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wAgreste |
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Rabiscos e divagações
 Auto-retrato |
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Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos. Contato |
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"Não basta que seja pura e justa a nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós" Agostinho Neto |
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"Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos" Vital Farias |
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"Não há vento favorável para quem não sabe a que porto quer chegar" Luiz Carlos Prestes |
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"Eu não vivo do passado, o passado é que vive em mim" Paulinho da Viola |
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"Quando a riqueza de poucos afronta a miséria de muitos, a insegurança é de todos" Josué de Castro |
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Agosto 29, 2005 |
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Tribunal de Cascais
Há cerca de dez anos, recebi um texto pela internet.
Não me lembro exatamente quem o enviou, afirmando tratar-se de um texto retirado dos autos de um processo, na ocasião, sem me dar conta, iniciei uma verdadeira corrente pela internet.
Vejam, por favor, o texto na íntegra.
Atenção para o relato abaixo. Trata-se de explicação de um operário português cliente de determinada cia. seguradora, em resposta ao questionamento da empresa, que estranhou o ocorrido. Um caso verídico julgado no Tribunal da Comarca de Cascais, Portugal, cujo conteúdo foi obtido através de cópia de arquivo da seguradora envolvida.
Ilmos. Senhores
Em resposta ao gentil pedido de informações adicionais, esclareço: no quesito 3 da comunicação de sinistro mencionei ¿tentando fazer o trabalho sozinho¿ como causa do meu acidente. Em sua carta V.Sas. me pedem uma explicação pormenorizada, pelo que espero que sejam suficientes os seguintes detalhes: sou assentador de tijolos e no dia do acidente estava a trabalhar sozinho no telhado de um prédio de 6 (seis) andares. Ao terminar meu trabalho verifiquei que havia sobrado diversos tijolos. Em vez de os levar a mão para baixo (o que seria uma asneira), decidi, num acesso de inteligência, colocá-los dentro de um barril e, com a ajuda d¿uma roldana ¿ a qual felizmente estava fixada na lateral da construção (mais precisamente no sexto andar), descê-los até o térreo. Desci ao térreo e atei o barril com uma corda e subi para o sexto andar de onde puxei o dito cujo para cima, colocando os tijolos no seu interior. Retornei em seguida para o andar térreo, desatei a corda e segurei-a com força para que os tijolos (aproximadamente 250kg) descessem lentamente (de notar que no quesito 11 informei que meu peso corpóreo oscila em torno de 80 kg). Surpreendentemente porém, senti-me violentamente alçado do chão e, perdendo minha característica presença de espírito, esqueci-me de largar a corda. Acho desnecessário dizer que fui içado do chão a grande velocidade. Nas proximidades do terceiro pavimento dei de cara com o barril que vinha a descer. Ficam explicadas as fraturas do crânio e das clavículas. Continuei a subir a uma velocidade um pouco menor somente parando quando meus dedos ficaram entalados na roldana. Felizmente, nesse momento já recuperara minha presença de espírito e consegui, apesar das fortes dores, agarrar-me à corda. Simultaneamente, no entanto, o barril com os tijolos caiu no chão, o que partiu seu fundo, Sem os tijolos, o barril pesava aproximadamente 25kg (novamente refiro-me ao meu peso indicado no quesito 11). Como podem imaginar, comecei a cair vertiginosamente e próximo ao terceiro andar com o que me deparei? O barril, que vinha a subir! Ficam explicadas as fraturas dos tornozelos, as lacerações das pernas e, o que foi mais lamentável, porém, reduziu a velocidade de minha descida, o que veio a minimizar meus sofrimentos quando caí por cima dos tijolos e para meu regozijo, fraturei apenas três vértebras. Lamento, no entanto, informar-lhes que quando me encontrava caído sobre os tijolos, incapacitado de me levantar, e vendo o barril acima de mim, perdi novamente minha decantada presença de espírito e larguei a corda. O barril ¿ que pesava mais que a corda ¿ desceu e caiu sobre mim, quebrando o resto das minhas pernas.
