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Rabiscos e divagações

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Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos.
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Rabiscos e divagações
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"Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos"
Vital Farias
"Não há vento favorável para quem não sabe a que porto quer chegar"
Luiz Carlos Prestes
"Eu não vivo do passado, o passado é que vive em mim"
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"Quando a riqueza de poucos afronta a miséria de muitos, a insegurança é de todos"
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Janeiro 30, 2006


Palavra acesa

     A vida, perene como o tempo, não passa, nós, efêmeros, é que passamos. Ao passarmos pela vida, nem sempre conseguirmos criar nosso próprio caminho. Quantas vezes, sem sabermos como ou porquê, a vida nos surpreende? Numa destas surpresas, ainda estudante de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco, vi-me no Teatro Manguinhos, no Bairro das Graças, no Recife. Dom Hélder Câmara cedeu o espaço para a apresentação de um grupo, ainda com o nome provisório de Grupo Acauã. Pungente espetáculo! A cada interpretação, sentia-me transportado para um mundo mágico, no qual passado e futuro se encontravam. Parecia que se encontravam e apernambucanavam: Oito Batutas, Sexteto Radamés e Quarteto Novo. A música tradicional sendo reinventada, recriada, mas de forma simples e natural. A melodia dava à poesia a dimensão de palavra candente. Quase não me dei conta que um ex-professor de Química fazia parte do grupo, Toinho Alves, o baixista, arranjador e cantor, foi ele a ponte entre mim e o grupo; Generino Luna, o flautista, pouco permaneceu no grupo, substituído por Sando, um virtuose de treze anos de idade; Marcelo Melo, agrônomo, com especialização na Bélgica e mestrado na França, onde ensinou a cantora Françoise Hardy a tocar violão e foi destaque ao tocar viola no disco de Geraldo Vandré, Nas terras do Bemvirá, cantor e violonista; Fernando Filizola, além de tocar viola, violão, sanfona e berimbau de bacia, cantava e pulava frevo como grande passista; Luciano Pimentel, ritmista e baterista. Eu me lembro de ter saído silencioso, ausente. Até hoje eu me lembro deste espetáculo. Este grupo fazia parte ativa de um grande movimento cultural, com fortes conexões com Naná Vasconcelos, Hermilo Borba Filho, Teça Calazans, Paulo Guimarães, Ariano Suassuna, Fernando Torres, Jomard Muniz de Brito, Geraldo Rocha, Luiz Mário, Fernando Boca Preta, Zezinho Pedrosa, Sérgio Kyrillos, Mário Griz, Fernando Borges, José Pimentel, Carlos Reis, Luiz Marinho, Mayeber de Carvalho, Plínio Pacheco... O grupo mudou de nome, trilhou caminhos inesperados e este ano já comemorará bodas de coral, isto mesmo, trinta e cinco anos de criação! Há dez anos, Paulinho da Viola disse: Os meninos do Quinteto Violado introduziram uma nova linguagem à música e conseguem se manter fiéis até hoje. Isso só faz confirmar a competência do grupo que demonstra uma fidelidade musical que só pode ser vista aqui no Brasil, especialmente no Nordeste. Não é qualquer grupo que se mantém no mercado por tanto tempo. E isto já diz tudo.
     É importante registrar que enquanto Dom Hélder Câmara cedia o teatro ao grupo, Dom Eugênio Salles proibia, no Rio de Janeiro, uma peça teatral musicada pelo grupo, dirigida por Isaac Gondim, o que fez Naná Vasconcelos, integrante da peça, ganhar o mundo.

Para ouvir Palavra acesa, por favor, clicar clique aqui ou abaixo


Para ouvir outras músicas do Quinteto Violado, aqui mesmo em Agreste, no menu superior (música ¿ Quinteto Violado) e escolher a música, entre elas: Acauã, Asa Branca, Baião da garoa, Baião do Quinji, Duda no Frevo, Jesus Sertanejo, Madeira de lei que cupim não rói, Meninos de rua, Palavra de Cantador, Republica Brasileira, Sete Meninas, Vaquejada...

