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wDivagações e citações - Segunda-feira, Junho 27, 2005


Noites brasileiras

Éramos cinco.
O mais idoso, com mais de oitenta anos, eu, com doze.
Nem me lembro qual foi o processo de escolha.
Senti-me convocado a fazer parte da Comissão Organizadora do São João de nossa rua.
Pela primeira vez, a manifestação espontânea foi institucionalizada e houve um concurso entre todas as ruas da cidade.
Desde o mês de abril, cada noite havia ensaio de quadrilha nas ruas.

Eu consegui não me comportar como personalidade, ainda bem.
Continuei a ser o adolescente de sempre, mas participava efetivamente do planejamento da festa, pois o concurso incluía: quadrilha junina, casamento matuto, espetáculo pirotécnico, danças tradicionais, bacamarteiros, comidas típicas, arraial, ornamentação, etc.
Na semana anterior, todos os dias, eu levantava cedinho e começava a trabalhar: cavava buracos, serrava madeira, preparava ornamentos; sempre que alguém me via trabalhando se acercava e se oferecia para ajudar; aos poucos delegava responsabilidades e todos adolescentes participaram ativamente dos trabalhos.
A festa foi maravilhosa; nossa quadrilha reuniu cento e vinte pares; fui eleito o noivo mais bem caracterizado.
Na véspera de São Pedro saiu o resultado: ganhamos o título!
A festa junina virou carnaval.
Sanfoneiro misturando polca e frevo; a Turma da Velha Guarda; Cambinda Véia; Caiporas, Cangaceiros, Lira da Tarde, Muntolia, Bacalhau na Vara, Dois de Ouro; as principais manifestações culturais da cidade eram de nossa rua... confraternização geral!
Parecia decisão de campeonato de futebol de salão: carregaram-me nos ombros; bebi, pulei, bebi, dancei, bebi, comi, bebi...

Na manhã seguinte, mamãe veio conversar comigo e reclamou do fato de eu ter bebido muito; disse que seria um desgosto muito grande se eu me tornasse um farrista.
Papai veio conversar comigo e me preparei para mais um carão, afinal, ele sempre foi muito austero, considerado mais sério que bode mijando; disse-me que havia conversado com mamãe, mas que não concordava com o que ela me dissera; disse que achava que eu havia bebido muito sim, mas que fora uma ocasião especial; confiava no meu senso de responsabilidade, já demonstrado; disse-me que o fato de ser o melhor aluno, trabalhar, ser amigo de todos, tudo isto fazia de mim um filho que orgulhava os pais e que uma ou outra bebedeira não mudaria isto, até porque, ao beber, eu nada fizera que nos envergonhasse.

Assim era minha rua, assim eram meus pais.
Ambos aniversariavam em junho; minha mãe no dia 25; meu pai no dia 26.
Nas últimas décadas, Pesqueira perdeu a tradição de grande festa junina pernambucana para Caruaru, mas outra tradição se formou: à frente da casa dos meus pais havia, todos os anos, uma grande festa junina.
Após a morte de meu pai, ao invés de homenageá-lo no dia do aniversário, mamãe o fazia no dia de Santo Antônio - Antônio era o nome dele - também Dia dos Namorados.
Neste ano, pela primeira vez ela também esteve ausente.
No dia de Santo Antônio os vizinhos fizeram, por ela, a homenagem ao meu pai; na noite de São João, durante a quadrilha, tudo parou, por um minuto fizeram, em silêncio, uma homenagem à minha mãe.

São as noites brasileiras...

Para ver a letra, por favor, clique aqui
Para ouvir a música, por favor, clique aqui ou ao lado
.

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Junho 27, 2005
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Junho 20, 2005


