo Kinaxixe e outras prosas entre os melhores livros de contos que li.

     Avesso a badalações, ele não vai aos lançamentos dos próprios livros, confessa-se tímido, mas revela-se através da escrita. Afinal, eu preciso dizer quem é Arnaldo Santos por quê? Em entrevista a Denira Rozário, ele se descreveu e apresento uma pequena parte da entrevista

     "
Nasci no dia 14 de março de 1935, em Luanda, dizem que no bairro de Ingombota, mas não confirmo. De fato, quando comecei a conhecer as pessoas e as coisas, vi-me no Kinaxixe, bairro do subúrbio, perto do cemitério da cidade, da lagoa e da floresta, e correndo pelos capins, com outros monandengues descalços, atrás de pássaros e gafanhotos. Recordo-me de que nessa época éramos profundamente panteístas. Meu pai, branco, natural de Valongo (Porto), empregado do comércio, não foi um bom colono; casou com uma mulata natural do Massangano (mas que foi educada em Portugal até a idade adulta), o que, na altura, não era bem visto no meio colonial de Luanda; além disso, era honesto e tolerante, qualidades igualmente pouco estimadas, porque em terra de macutas era preciso enriquecer depressa. Diga-se, no entanto, em seu abono, que resistiu, sempre com muita firmeza, às minhas tentativas para o catequizar para a luta de classes - ele nunca passou de modesto empregado de comércio de uma casa de importação e exportação - e não se deixou convencer pelas minhas teorias nacionalistas; mas fez sempre vista grossa à proteção que minha mãe me dava, ela também impotente para o convencer que eu, seu filho, coitadinho, não tinha idéias próprias e que meu comportamento, que à polícia política aborrecia, sempre foi obra da influência dos amigos e das más companhias. Nessas circunstâncias e como é de ver, meu relacionamento com meus pais era pacífico...

     Nasci
     com meus lubambos
     no pescoço
     Ninguém me contou
     ainda os sinto.

     São eles
     que me fazem sofrer
     os sofrimentos da erva tenra sob as botas
     velar insônia das sementes
     e cantar as lavras em bandeira..

     São eles
     que me juntam
     a quem se aquece na fogueira
     e me arrastam
     na mesma esteira do povo.

     Nasci
     com meus lubambos
     no pescoço
     Não ando só
     e sou sempre novo.
"

Glossário:

Lubambo - lubambu, grilhão, corrente.
Macuta - antiga moeda angolana, moeda de pouco valor; do Kimbundo mu'kuta.
Monandengue - Criança, adolescente; do Kimbundo mon'a ndengue


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Abril 11, 2006
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wDivagações e citações - Quarta-feira, Abril 05, 2006


O gás é vosso!

     O golpe militar de 1º abril de 1964 levou à presidência da república o general Castelo Branco cujas primeiras medidas revelaram o caráter antinacional do movimento militar: a revogação da lei de remessas de lucros (a qual limitava o envio de capital ao exterior) e a revogação da lei que impedia a exploração do subsolo nacional por estrangeiros, como ocorre, por exemplo, nos EUA.

     Muitas das conquistas do povo brasileiro foram frutos da Era Vargas; sendo Getúlio um positivista, ele acreditava que era o salvador da pátria e sozinho resolveria os problemas nacionais; de qualquer forma, modernizou o Brasil, instituiu o voto secreto e universal, inclusive com o direito de voto da mulher, criou o Sistema Nacional de Educação Pública, o Sistema Nacional de Saúde Pública, os institutos de previdência e aposentadoria (IAPI, IAPC, IAPTEC e outros), etc. Além disto, Vargas implantou indústrias de base, como sustentáculo do desenvolvimento nacional. E tomou algumas medidas no sentido de integrar e manter a unidade nacional como, entre outras, a criação do Correio Aéreo Nacional e da Aeronáutica. Tendo Gustavo Capanema como Ministro da Educação e Cultura, obteve a participação de diversos intelectuais e artistas no fortalecimento do processo de produção cultural nacional, entre outros, destacamos: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Heitor Villa-Lobos e Cândido Portinari. O símbolo político do nacionalismo de Vargas foi o êxito da campanha O petróleo é nosso, da qual participaram muitos militares de direita, mesmo que à direção do movimento estivessem famosos comunistas.