Nós por nós

     Sexta-feira o simpático e competente blogue coletivo Nós por nós publicou um texto nosso. Agradeço a gentileza e sugiro uma visita, sobretudo aos amigos que ainda não tiveram o prazer de conhecê-lo.

Aniversariantes

     Amanhã aniversariarão três pessoas da família. Uma sobrinha, Carina, que vive em São Paulo, minha afilhada e prima Fernanda, que vive no Rio, e minha filha Luana, a qual chegou da Europa que nos dá o presente da presença dela.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Janeiro 30, 2006
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Janeiro 23, 2006


Mucuripe

     Recebi o aviso, parece que foi ontem, mas foi há muito tempo, nem me lembro exatamente quando. Na verdade, não foi um aviso, mas um pedido. Sendo da família, desde que não haja impedimento ético ou impossibilidade, para mim é impensável não atender. Foi-me dito que Paul, o belga, após morar algum tempo no Recife, retornaria à Bélgica e aproveitaria para conhecer o Rio de Janeiro. Em sua estada em Pernambuco, Paul se tornou amigo da família e, de certa forma, ele se apernambucanou, adquiriu algumas de nossas características, a mais evidente delas, o sotaque; sendo galófilo, Paul passou a falar pernambuquês afrancesado. Outra característica o trouxe à minha casa: como todo pernambucano, Paul passou a não mais saber o que é um hotel, afinal, pernambucano só viaja para ficar em casa de parentes ou amigos, e pode colher inimizades se assim não proceder. Alguém conhece ofensa maior do que um pernambucano ir a Pernambuco e se hospedar em hotel? Só mesmo querendo romper laços de parentesco e de amizade.
     Paul chegou ao Rio num sábado. Saímos para almoçar, beber... à noite, já em casa, por mera delicadeza, perguntei se ele queria fazer alguma coisa. Claro que queria! ver um espetáculo musical. Não um qualquer, mas aquele que começaria em meia hora, em única apresentação, no MAM, Museu de Arte Moderna, de Fagner, então grande sucesso nacional. Paul ainda explicou que era produtor de uma televisão estatal belga e, no tempo que passara no Recife, não conseguira entrar em contato com Fagner, do qual era grande fã.
     Apesar da dificuldade que seria conseguir entrar, decidimos ir e, ao saímos de casa, um amigo perguntou para onde íamos. Quando eu disse, o amigo propôs que fôssemos juntos. Apertamo-nos os seis no Alfa Romeu: eu, minha mulher, Paul, Dedé, Robertinho e o nosso motorista, o qual assumiu o comando da tropa.
     Chegamos ao MAM em cima da hora, havia confusão, pois muita gente que não conseguiu ingresso tentava entrar na marra. Nas escadas, uma fila imensa formada pelos que compraram entrada; o nosso motorista-comandante conseguia passagem e nos arrastava, todos de mãos dadas. Na entrada, identificou-nos como integrantes da "produção". O teatro estava lotado, quatro de nós sentamos pertinho do palco, enquanto Robertinho do Recife e Fagner, nosso motorista, se juntaram aos demais músicos, subiram ao palco e atacaram de "...nas velas do Mucuripe..."
Para ouvir Mucuripe (com Fagner e Djavan), por favor, clicar clique aqui ou abaixo
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MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Janeiro 23, 2006
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wDivagações e citações - Terça-feira, Janeiro 17, 2006


