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Rabiscos e divagações

Auto-retrato
Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos.
Contato
Rabiscos e divagações
"Não basta que seja pura e justa a nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós"
Agostinho Neto
"Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos"
Vital Farias
"Não há vento favorável para quem não sabe a que porto quer chegar"
Luiz Carlos Prestes
"Eu não vivo do passado, o passado é que vive em mim"
Paulinho da Viola
"Quando a riqueza de poucos afronta a miséria de muitos, a insegurança é de todos"
Josué de Castro


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-- Atual --

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A entrevista
A espera
A fuga
A Mata do Caboclo
A ressaca
A vingança
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wDivagações e citações - Quarta-feira, Novembro 30, 2005


Preocupações juvenis

     No sábado à noite, duas dezenas de jovens de dezesseis anos ocupavam uma mesa de um restaurante no Flamengo. Sendo aniversário de Akemi, os amigos dela ali reunidos eram alunos ou ex-alunos de Liceu Franco Brasileiro. À frente de Akemi, estava Flora, ex-aluna do Liceu. Akemi: — no estágio no CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), você faz o quê? Flora: — trabalho com cálculo de déficit de neutrinos. Um pequeno grupo, constituído por Akemi, Léo, Ciro, Tiago e Rodrigo, se interessou e começou uma verdadeira sabatina. Deve ter sido muito estranho, para os ocupantes das mesas vizinhas, um grupo de jovens, em pleno sábado à noite, conversar animadamente sobre decaimento de léptons, métodos de captura de neutrinos, estimativas de quantidade de matéria ou energia negra no espaço, além de teorias de Grande Unificação de Forças. Tudo isto com a mesma espontaneidade e naturalidade com que os mesmos jovens conversavam sobre: Harry Potter, músicas de Nirvana e Janis Joplin, técnicas e táticas em partidas de The Sims, comunidades no Orkut, desmatamento na Amazônia, corrupção de Lula, viagens, paqueras... Conversas de jovens urbanos normais, com oportunidade de estudo e acesso à informação. Com preocupações, expectativas e sonhos. Jovens normais, infelizmente incomuns no nosso Brasil. Há outros jovens, um tipo deles bem representado na crônica que Joel Silveira escreveu há cerca de quarenta anos e que reproduzo a seguir.


As formigas

     O oleiro tem apenas 15 anos de idade: — é magro, de ossos apontando sob a pele. São 7 horas da manhã, faz frio, mas ele está ali desde a madrugada, diante do barro que suas mãos vão agilmente transformando em rudes tijolos. Seu artesanato começa antes do sol, vai até o meio-dia, recomeça às duas, termina com a noite. No final da jornada, o frágil artista da argila terá produzido mil tijolos que não lhe renderão quase nada. Se a produção cai, o salário do dia míngua — e daí o motivo por que, conversando comigo e respondendo às minhas perguntas, ele não interrompe nem por um segundo a sua tarefa.
     Vejo suas mãos mergulharem no monte de barro, dele arrancarem a porção justa com que encherão a forma de madeira; depois é o corte rápido que apara as sobras do barro e, em seguida, o aparecimento mágico do tijolo que nas do molde rústico. Tento descobrir na figurinha encardida alguma coisa que lembre líricos oleiros do poeta Omar Khayam, mas não encontro nada: nem o perfume do sândalo, nem o dourado sol que ilumina trigais e afina, na distância, a plangente trompa dos pastores sem tormentos. João Luís, de Franteira, enrola-se em farrapos, tenta agasalhar o corpinho magro num esburacado arremedo de camisa, guarda os pés nalguma coisa indistinta e turva que noutro tempo deve ter sido um par de botinas, e que, agora, é apenas a continuação do barro que sobe pelas pernas finas, gruda no corpo magro até os olhos, dois olhos vivos, insubmissos e valentes.
     Também penosa é a obrigação da menina de 12 anos, cortadora de cana, que lá vai, com o seu facão certeiro e afiado, desbastando a espessa e emaranhada cabeleira dos canaviais. O seu dia começou às cinco da manhã, quando o sol era apenas uma promessa de fogo no pedaço de céu que fica muito além do rio. E até o fim da tarde, com um pequeno intervalo para a refeição magra que trouxe de casa, aqui ela ficará lutando contra o batalhão verde, destroçando suas hostes, num avanço sem descanso que rasga no verde a reta de um chão negro e úmido. Num dia inteiro de trabalho, Maria das Dores terá cortado alguns milhares de pés de cana. Durante seis meses ela não fará outra coisa — possivelmente não fará outra coisa durante a vida inteira. Como as formigas.