     O movimento militar golpista de 1964 era antinacional, mas algumas teses nacionalistas eram caras no seio militar, por isto, a própria Ditadura Militar implantou um formidável sistema de telecomunicações e teve uma política nacionalista na área de Química Fina. Contudo, não podemos esquecer que o golpe militar foi uma reação às reformas de base de Jango e à ameaça do então presidente de romper com o modelo econômico antinacional, o qual foi implantado por Dutra e responsável pelo suicídio de Vargas.

     Após o governo militar, o primeiro presidente eleito, Collor, iniciou um processo acelerado de desnacionalização o qual era tido, demagogicamente, como um processo de modernização e de globalização da economia nacional. O programa de desnacionalização de Collor sofreu ligeira descontinuidade com Itamar Franco, foi retomado por FHC e aprofundado por Lula.

     Logo ao assumir o primeiro governo, FHC afirmou que modernizaria o Brasil e destruiria o que restava da Era Vargas. Investiu furiosamente contra o patrimônio nacional no processo de privatização, adequadamente chamado, pelo povo brasileiro, de privataria. FHC, após vender a maior parte das ações da Petrobrás para estrangeiros, criou a ANP, Agência Nacional de Petróleo, nomeou para a presidência da mesma o próprio genro, David Zilberstein, o qual, após realizar o primeiro leilão de poços de petróleo, para ofender os defensores do patrimônio público brasileiro, ao se dirigir aos especuladores estrangeiros, em tom desafiador e de escárnio, afirmou: — o petróleo é vosso!

     Lula e seus acólitos criticaram os leilões, mas quando assumiu o governo, Lula nomeou para a presidência da ANP Haroldo Lima, do PCdoB baiano, o qual manteve os leilões, com as mesmas regras que ele mesmo criticava, com as subavaliações prevalecendo nas licitações, com a manutenção das privilegiadas deduções no Imposto de Renda. E o governo Lula vai mais longe ainda, pois a Petrobrás construiu, como estratégia de negócio, mais de 7.000 km de gasodutos e o governo vai obrigá-la a compartilhar os gasodutos com empresas estrangeiras. O incrível é que alguns "analistas" brasileiros ainda dizem que o venezuelano Hugo Chavez e o boliviano Evo Morales é que estão errados ao protegerem os interesses dos respectivos povos e países. Estes mesmos analistas não têm coragem de criticarem Bush por manter medidas equivalentes, em defesa dos interesses do EUA. Não satisfeito em manter a política de O petróleo é vosso, acrescida de O gás é vosso, agora Lula se prepara para entregar a Amazônia (será este o preço da reeleição?). Lula já demonstrou que é tão vaidoso, cínico e mentiroso quanto FHC, resta saber quem, em nome do governo Lula, criará a consigna, marca indelével do desgoverno dele: A Amazônia é vossa!


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Abril 05, 2006
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sábado, Abril 01, 2006


As fêmeas da Ilha da Trindade

     Recebi do amigo escritor Moacir C. Lopes, a mensagem que transcrevo abaixo.


     Manoel Carlos

     As fêmeas da Ilha da Trindade, este meu romance mais recente, que lançarei em noite de autógrafos, dia 18 de abril, no Museu da República, no Rio de Janeiro, tem uma linguagem que beira o realismo mágico, mas entremeada de uma realidade crua, que extrapola os conceitos de normalidade, sugerida pela própria Ilha da Trindade, considerada por muitos que ali serviram como uma entidade viva e maligna, ela mesma uma das personagens deste romance.
     Afastada a 1.140km da costa do Espírito Santo, um vulcão extinto à tona do mar, parte de uma cordilheira de montanhas submersas, sem praias e pontos de desembarque, povoada por carneiros e cabritos monteses, infestada de caranguejos, aratus e aves marinhas, parca vegetação, inúmeras vezes invadida por aventureiros estrangeiros que a dilapidaram, e ali supostamente escondido o tesouro da Catedral de Lima, é guarnecida desde a Primeira Guerra Mundial por uma tripulação da Marinha do Brasil.
     Ali serviam 40 marinheiros, em 1942, quando se desenvolve essa história, vedada a presença feminina. Mas um tenente, recém-casado, obtém licença para levar sua jovem mulher, a sensual Maristela, cuja presença virá a alterar, às raias do inconsciente e da loucura, o equilíbrio ecológico e comportamental de todos, ela mesma se transmudando à feição dos homens, dos animais, das aves, da própria Ilha da Trindade. Há versões contraditórias sobre o que teria acontecido a Maristela.
     Abraço
     Moacir