Espero ter-lhes fornecido as informações complementares solicitadas. Esclareço, outrossim, que este relatório não foi por minhas mãos redigido por encontrar-me, até o momento, imobilizado.
Manuel Cruz Pereira
MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Agosto 29, 2005
Comentário e zombaria:
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wDivagações e citações - Terça-feira, Agosto 23, 2005 |
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Coisas do Mundo
Há dois assuntos sobre os quais tenho tentado escrever e não consigo.
A revolta e o nojo me impedem de escrever de forma equilibrada.
O primeiro deles é sobre as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.
Eu não quero esquecer, não podemos olvidar este crime hediondo.
No dia seis de agosto, logo que entrei na internet vi fotos enviadas diretamente de Hiroshima.
As fotos retratavam a solenidade de homenagem às vítimas da primeira bomba atômica.
Segundo c.a.t., que enviou as fotos, foi uma cerimônia singela e tocante.
Acompanhado do pai, c.a.t. se disse emocionado; e não era para menos.
Algumas das fotos foram tiradas quando o sino marcava o momento exato (8h15), no mesmo local, em que a bomba explodiu há sessenta anos.
Flora fez, com quatro colegas de turma, um vídeo sobre o tema.
Foi um trabalho escolar de Física, assim sendo, não havia considerações políticas ou análises sócio-econômicas.
No trabalho técnico, as crianças explicaram o funcionamento, as bases teóricas e a contribuição política de Einstein na construção da bomba atômica.
O vídeo, de menos de cinco minutos, ficou maravilhoso, se é que o termo pode ser aplicado a algum trabalho sobre este assunto.
O outro assunto é a indecorosa mistura de corrupção, mentiras, cinismo e manipulação de informações que assola o Brasil.
Embora veja todos os noticiários, a revolta e o nojo tomam conta de mim quando penso em escrever sobre o assunto.
Na entrevista dominical, Palocci foi absolutamente convincente; como antes dele haviam sido: Delúbio Soares, Sílvio Pereira, José Dirceu... até que novas informações os desmascararam.
E o mais cínico de todos tem sido Lula.
Apuração de todos os fatos!
Proclamação de todos os inocentes!
Punição de todos os culpados!
Devolução de todo o dinheiro roubado!
Impeachment já!
Blogo, logo existo!
Não vou passar manteiga em venta de gato.
Não descreverei quem é c.a.t., Carlos Alberto Teixeira, pois descrever uma figura tão carimbada da internet brasileira, além de chover no molhado, teria a inutilidade de enxugar gelo.
Apenas indicarei a seleção de cento e sessenta e sete fotos da viagem ao Japão que c.a.t. publicou: basta clicar na foto.
Um registro: a escritora Adelaide Amorim aniversariou ontem.
Ela publica o imprescindível Umbigo do sonho.
Parabéns!
Por falar em imprescindível, a blogosfera quase empobreceu, e muito!, pois Zé Pinto Correia esteve em vias de desabilitar Letras ao Acaso e fechar os comentários de Inapto; para nossa sorte ele mudou de opinião.
Outro imprescindível, no caso, para a música brasileira: o grande amigo Toinho Alves, do Quinteto Violado também aniversariou ontem; ontem foi por telefone, mas renovo os votos de parabéns!
Zezinho e Adelaide, conheci através do Agreste, Toinho é amigo há muito tempo.
Os quatro, cada qual de uma forma, ajudam-me a entender as coisas do Mundo.
Servem de contraponto aos fatos lamentáveis.
A propósito, Coisas do Mundo, minha nega é um antológico samba de Paulinho da Viola, para ouvi-lo, por favor, clicar aqui ou abaixo
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wDivagações e citações - Sexta-feira, Agosto 19, 2005 |
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Tom
Um fazendeiro do Sertão de Pernambuco botou o filho único para estudar no Recife.