Algo [+]

     Recebi um dos mil exemplares do número zero da revista Algo [+] Informação e Análise a qual trata da conjuntura sócio-econômica pernambucana, além de abordar o universo cultural da região. No pré-lançamento, uma maravilhosa entrevista com Francisco Brennand. Espero que a revista obtenha sucesso e mantenha o nível do número zero.

Roza de Oliveira

     Eu não sei quem é Roza de Oliveira. Jamais ouvira falar nela até receber o telefonema de Moacir Lopes: — Manoel Carlos, você sabe quem é Roza de Oliveira, Rosa com Z?
Eu: — não.
Moacir: — ela é muito boa! É mestra em Literatura Brasileira e, realmente, entende do assunto. Escreveu o artigo A imaginação do movimento no romance A ostra e o vento: visão barroca; eu quero conhecê-la, por favor, veja se descobre na internet como eu posso entrar em contato com ela, não só para agradecer pelo artigo, mas também para trocar idéias sobre literatura.
     Quem quiser ler, na íntegra, o artigo, por favor, clicar aqui


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Novembro 30, 2005
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wDivagações e citações - Sexta-feira, Novembro 25, 2005


Carioquice

     Há cerca de um mês, o Boteco Belmonte inaugurou a sua filial na Lapa. A matriz, na Praia do Flamengo, é o estabelecimento que alcança o segundo lugar em venda de chope da Brahma no Rio de Janeiro. O sucesso da casa é atribuído à qualidade dos seus petiscos, aliada à forma como o chope é tirado. No dia da inauguração, um grande amigo meu, digamos Fulano de Tal, leu a notícia no jornal, pegou o telefone e ligou para a matriz, à qual ele jamais foi.
Fulano de Tal: — quem aí pode dar uma informação sobre a inauguração da filial da Lapa?
O atendente: — Beltrano, o gerente.
Fulano de Tal: — então chama Beltrano aí, que eu quero falar com ele.
Beltrano: — alô! Aqui é Beltrano!
Fulano de Tal: — Beltrano! Aqui é Fulano de Tal!
Beltrano, um pouco confuso e constrangido por não se lembrar de um cliente tão especial que o trata com tanta intimidade e autoridade: — Fulano de Tal! O que o amigo manda?
Fulano de Tal: — vai ter ou não vai ter?
Beltrano: — o quê?
Fulano de Tal: — porra, Beltrano! a inauguração da filial da Lapa!
Beltrano: — claro! vai ser hoje, a partir das vinte horas!
Fulano de Tal!: — hoje? eu não tenho convite! Como pode ser isto, Beltrano?
Beltrano: — não tem problema! basta dizer que é meu convidado! Convidado especial de Beltrano, gerente da Praia do Flamengo!
Fulano de Tal: — então está bem. Você estará lá?
Beltrano: — infelizmente não... isto aqui, hoje, está uma loucura, mas não tem problema, diga que é meu convidado e pronto!
     Fulano de Tal e a mulher telefonaram para alguns amigos; nós já havíamos assumido compromisso com outros amigos, contudo, houve cerca de uma dúzia de adesões. Para todos os aderentes foi repassada a senha: convidado de Beltrano, gerente da Praia do Flamengo. Quando Fulano e Fulana de Tal chegaram lá, ao se dirigirem à entrada, encontraram um grupo constituído pelo pior tipo de segurança: de paletó e gravata, com aparência de Delegado da Polícia Federal, frio, impessoal, polido, arrogante e autoritário.
Segurança: — convite, por gentileza.
Fulano de Tal: — não tenho!
Segurança: — desculpe-me doutor, mas só pode entrar com convite.
Fulano de Tal: — como? Beltrano, gerente da Praia do Flamengo, me disse que viesse, que não precisava de convite, veja aí na lista, deve estar o meu nome! Sou convidado de Beltrano!
     Neste momento, várias pessoas, numa mesa dentro do bar, acenaram gritando o nome do meu amigo. O delegado, ou melhor, o segurança, logo percebeu que estava diante de um dos mais especiais clientes da casa e, desculpando-se, pediu que Fulano e Fulana de Tal entrassem. O casal entrou e passou a comandar, até o dia amanhecer, uma das mais animadas e bem servidas mesas na maior, até o momento, boca-livre do milênio.