Debate
         Um grande amigo meu, digno de admiração e respeito, fez uma crítica a Mia Couto. O universo literário deste amigo é muito mais amplo e profundo que o meu, a capacidade dele de interpretar e analisar texto é muito grande. Contudo, no caso específico, discordo das críticas dele. Ele afirma, e eu concordo, que Mia Couto é um escritor maior, cujo nome já foi incluído entre os dos grandes escritores da humanidade. Contudo, ele considera que Mia Couto exagera no uso de expressões criadas, as quais, mesmo belas, não fazem parte do uso cotidiano da língua e que os grandes escritores, à medida do possível, devem fazer uso de uma linguagem simples, como a de uso cotidiano. Foi uma boa discussão. Não ouso tentar reproduzir as idéias do meu amigo, pois certamente eu as desvirtuaria, mesmo sem querer; então me limitarei a dar opinião sobre o tema, sem reproduzir o debate.
         Graciliano Ramos foi muito importante por três aspectos. Primeiro: foi um grande escritor, na minha opinião, que coincide com a do meu amigo, o maior da Língua Portuguesa. Segundo: Graciliano foi revisor de jornais. Na época, não existia a figura do editor, como a conhecemos nos jornais atuais. Cabia ao revisor fazer o que fazem os atuais editores. Como revisor, Graciliano ganhou fama de ranzinza. Ele não admitia a linguagem empolada, rebuscada, nem o uso de expressões que fugissem ao conhecimento do leitor médio. Pela sua atuação, Graciliano tornou a linguagem jornalística brasileira mais simples e direta, menos prolixa. Terceiro: Graciliano levou para a literatura as expressões populares, a linguagem do homem comum. Quando escreveu o romance São Bernardo, Graciliano, ao concluí-lo, começou a reescrevê-lo. Como ele diz no texto citado abaixo - escrito para a esposa Heloísa, em 1932 - passou do português para o brasileiro.

         ... O S. Bernardo está pronto, mas foi escrito quase todo em português, como você viu. Agora está sendo traduzido para brasileiro, um brasileiro encrencado, muito diferente desse que aparece nos livros da gente da cidade, um brasileiro de matuto, com uma quantidade enorme de expressões inéditas, belezas que eu mesmo nem suspeitava que existissem. Além do que eu conhecia, andei a procurar muitas locuções que vou passando para o papel. O velho Sebastião, Otávio, Chico e José Leite me servem de dicionários. O resultado é que a coisa tem períodos absolutamente incompreensíveis para a gente letrada do asfalto e dos cafés. Sendo publicada, servirá muito para a formação, ou antes para a fixação, da língua nacional. Quem sabe se daqui a trezentos anos eu não serei um clássico? Os idiotas que estudarem gramática lerão S. Bernardo, cochilando, e procurarão nos monólogos de Seu Paulo Honório exemplos de boa linguagem. Está aí uma página cheia de S. Bernardo, Ló. É uma desgraça, não é? Tanta letra e tanto tempo para encher lingüiça! Mas isso prova que a minha atenção está virada para os meus bonecos e que não tenho vagar para pensar nas fêmeas do Pernambuco Novo. E adeus por hoje.