Alugou para o rapaz um apartamento, levou-o à casa de um compadre, homem sofisticado, professor e antiquário, e pediu ao amigo que apoiasse o filho.
O jovem era muito estudioso e, logo no primeiro mês, teve que comprar inúmeros livros, estourando o orçamento.
Escreveu uma carta para o pai, na qual informou a situação, o seu desempenho nos estudos, as dificuldades de se viver numa grande cidade, e concluiu explicando os motivos que o levaram a gastar além do previsto e pediu ao pai que enviasse mais dinheiro.
O pai e a mãe, analfabetos, foram até a fazenda mais próxima.
Lá pediram ao fazendeiro amigo que lesse a carta do filho.
O vizinho, mais grosso que papel de embrulhar prego, leu com a tronitruante voz e concluiu: — papai!, por favor!, mande dinheiro!
Beberam um café, conversaram e foram embora.
Na volta para casa, o pai disse para a mãe: — viu só?! Bastou ir pro Recife pra se meter a besta! Viu só o desrespeito? E me dando ordem! mande dinheiro! Mando sim. Pode esperar que mando.
Um mês, dois meses, três meses... e nada de dinheiro!
O compadre recifense viajou para o Sertão, em busca de antiguidades.
Visitou o compadre fazendeiro.
Conversa vai, conversa vem, e ele perguntou: — compadre, não é de minha conta, mas o amigo está com alguma dificuldade financeira?
O fazendeiro: — claro que não! Vendi bem o algodão, a farinha, o feijão; as cabras estão boas, o queijo-de-coalho com preço bom; o compadre precisa de algum dinheiro?
O recifense: — não, compadre; nem estou cobrando, mas preciso explicar que meu afilhado está em dificuldades, um ótimo rapaz, muito estudioso, mas está sem dinheiro e eu precisei adiantar algum dinheirinho, três meses seguidos.
Sertanejo: — Aquele desaforado! Faltou com respeito a mim! Bastou chegar no Recife e mandou uma carta malcriada! Metido a besta! Quer ver?, leia aqui!
O recifense leu, e ao fim disse, com voz pausada, serena e delicada: — papai, por favor, mande dinheiro.
O fazendeiro: — viu só?! Três meses sem dinheiro e logo mudou de tom!
Rosa de Hiroshima
Homenagem às vítimas do maior ato terrorista da História da Humanidade, para ouvi-la, por favor, clicar aqui ou ao abaixo
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wDivagações e citações - Terça-feira, Agosto 09, 2005 |
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Gol de placa
André Wilson Brotto Furtado, Adeline de Sousa Silva, Madson Menezes Costa e Raony Mascarenhas de Araújo, da UFPE - Universidade Federal de Pernambuco, ganharam o primeiro prêmio na Copa Mundial de Desenvolvimento de Soluções baseadas no Microsoft Office.
A honraria é mais importante do que os dezoito mil dólares que eles abiscoitaram.
Os russos Sergey Dubovik, Pavel Zadumkin, Dmitry Kozlov e Anastasiya Filinova, do Instituto de Aviação de Moscou, obtiveram o segundo lugar com o prêmio de dez mil dólares.
Em terceiro lugar ficaram os chineses Liu Teifeng, Yang Yongzhi, He Cong e Yang Lizhen, da Universidade de Ciências e Tecnologia de Huazhong; eles receberam o prêmio de sete mil dólares.
Em quarto lugar ficou outra equipe da UFPE formada por Igor Gatis, Gustavo Danzi, André Furtado e Leonardo Sobral.
As duas grandes surpresas foram: as equipes pernambucanas e a ausência de indianos.
Ainda bem que nem todos os jovens brasileiros seguem o exemplo de Lula.
Nem todos os jovens brasileiros praticam o que Lula acha natural e generalizado.
Blogo, logo, existo!