Prêmio

Parabéns a Adelaide, de Umbigo do sonho,
pois Como se livrar de Glória, seu primeiro romance, acaba de ganhar o primeiro prêmio no concurso da Fundação Gutenberg, promovido pela Fábrica de Livros


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sexta-feira, Novembro 25, 2005
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wDivagações e citações - Terça-feira, Novembro 22, 2005


Receitas
     Rosângela, de Ilíqüido, a gentileza em forma de gente, mineira, radicada na Alemanha, terra natal de Reiner, seu marido, fez-me um pedido. Eles têm hábitos camponeses, os quais contrastam com a vida urbana e cosmopolita que levam, certamente um contraponto. Eles produzem frutas, legumes, verduras... E outro dia, colheram inúmeras abóboras (ou deveria dizer jerimum?), cada uma mais bonita do que a outra. Eu logo pensei em fazê-las com camarão, é claro! E ela me perguntou como prepará-las. É muita responsabilidade tentar ensinar algo a quem sabe tudo. Entre outras coisas, Rosângela e Reiner produzem aguardente caseira; eu mesmo ganhei uma garrafa de uma de cereja, que lembra um pouco o sabor de aguardentes búlgaras de ameixa. Deixem de inveja e "lasdrava"!
     Se eu fosse trabalhar em um restaurante, no máximo, conseguiria ser cominho, ou seja, aprendiz de auxiliar de servente de mesas. Contudo, observo e auxilio quando preparamos algumas comidas em casa. Agora, que Sílvia voltou para o Rio, certamente terei muita oportunidade de praticar, sem jamais me comparar a Alan de Carta da Itália.
     Tentarei dar uma receita, apontando alternativas. Pegamos um quilo e meio de camarão fresco, descascado; limpamos, sobretudo as costas, lavamos em água fria e jogamos sobre ele um caldo de limão, deixando-o sobre uma peneira (arupemba) por cerca de uma hora, enquanto preparamos outras coisas. Há quem não use o limão... Abrimos um vinho, botamos uma música pra tocar... mas isto não faz parte da receita, embora torne o jantar muito mais saboroso!
     Habitualmente não usamos as cascas, contudo, há quem goste de usá-las para fazer uma calda; para isto, cozinhar as cascas numa panela com três xícaras de água e três rodelas de limão, sem a tampa, até o líqüido se reduzir a uma xícara; remover o caldo do fogo e coar. Jogar fora as cascas e reservar o caldo até que seja preciso usá-lo.
     O camarão pode ser preparado com leite de coco ou não. Apresentarei as duas alternativas.
     Misturar o seguinte numa panela grande: dois tomates médios picados, uma cebola pequena picada, um dente de alho socado, uma colher de sopa de azeite, uma colher de sopa de óleo, duas colheres de chá de coentro, sal a gosto e uma colher de sopa de extrato de tomate. Ferver estes ingredientes até formar uma pasta grossa. Misturar o caldo do camarão e ferver por mais cinco minutos. Juntar o camarão e esquentar bem - mais uns cinco minutos. Misturar uma e meia xícaras de leite de coco grosso. Continuar a esquentar o molho, mas sem deixar ferver.
Dicas:
1 - Para quem não quer tirar o leite, do coco fresco, substituir por uma lata ou uma garrafinha de leite de coco.
2 - Para quem vai fazer o leite de coco grosso. Um coco médio, tirar a casca grossa, descascar, cortar em fatias finas, bater no liqüidificador com uma xícara de água. O leite extraído do bagaço é o leite grosso, mais ou menos uma e meia xícaras. Há um processo artesanal, com água quente e pano, mas não recomendo...
3 - Bater no liqüidificador os temperos, depois de cozidos, assim o camarão fica mais bonito e o tempero mais concentrado.
4 - Acrescentar também pó de camarão seco, pimentas picantes e um pimentão no tempero.
5 - Usar camarões médios, já descascados e limpos. Caso não tenha as cascas do camarão para ativar o gosto do tempero, usar o camarão seco como substituto.
     Escolhemos a segunda alternativa. Fritar os camarões. Pode ser em óleo ou azeite de dendê, mas preferimos azeite de oliva, de preferência virgem, com acidez máxima até 0,5%, dá-nos a impressão de o camarão ficar mais bem cheiroso e com sabor mais leve. Após todos estarem fritos, na mesma panela refogá-los com sal, alho, cebola e, aos poucos, adicionar os demais temperos. Em relação aos ingredientes da receita anterior, aumentamos a quantidade de alho, suprimimos o óleo e aumentamos o azeite de oliva, conforme já explicado. Como não usamos o caldo de casca de camarão nem o leite de coco, aumentamos a quantidade de tomates. Também usamos meio pimentão vermelho e meio pimentão amarelo, daqueles de sabor muito suave. Ainda acrescentamos umas pimentas (Ceará, que lembram a pimenta-dedo-de-moça, mas são enrugadinhas e amarelas), sem ardor, mas que dão um cheiro especial; como gostamos de pimenta, acrescentamos pimenta-de-cheiro, pimenta-malagueta e pimenta-dedo-de-moça.
     Em ambos os casos, após a preparação do camarão: abrir o jerimum de forma a poder tampá-lo com a parte retirada - o ideal é cortar em formato irregular, com a faca inclinada para dentro, de forma que a parte externa fique maior que a parte interna; retirar todas as sementes; untar com óleo a parte externa do jerimum cru; espalhar requeijão (Catupiry) pelas paredes internas do jerimum; jogar dentro o camarão e levar ao forno.
     Durante a refeição, tolera-se gemer, sem sentir dor.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Novembro 22, 2005
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wDivagações e citações - Terça-feira, Novembro 15, 2005