         Outro escritor brasileiro que ficou famoso por incorporar a linguagem regional à escrita foi Guimarães Rosa.
         Em Angola, Arnaldo Santos e Luandino Vieira fizeram algo parecido. Contudo há uma grande diferença entre o português brasileiro e o português de cada país africano. Depois da terceira década do Século XX, no Brasil passamos a ter a língua portuguesa como a forma geral de expressão nacional e as línguas brasílicas passaram a ser residuais, usadas por remanescentes, apenas uns poucos índios mantiveram a própria língua. Na África é muito diferente. A Guiné-Bissau, país de reduzido território, com população menos numerosa do que dezenas de cidades brasileiras, tem dezessete línguas nacionais, além das duas oficiais: Português e Crioulo. Em Angola e Moçambique a situação é mais complexa. Em ambos os casos, a única língua conhecida em todo território nacional é o português, mas a língua materna raramente é o português, nem mesmo podemos dizer que é a língua dominante. Em Moçambique, muitas línguas são aglutinantes. Por conta disto, é comum, em português, os moçambicanos usarem prefixos e sufixos, por vezes inexistentes. Apenas para exemplificar. Em ronga, língua do Sul de Moçambique, mina equele quer dizer eu durmo, mina zia equele, acordei (acabei de dormir), mina zia equelile, dormirei. Por isto é comum o uso de expressões, absolutamente lógicas e belas, mas inexistentes na língua portuguesa de outros países, como desconseguir.
         No caso de Mia Couto, a incorporação de regionalismos, tão louvada em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, passa, necessariamente, pela incorporação de expressões de outras línguas nacionais moçambicanas, mas também de outra forma de estruturação de frases. Algumas vezes, mesmo que jamais cheguemos a usá-las, as formas de estruturação são muito mais apropriadas e belas do que as do nosso cotidiano. Dou apenas um exemplo. No Brasil, seria correto e apropriado dizer "coisa que não é de minha competência"; moçambicanamente, de forma mais concisa, elegante e prática, Mia Couto diz: "coisa de minha incompetência".


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Janeiro 17, 2006
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wDivagações e citações - Quinta-feira, Janeiro 12, 2006


Terra sonâmbula

     O tempo passeava com mansas lentidões quando chegou a guerra. Meu pai dizia que era confusão vinda de fora, trazida por aqueles que tinham perdido seus privilégios. No princípio, só escutávamos as vagas novidades, acontecidas no longe. Depois, os tiroteios foram chegando mais perto e o sangue foi enchendo nossos medos. A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.

     Este parágrafo foi transcrito de Terra sonâmbula, primeiro romance de Mia Couto, ambos, romance e escritor, consagrados internacionalmente, afinal, este romance foi incluído entre os doze melhores livros africanos do Século XX, por um júri criado especialmente para isto pela Feira Internacional do Livro do Zimbabwe. Portanto, dispensam meus encômios. Eu é que careço me referir ao romance e ao escritor. A leitura é um profundo mergulho. Hema! Hema, Manoel Carlos! Hema! É o chamamento de África. Mergulho em noite escura, cenário de guerra, ao som ameaçador da quizumba. Para atender ao chamamento exijo: panbere ni Afrika, mas ninguém atende, a paz em África é uma quimera? E mergulho cada vez mais, o livro não me prende nem me liberta, faz-me encontrar a mim mesmo. E, apesar do cenário de guerra, da miséria humana, dos medos, apenas consigo dizer: xunguila Afrika, xunguila Terra sonâmbula! Não é um livro, é um xicuembo.
     Mia Couto é contista, romancista e pensador, dos maiores! Se na ficção reflete magicamente a realidade que o cerca, também é capaz de arguta análise da conjuntura moçambicana, africana e mundial, tanto a realidade cultural quanto a sócio-econômica e política. Por tudo isto, kanimambu Mia Couto, kanimambu.

Hema (rêma) - chamamento imperativo: "vamos!".
Kanimambu - agradecimento: "muito obrigado!".
Panbere ni Afrika - "Paz na África".
Xicuembo - "Feitiço".
Xunguila - expressão de beleza ou qualidade: "bonito!", "lindo!", "maravilhoso!"

Observação: no menu superior, basta passar o mouse sobre citações, Mia Couto, e escolher um dos treze textos disponíveis, são artigos e crônicas.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quinta-feira, Janeiro 12, 2006
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wDivagações e citações - Domingo, Janeiro 08, 2006


        Desencanto

          Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.