Até os dez anos de idade, Flora apenas lia histórias em quadrinhos.
Aos onze anos descobriu a literatura e se tornou uma leitora habitual.
Aos treze anos, ela escreveu uns textos meio estranhos, esquisitos.
Eu gostei muito do que ela escreveu, mas Sílvia ficou apreensiva e foi conversar com ela.
Flora então disse: — mãe, há quem escreva sobre as próprias experiências, há quem escreva sobre o que vê e sente, e há quem vá além de tudo isto.
A cada dia que passa ficamos mais amigos.
A idéia de eu criar um blogue partiu dela que me estimulou e orientou na criação de Agreste, em novembro de 2003.
Minha caçula foi o meu primeiro elo com o universo bloguístico.
Ontem ela aniversariou.
Nem toda a família se reuniu, as irmãs residentes em Curitiba e Mônaco apenas telefonaram, mas a mãe veio do Mato Grosso e está conosco.
Eis três dos textos "esquisitos".
Menoscabo
Eu jamais gostei de animais. Eles mordem quando você menos espera, sujam o chão, comem os móveis, fazem barulho e pulam nas visitas. Se forem peixes, não fazem nada disto, mas continuo não gostando deles, porque peixes são chatos.
Pessoas não fazem isto, mas nunca gostei delas também. Talvez eu prefira animais a pessoas. Eu não gosto quando elas avisam que o seu sapato está desamarrado, esperando que você agradeça para que elas fiquem satisfeitas consigo mesmas pela sua boa ação imaginária. Até porque, não se importam com o cadarço, o sapato, a meia ou a pessoa que está usando todas estas coisas. Elas só fazem isto para "compensarem" o pulo que darão por cima de alguém caído na rua. Talvez esteja vivo, talvez esteja morto. Quem se importa afinal?
Eu me lembro uma vez, quando eu era pequeno, de quando matei meu gato. Eu não sei o que aconteceu exatamente. Eu acho que ele me arranhou e eu o chutei forte demais. Talvez a estória não seja bem assim e envolva também uma Gilette, mas esta não é a parte importante. Eu me lembro de que a minha mãe achou o gato, o sangue e a mim e ela disse "querido, matar animais é errado. Vá para o seu quarto para que eu possa conversar com o seu pai".
Eu não sei exatamente do que estou falando. Eu estou ouvindo o barulho da chuva, do vento e das sirenes e isto está me atrapalhando. Este sangue no chão me faz lembrar da minha mãe. Ela falou sobre animais. Talvez ela também estivesse se referindo a pessoas.
Matrimônio
Eles encontraram o corpo do meu marido.
Não me levem a mal, eu sempre gostei do cretino.
Tudo começou com o Jornal. Eu sempre gostei de ler o Jornal depois do café, enquanto ele gostava de ler durante o engarrafamento a caminho do trabalho. Isso não era um problema quando namorávamos. Cada um tinha o seu jornal, cada um tinha a sua rotina. Como o casamento, minha leitura matinal acabou. Ele sempre levava o jornal antes que eu lesse, alegando que precisava estar informado. Ontem eu disse que ele iria ficar informado bem longe de mim.
Mas não adiantou. O malditou voltou à noite e me perdiu desculpas. Me trouxe presentes: um vestido e um esmalte vermelho.
Eu não quero roupas e esmaltes. Eu quero ficar informada depois de tomar café.
Eles acharam o corpo do meu marido.
Ele estava uma graça de vestido e unhas vermelhas.
O Velório
Ouvi a música imaginária de velório. Vi as velas acesas. Entrei na sala, como se eu devesse estar lá.
As pessoas contratadas para chorar estavam realizando seu trabalho muito bem. Uma delas estava no intervalo, então guardou seu lenço e foi tomar um café.
Duas crianças estavam correndo pelo lugar, uma atrás da outra, sem prestar atenção em mais nada. A menor caiu e machucou o joelho. As duas levaram bronca da mãe, que eu não conhecia, mas sabia que estava ali só por obrigação.