Personagens

     (...)Sou das pessoas que, realmente, trabalham, mas, desde que comecei, impus minhas condições: trabalhar em casa. Se querem, que eu escreva, deixem que escreva em casa. Só sei escrever sozinho e mal vestido. Levantando, deitando, comendo uma coisa. Às vezes, estou na máquina e bate a burrice. Levanto, vou à cozinha e como uma comida fria. Melhoro. Volto a escrever. Na segunda burrice, me deito e leio um trecho de novela policial. Fico poeta.(...)
     Nei Leandro de Castro, escritor e publicitário potiguar jamais leu o texto acima, de autoria do jornalista, poeta e compositor pernambucano Antônio Maria, contudo, depois de muitos anos radicado no Rio de Janeiro, Nei Leandro foi repatriado e voltou a viver em Natal. Na semana passada, ele chegou ao Rio para passar cerca de duas semanas. Está feliz e disse que não sairá mais de Natal a não ser em eventuais viagens. Lá ele voltou a trabalhar em publicidade. No Rio ele foi diretor de uma grande agência e, no Rio Grande do Norte, recebeu algumas propostas de trabalho. Numa entrevista com o dono da agência, após receber uma boa oferta financeira, Nei perguntou:
— e como é o esquema de trabalho?
— normal, o horário é de...
— espera aí! horário? nada disto! eu trabalho em casa! uso o meu computador, desenvolvo minhas idéias e as apresento em reuniões, aqui na agência.
     Como Antônio Maria, Nei Leandro teve as suas exigências atendidas e tem levado a vida que alguns pedem a Deus, mas Ele responde: — uma vida destas? até Eu quero!
     No Nordeste dizemos que vida boa não quer pressa, portanto, Nei Leandro tem se dedicado a rever amigos e lugares queridos. Um dia destes, ele retornou, com Sandra, sua mulher e companheira, a uma das praias na qual eles tiveram uma das suas luas-de-mel, em 1992: São Miguel do Gostoso. A caminho de lá, Nei Leandro juntou às reminiscências uma lembrança muito especial. Exatamente em 1992, ele conheceu uma italiana, muito bonita e liberal, que endoidou os pescadores da localidade. Em 1995, quando a revista Playboy lançou o seu primeiro concurso de contos eróticos, com a oferta de um grande prêmio ao primeiro lugar, Nei Leandro resolveu escrever um conto e se lembrou da atraente italiana. A ele não ocorreu nome algum para a personagem e, em suas anotações, escreveu o nome completo dela: Maria Luiza Nappi; ao longo da narrativa, as aventuras dela se misturaram à imaginação do autor, mas um nome não surgiu. Chegou um momento no qual Nei Leandro corria o risco de perder a única coisa que um advogado não pode perder: o prazo. E enviou o conto. Tão logo o remeteu, Nei Leandro foi acometido por uma grande angústia, pois se deu conta de que Maria Luiza poderia processá-lo, inclusive por danos morais. Em alguns momentos, ele chegou mesmo a torcer para perder o grande prêmio e não ter o conto publicado. Mas não deu outra: primeiro lugar!
     Na volta a São Miguel do Gostoso Nei Leandro se lembrava de Maria Luiza e da sorte que ele teve em não ser processado por ela, jamais a reviu e imaginou que ela nem mesmo havia sabido do conto. Logo no primeiro dia de retorno à belíssima praia, Nei Leandro teve uma surpresa: lá estava Maria Luiza! Quando o viu, ela correu na direção dele, abraçou-o efusivamente e disse: — sou muito grata a você pelo conto! Fiquei famosa na Itália, dei muitas entrevistas na televisão, foi ótimo!
     Maria Luiza é casada, vive em São Miguel do Gostoso e Nei Leandro está tranqüilo e certo de que não será processado.