                 Teresópolis, 1912

        Biografia de Pasárgada

           Manuel Bandeira

     Quando eu tinha os meus quinze anos e traduzia na classe de grego do Pedro II a Ciropedia fiquei encantado com esse nome de uma cidadezinha fundada por Ciro, o Antigo, nas montanhas do sul da Pérsia, para lá passar os verões. A minha imaginação de adolescente começou a trabalhar, e eu vi Pasárgada e vivi durante alguns anos em Pasárgada.
     Mais de vinte anos depois, num momento de profundo cafard e desânimo, saltou-me do subconsciente este grito de evasão: "Vou-me embora pra Pasárgada!" Imediatamente senti que era a célula de um poema. Peguei do lápis e do papel, mas o poema não veio. Não pensei mais nisso. Uns cinco anos mais tarde, o mesmo grito de evasão nas mesmas circunstâncias. Desta vez o poema saiu quase no correr da pena. Se há belezas em "Vou-me embora pra Pasárgada", elas não passam de acidentes. Não construí o poema; ele construiu-se em mim nos recessos do subconsciente, utilizando as reminiscências de infância - as histórias que Rosa, a minha ama-seca mulata, me contava, o sonho jamais realizado de uma bicicleta, etc. O quase inválido que eu era ainda por volta de 1926 imaginava em Pasárgada o exercício de todas as atividades que a doença me impedia:
     "E como farei ginástica... tomarei banhos de mar!" A esse aspecto Pasárgada é "toda a vida que podia ter sido e que não foi".

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Domingo, Janeiro 08, 2006
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wDivagações e citações - Terça-feira, Janeiro 03, 2006


Ano novo, vida velha

     Hoje, se vivo fosse, Luiz Carlos Prestes completaria cento e oito anos de idade. Até meados do século passado, Prestes gozou de imensa popularidade, no Brasil e no Mundo, tornando-se uma legenda, um mito, o grande herói brasileiro. De Prestes, falaram Pablo Neruda, Graciliano Ramos, Jorge Amado... Eu convivi com Prestes e tive a honra e o privilégio de observá-lo em sua dimensão humana. Eu o vi, com mais de oitenta anos de idade, lavar louça, como todos nós fazemos. Com a mesma naturalidade com que abordava os graves problemas da conjuntura sócio-econômica mundial, Prestes deixava-se fazer de gato e sapato pelo neto. Cada Ano Novo é um recomeço e o aniversário de nascimento de Prestes, de certa forma, me obriga a refletir sobre a vida, a repensá-la, a desejar recriá-la, reinventando-a. Para tanto, faz-se necessário voltar às nossas fontes constitutivas, às mais importantes influências culturais: literárias, musicais e culinárias. Nas três, nós, brasileiros em geral e pernambucanos em especial, carregamos a África em nós, não como um fardo, mas como uma essência que nos tempera e liberta.
     Infelizmente não sou poeta, mas tive o privilégio de conhecer alguns bons poetas, através de livros e até pessoalmente, sendo Vasco Cabral um deles. A vida me deu o presente de conhecê-lo, sem dúvida, um dos mais brilhantes homens que tive a honra de conhecer. Ele disse:


Aos poetas - Vasco Cabral

Poeta! A vida é o melhor poema.
Faz do verso a chama de mil braços.
Queremos ver a terra fecundada!


     Como Prestes, Vasco Cabral, nascido em Farim, Guiné-Bissau, aliou o brilhantismo intelectual à imensa disposição de luta, sempre em boa companhia, como quando fugiu da prisão, em Portugal, junto com Agostinho e Eugénia Neto; na luta, esteve ao lado de outro grande guineense, filho de cabo-verdianos, Amílcar Cabral, nascido em Bafafá, do qual apresento um poema.


Regresso - Amílcar Cabral

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
o bater da chuva lá do seu portão.
É um bater de amigo
que vibra dentro do meu coração.

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha
- a ilha toda -
Em poucos dias já virou jardim...

Dizem que o campo se cobriu de verde,
da cor mais bela, porque é a cor da esp'rança.
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
- É a tempestade que virou bonança...

Venha comigo, Mamãe Velha, venha,
recobre a força e chegue-se ao portão.
A chuva amiga já falou mantenha
e bate dentro do meu coração!