Minha tia Ana chorava tanto que derrubou o copo de água no chão. Meu tio a abraçou.
Olhei para todas aquelas flores ao redor do caixão e elas me pareceram inadequadas: estavam vivas demais.
Eu finalmente olhei para dentro do caixão e me vi lá.
E então eu acordei.
E então eu morri e tive esse velório ridículo.
Outro dia, conversávamos sobre as músicas infantis que eu cantava para ela, aliás para as irmãs também.
Diana mesma adora as músicas do Baile do Menino Deus, a preferida de Flora era Jaraguá, de Antônio José Madureira e Ronaldo Brito; para ouvi-la, por favor, clicar aqui ou ao abaixo
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wDivagações e citações - Quarta-feira, Agosto 03, 2005 |
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A chegada
Em meio à vegetação rasteira, ao olhar à direita, vislumbrou as chaminés.
Sentiu-se dominada por forte emoção.
Foi então que se deu conta de que há muito esperava conhecer a terra dos seus ancestrais.
Estranhou a sensação: mais parecia voltar.
Ao fundo, a Serra do Ororubá; majestosa, mas com visíveis marcas de degradação ambiental.
No exílio, seus pais sempre falavam da terra natal; com tanta paixão que parecia falarem do centro do Universo.
O Recife era a grande referência deles, cultural e política; apenas alguns parentes distantes permaneceram no Agreste.
Na capital, a vida cotidiana, no interior, um caçuá de lembranças, um garajau de saudades.
Após a Anistia, ela permaneceu em Paris até a conclusão do curso de Antropologia.
Os pais voltaram antes e passaram por um duro processo de readaptação.
Diziam eles que, embora tudo fosse o mesmo, nada era igual.
Ela voltou aos poucos.
No Recife, o Mestrado foi mais que um aprendizado acadêmico.
O ponto de partida para a descoberta de sua terra, do seu povo, de sua identidade cultural.
Não gostava quando se referiam à adaptação dela, como Paulo Freire, preferia dizer integração.
Descobriu-se no frevo, no maracatu, no baião.
Desenvolveu um hábito: à aurora e ao poente, sozinha, passeava pela cidade.
Ao fundo, músicas regionais: Quinteto Violado, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Banda de Pau e Corda, Orquestra de Cordas Dedilhadas, Oficina de Cordas, Orquestra Retratos do Nordeste, Conjunto Pernambucano de Choros, Chico Science...
Cada dia um itinerário; sempre terminava o passeio cruzando pontes, seguindo o Capibaribe ou o Beberibe até o mar.
E a incessante vontade de voltar; nadar ao contrário dos rios; buscar suas origens, nas nascentes do Ipojuca, do Una e do Ipanema; além do Tapacurá, transpor as serras dançantes de verdes canaviais e as Russas, até o pedregoso Agreste.
Descobriu, um pouco decepcionada, que os pais desconheciam completamente a língua dos antepassados.
Com ela, aprenderam o mínimo e riam quando ela falava em xucuru: - akakaúma? ikaké; - como vai? bem, obrigado.
Estudou os remanescentes grupos indígenas de Pernambuco, sobretudo, os Xucuru.
Agora, a primeira ida, o levantamento de campo.
Foi muito bem recebida; acompanhada por um nativo amigo dos pais.
Começou a visitar as famílias para fazer o levantamento.
O primeiro entrevistado foi Honorato.
Casa simples, uma tapera, na encosta do morro.
Paredes de varas trançadas cobertas de sapê.
No terreiro um simples fogão de barro e poucos utensílios.
No interior, jiraus a servirem de camas, uns poucos tamboretes.
Cuidadosa, fazia as perguntas, anotava tudo, entremeava alguma conversa.