Pagamento em espécie

     Um caso interessante é o que envolve o publicitário potiguar João Martins de Ataíde. Depois de muito beber, João ficou sem dinheiro. E propôs ao dono do botequim fazer algum trabalho em troca de mais bebida. O bodegueiro disse que precisava fazer uma placa com um anúncio dizendo que não vendia fiado, mas não sabia o que escrever. Sem se fazer de rogado, João, de imediato, improvisou:
Para evitar transtorno
aqui neste barracão
só vendo fiado a corno
filha da puta e ladrão!

     Ganhou crédito para o resto da bebedeira, a qual durou dois dias.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Novembro 15, 2005
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Novembro 07, 2005


Canto interior de uma noite fantástica

     António Jacinto

Sereno, mas resoluto
aqui estou - eu mesmo! - gritando desvairado
que há um fim por que luto
e me impede de passar ao outro lado

Ante esta passagem de nível
nada de fáceis transposições
Do lado de cá - pareça embora incrível
é que me meço: princípio e fim das multidões.

Não quero tudo quanto me prometem aliciantes
Nada quero, se para mim nada peço,
o meu desejar é outro - o meu desejo é antes
o desejo dos muitos com que pareço.

Quem quiser que venha comigo
nesta jornada terrena, humana e sincera
E se for só - ainda assim prossigo
num mar de tumulto, impelindo os remos sem galera.

Que venham glaucas ondas em voragem
que ardam fogos infernais
que até vermes tenham a coragem
de me cuspir no rosto e no mais

Que os lobos uivem famintos
que os ventos redemoinhem furiosos
que até os répteis soltem seus instintos
e me envolvam traiçoeiros e viçosos.

Que me derrubem e me arremessem ao chão
que espezinhem meu corpo já cansado
à tortura e ao chicote ainda responderei não
e a cada queda - de novo serei alevantado.
E não transporei a linha divisória
entre o meu e o outro caminho
Mesmo que a minha luta não tenha glória
É no campo do combate que alinho.

Assim continuarei a lutar, ai a lutar!
num perigoso mar de paixões e escolhos
e - companheiros - se neste sofrer me virdes chorar
não acrediteis em vossos olhos!