     Infelizmente não sou músico e, apesar do privilégio de conviver com bons músicos, não sou capaz de entender música, embora, sem entendê-la, eu a aprecie e não viva sem ela. Eu tentei mostrar aqui uma música da qual gosto muito, chamada Coisa de nego, composta e gravada, em Cabo Verde, por pernambucanos, mas não consegui digitalizá-la a partir do LP e nem mesmo os autores a têm em meio digital. Portanto, sou forçado a mostrar uma música, Africando, do meu cantor predileto, Bonga. Para ouvi-la, por favor, clicar clique aqui ou abaixo
.

     Nossas influências não são apenas africanas, é claro! No Século XVI, as senhoras de engenho, oriundas de Portugal, faziam o bolo colchão-de-noiva, na verdade, um rocambole, com recheio de amêndoas. Sem disporem dos ingredientes originais, com a ajuda das mucamas africanas, fizeram adaptações, incluíram a goiaba derretida, a massa ficou cada vez mais fina, originando o delicioso bolo-de-rolo, cuja receita já apresentei aqui.

Observação

     Infelizmente não sou mestre-cuca, daí não conseguir dar as receitas com a precisão que deveria. Na minha mais recente receita, de camarão na moranga, Nora Borges de Língua de Mariposa, reclamou que eu não especifiquei o tempo durante o qual o jerimum precisaria ficar no forno. Eu deveria ter respondido na ocasião e, nem sei por quê, não o fiz. O primeiro axioma culinário é que o tempo de forno corresponde a uma hora por cada quilo. Como todo dogma, ninguém o discute; não há quem diga que carne suína é mais tenra do carne bovina; ninguém se lembra de que, quando esta norma foi estabelecida, os fornos eram de barro e aquecidos por fogo a lenha; não há quem se lembre de que os fornos atuais são graduados, podendo a temperatura variar de cem a seiscentos graus... Nada disto: uma hora por quilo! Cara amiga Nora, não há válvula, como as que os perus natalinos temperados trazem, não há mecanismo, nada que substitua os nossos sentidos, ao menos na cozinha. Eu sou péssimo cozinheiro porque olho as receitas para desrespeitá-las, porque confio na minha visão, no meu olfato e no meu tato, desconfiando sempre da matemática aplicada à culinária. É claro que há referências, por exemplo, no bacalhau ao molho de coco, sabe-se que está no ponto quando as cebolas perdem a opacidade e ficam translúcidas ou transparentes. Antes que você me pergunte: — Manoel Carlos! translúcida ou transparente? Eu já a aviso: — depende da cebola, Nora, depende...


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Janeiro 03, 2006
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Praia do Porto - Costa Dourada
Litoral Sul de Pernambuco
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Parque das Emas
Goiás - Mato Grosso do Sul
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Chapada dos Guimarães
Mato Grosso
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Serra dos Órgãos
Estado do Rio de Janeiro
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Campos do Jordão
São Paulo
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Provetá - Ilha Grande
Estado do Rio de Janeiro
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Candeias
Jaboatão dos Guararapes
Pernambuco
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Mercado São Josá - Recife
Pernambuco
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Piedade
Jaboatão dos Guararapes
Pernambuco
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Pouso Alegre
Minas Gerais
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Vista de Casa
Pão-de-Açúcar
Rio de Janeiro
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Vista de Casa
Cristo Redentor
Rio de Janeiro
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Vista de Casa
Nascente - Pão-de-Açúcar
Rio de Janeiro
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Vista de Casa
Poente - Floresta da Tijuca
Rio de Janeiro
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Vista de Casa
Maracanã
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Vista de Casa
Niterói
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Vista de Casa
Quinta da Boa Vista
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Vista de Casa
Zona Norte
Rio de Janeiro
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Vista de Casa
Santa Tereza
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Santa Tereza
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Santa Tereza
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Santa Tereza
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Micos
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