Evento: lançamento do romance As fêmeas da Ilha da Trindade
Local: Museu da República, Catete, Rio de Janeiro
Data: 18 de abril de 2006
Horário: a partir das 19 horas


Brasi Caboco
     Zé da Luz

O qui é Brasí Caboco?
É um Brasi diferente
do Brasí das capitá.
É um Brasi brasilêro,
sem mistura de instrangero,
um Brasi nacioná!

É o Brasi qui não veste
liforme de gazimira,
camisa de peito duro,
com butuadura de ouro...
Brasi caboco só veste,
camisa grossa de lista,
carça de brim da "polista"
gibão e chapéu de coro!

Brasi caboco num come
assentado nos banquete,
misturado cum os home
de casaca e anelão...
Brasi caboco só come
o bode seco, o feijão,
e as veiz uma panelada,
um pirão de carne verde,
nos dias da inleição
quando vai servi de iscada
prus home de posição.

Brasi caboco num sabe
falá ingrês nem francês,
munto meno o português
qui os outros fala imprestado...
Brasi caboco num inscreve;
munto má assina o nome
pra votar pru mode os home
Sê gunverno e diputado

Mas porém. Brasi caboco,
é um Brasi brasileiro,
sem mistura de instrangero
Um Brasi nacioná!

É o Brasi sertanejo
dos coco, das imbolada,
dos samba, dos vialejo,
zabumba e caracaxá!

É o Brasi das vaquejada,
do aboio dos vaquero,
do arranco das boiada
nos fechado ou tabulero!

É o Brasi das caboca
qui tem os óio feiticero,
qui tem a boca incarnada,
como fruta de cardoro
quando ela nasce alejada!

É o Brasi das promessa
nas noite de São João!
dos carro de boi cantano
pela boca dos cocão.

É o Brasi das caboca
qui cum sabença gunverna,
vinte e cinco pá-de-birro
cum a munfada entre as perna!

Brasi das briga de galo!
do jogo de "sôco-tôco"!
É o Brasi dos caboco
amansadô de cavalo!

É o Brasi dos cantadô,
desses caboco afamado,
qui nos verso improvisado,
sirrindo, cantáro o amô;

cantando choraro as mágua:
Brasi de Pelino Guedes,
de Inácio da Catingueira,
de Umbelino do Texera
e Romano de Mãe-d'água!

É o Brasi das caboca,
qui de noite se dibruça,
machucando o peito virge
no batente das jinela...
Vendo, os caboco pachola
qui geme, chora e soluça
nas cordas de uma viola,
ruendo paxão pru ela!

É esse o Brasi caboco.
Um Brasi bem brasilero,
sem mistura de instrangêro
Um Brasía nacioná!

Brasi, qui foi, eu tô certo
argum dia discuberto,
pru Pêdo Arves Cabrá.


     Severino de Andrade Silva (Zé da Luz), nasceu em Itabaiana, PB, em 29/03/1904 e faleceu no Rio de Janeiro-RJ, em 12/02/1965.

Caminhada da Democracia

     O Movimento Corrupção Zero realizará uma Caminhada da Democracia e da Cidadania, no domingo, dia 09 de abril de 2006, com concentração prevista para as 9 horas, em frente ao Posto 09, na Praia de Ipanema - Rio de Janeiro.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sábado, Abril 01, 2006
Comentário e zombaria:




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