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Novembro 07, 2005
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wDivagações e citações - Quinta-feira, Novembro 03, 2005


No princípio era a roda

     Já era de madrugada quando o telefone tocou. Atendi e ouvi uma voz estranha. Não estranha de desconhecida, mas macambúzia. Identificou-se: Acir Vidal; e se desculpou pela hora; deu a triste notícia: morreu Roberto Moura. A dizer que o amigo morreu, Acir caiu em pranto. Foi um diálogo difícil, penoso. Ele em Vitória, eu no Rio; a muito custo, obtive alguma informação.
     No dia seguinte fui ao enterro e, evidentemente, na própria secretaria do cemitério, pedi informação; solícita, a funcionária confirmou que o enterro seria ali mesmo, que o corpo já devia estar chegando. Perguntei outras vezes e pensei em ir embora, e só não fui por ver Luiz Carlos da Vila e Moacir Luz. O velório foi no mesmo cemitério, em outra entrada, mas os incompetentes e burocráticos funcionários não me deram uma informação tão elementar.
     Quando Tim Maia morreu, o enterro foi muito tenso, pois ninguém sabia se e quando o corpo chegaria. Roberto Moura, cumpridor de seus deveres e compromissos, respeitado por todos que o conheciam, estava lá, sendo velado, e o velório demorou, pois houve o desencontro. Na verdade, Roberto partiu antes do tempo. Inicialmente acharam que o dengue hemorrágico foi a causa mortis, depois foi divulgado que pode ter sido febre maculosa. Indivíduo saudável, morreu de falta de profilaxia. E quantos morrem sem sabermos? As estatísticas, cada vez menos confiáveis, não revelam a indigência em que nós, brasileiros, vivemos e da qual morremos.
     Durante o enterro, o abatimento dos amigos, a consternação geral, tudo a indicar a grande perda para a cultura brasileira. A pedido da viúva, Luiz Carlos da Vila cantou uma das músicas preferidas do falecido e Roberto, adepto de roda de samba, parecia comandar os emocionados amigos que, entre soluços, cantaram a despedida.
     Após o enterro, acompanhei Acir, Rita e Zé Moreira ao Restaurante Capela, na Lapa. Durante cerca de três ou quatro horas, comemos cabrito e javali, bebemos chope e contamos muitos casos; às vezes, Acir reclamava do morto que partiu sem permissão ou necessidade, morte em vão. Também falamos de amigos que ainda fazem a vida valer a pena: Xangai, Elomar, o pessoal do Quinteto Violado... Ao contar e ouvir casos, eu percebi que Roberto Moura se integrou definitivamente à nossa memória, virou saudade, presente a cada roda, como tão bem ele descreveu; voltamos ao princípio e, como ele disse, no princípio era a roda.

Para ouvir a música, por favor, clicar aqui.


O show tem que continuar

O teu choro já não toca meu bandolim
Diz que minha voz sufoca teu violão
Afrouxaram-se as cordas e assim desafina
Que pobre das rimas da nossa canção
Hoje somos folha morta
Metais em surdina
Fechada a cortina Vazio o salão

Se os duetos não se encontram mais
E os solos perderam a emoção
Se acabou o gás
Pra cantar o mais simples refrão

Se a gente nota
Que uma só nota
Já nos esgota
O show perde a razão

Mas iremos achar o tom
Um acorde com lindo som
E fazer com que fique bom
Outra vez o nosso cantar
E a gente vai ser feliz
Olha nós outra vez no ar
O show tem que continuar

Se os duetos não se encontram mais
E os solos perderam a emoção
Se acabou o gás
Pra cantar o mais simples refrão

Se a gente nota
Que uma só nota Já nos esgota
O show perde a razão

Mas iremos achar o tom
Um acorde com lindo som
E fazer com que fique bom
Outra vez o nosso cantar
E a gente vai ser feliz
Olha nós outra vez no ar
O show tem que continuar

Nós iremos até Paris
Arrasar no Olímpia
O show tem que continuar

Olha o povo pedindo bis
Os ingressos vão se esgotar
O show tem que continuar

Todo mundo que hoje diz
Acabou vai se admirar
Nosso amor vai continuar


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quinta-feira, Novembro 03, 2005
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Goiás - Mato Grosso do Sul
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