Observava a mulher acocorada, com vestido de chita estampado, a fumar um cachimbo de barro, com fumo-de-rolo.
Várias crianças, descalças, brincavam e gritavam, corriam o tempo todo pelo terreiro, às vezes desapareciam no mato, retornavam comendo frutas.
Seu Honorato, de alpercatas, calça de brim e camisas de algodão; muito diferente dos índios do Xingu que usam apenas cuecas encardidas na presença de visitantes.
Quase ao fim da entrevista, perguntou: — todas estas crianças são seus filhos?
Honorato, placidamente respondeu: — são sim, senhora.
— Então, o senhor tem uma prole muito grande, não acha?
Honorato, um pouco acanhado, ilustrou com as mãos a resposta: — Minha prole? Olhe, dona, grande até que não é muito, mas é desta grossura!
Blogo, logo, existo!
Mais uma vez desrespeito a cronologia.
E tenho uma boa justificativa.
Leila, de Cadernos da Bélgica, aniversaria hoje.
Eu a conheci ao ler, casualmente, um conto na Usina das Letras, o qual relatava uma partida de damas.
Pela leitura, descobri três coisas sobre Leila: não é damista, é observadora perspicaz e escreve muito bem.
Enviei um comentário e, a partir de então, trocamos eventuais mensagens, sempre tendo como foco a literatura, a escrita.
Enquanto para mim a escrita ainda não passa de um diletantismo, Leila é comprometida com o ofício de escritora.
Nem mesmo é a busca de reconhecimento que a move, mas a necessidade imperiosa de escrever; a realização de ver em letrinhas impressas a sua produção literária.
Depois de nos conhecermos, Leila criou o blogue e um dia publicou lá o conto sobre o jogo de damas e o dedicou a mim.
Não há presente maior, nem mesmo o recebimento da Quinta Antologia dos Anjos de Prata, na qual o seu conto Airama foi publicado, com gentil e carinhosa dedicatória.
São mais de dois anos de convivência virtual, tornamo-nos amigos e até poderia termos nos conhecido há algum tempo.
No mês passado, Leila esteve no Rio, com um séqüito.
Eu e Flora a encontramos junto com um ruandês, dois belgas e um mineiro.
Nada surpreendente para quem já viveu na Bélgica, em Singapura, nos EUA...
Pensei em dedicar a Leila uma música pernambucana, mas optei por minha cantora preferida, entre as vivas: Dulce Pontes.
O Infante
Fernando Pessoa - Dulce Pontes
Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce
Deus quis que a Terra fosse toda uma
Que o mar unisse, já não separasse
Sagrou-te e foste desvendando a espuma
E a orla branca foi
De ilha em continente
Clareou correndo até o fim do mundo
E viu-se a Terra inteira, de repente
Surgir redonda do azul profundo
Quem te sagrou, criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal
Cumpriu-se o mar e o império se desfez
Senhor falta cumprir-se Portugal.
Para ouvi-la, por favor, clicar aqui ou ao abaixo
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| Clicar nas fotos para ver os álbuns correspondentes |
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Praia do Porto - Costa Dourada Litoral Sul de Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro |
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Parque das Emas Goiás - Mato Grosso do Sul Foto: Manoel Carlos Pinheiro |
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Chapada dos Guimarães Mato Grosso Foto: Manoel Carlos Pinheiro |
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Serra dos Órgãos Estado do Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Campos do Jordão São Paulo Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Provetá - Ilha Grande Estado do Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Candeias Jaboatão dos Guararapes Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Mercado São Josá - Recife Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Piedade Jaboatão dos Guararapes Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Pouso Alegre Minas Gerais Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Pão-de-Açúcar Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Cristo Redentor Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Nascente - Pão-de-Açúcar Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Poente - Floresta da Tijuca Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Maracanã Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Niterói Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Quinta da Boa Vista Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Zona Norte Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Santa Tereza Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Santa Tereza Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Santa Tereza Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Santa Tereza Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Micos Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Igreja da Penha Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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