A descoberta

Lentamente rala o queijo curado; como se fosse fazer gemada, bate os cinco ovos; adiciona duas colheres de farinha de trigo e uma de fermento; age como máquina, mas algumas lágrimas, teimosamente, rolam pela face.
Observa sua pequenina e lamenta serem tão parecidas; a filhinha herdou o seu mutismo, inexiste comunicação entre ambas; deseja que o afeto seja recíproco, pois com o pai ela se comunica, demonstra amá-lo, saltita no colo dele, abraça-o cada vez que o vê.
Seria outra coisa se ele estivesse em casa.
Na verdade, a filha nada pediu, nem mesmo falou em festa ou presentes; talvez saiba que vivem tempos bicudos e que uma festa seria um luxo ao qual elas não têm direito.
Durante toda a semana, na volta da escola, fingiu não perceber que os olhinhos curiosos, pedintes, espreitavam os brinquedos das vitrines.
Será melancólico ver a filhinha apagar as sete velas sem outras crianças para cantarem os parabéns.
A calda de açúcar ferve... joga as bolinhas de massa na frigideira; a filha não brinca, que agonia!, o que será que a menina faz?, parada, a olhar o livrinho, presente comprado ao acaso, o único a se ajustar ao dinheiro disponível...

Ela não gosta de festas.
Presentes? Claro que sim!, mas sem o pai não é a mesma coisa.
A chuva provocou enchentes e ele ficou pelas estradas.
Com a mãe é diferente: mulher dura, seca, incapaz de sentir afeto ou emoção.
Percebe que a mãe é uma lutadora; trabalha muito e está sempre disposta a cuidar da família.
O pai é mais sensível, atencioso, brincalhão, conversador.
Não sente vontade de brincar, e resolve folhear o livrinho que a mãe lhe deu de presente de aniversário.
Folheia-o sem vontade, nem mesmo presta atenção às figuras.
Contudo, algo chama a sua atenção.
A menina perde a noção do tempo, nem mesmo o cheiro da ameixinha de queijo consegue trazê-la de volta.
Entrou em um mundo mágico, até então desconhecido.
Maravilhada lê e relê, decora para sempre os versos; ainda não sabe, mas a leitura destes versos mudará a sua vida, fará dela uma poetisa; e foram versos tão simples...


Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra Irene. Você não precisa pedir licença.


__________________________________________
Este poema, publicado em vários livros infantis brasileiros, é de Manuel Bandeira e foi publicado pela primeira vez no livro Libertinagem, editado em 1930.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Junho 20, 2005
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wDivagações e citações - Quinta-feira, Junho 16, 2005


Tormenta no Planalto Central

"E o povo, já pergunta com maldade, onde está a honestidade? onde está a honestidade?"

No dia do aniversário natalício de Ernesto Che Guevara, o Brasil parou para ver, pela televisão, deputados e senadores chafurdarem no mar de lama do atual (des)governo.

Quando ainda era da oposição, o atual Presidente da República acusou o Congresso Nacional de ter trezentos "picaretas"; o mesmo poder que, segundo diversas testemunhas, no atual governo, recebia um "mensalão", o qual se constituía em um milhão de luvas e uma prestação mensal de trinta mil reais, para cada deputado que apoiasse os projetos lullistas.
Tão logo a denúncia veio a público, todos correram e disseram que se tratava de uma ação partidária, no âmbito restrito do Poder Legislativo.
Por muito menos, pelo uso de dinheiro de "sobras de campanha", por parte do tesoureiro de campanha, sem cargo algum no governo, o presidente Collor foi destituído.
No caso do atual escândalo, qual a origem do dinheiro?
Afirma-se que o dinheiro vem de empresas públicas.
Eu não sei, mas todos nós precisamos e temos o direito de sabermos a origem do dinheiro, quem o arrecadou, como o fez, para quem foi distribuído, por ordem de quem e de acordo com quais interesses.
Sendo um dinheiro público, portanto nosso, do povo brasileiro, deveria ser usado exclusivamente de acordo com os interesses nacionais e populares.

Outra comparação se faz necessária.
As tais "sobras de campanha" totalizavam cinco milhões.
O "mensalão" chega a cerca de trezentos milhões anuais.

A Campanha de Impeachment de Collor foi considerada um grande movimento cívico, uma grande festa democrática e de consolidação das instituições nacionais.
No caso do "mensalão" muitos se apressaram a dizerem que um movimento de impeachment de Lulla poderia criar instabilidade às instituições democráticas brasileiras.

Tão logo as denúncias do "mensalão" começaram a surgir, o próprio FHC, atendendo às pressões dos banqueiros internacionais, veio a público dizer que Lulla-Lá-U deve ser poupado.

A partir de então, o Prepone Lulla e seus aspones criaram uma tropa de choque para obterem o controle da CPI instaurada no Congresso Nacional.
Por que o Poder Executivo interferiu tão acintosamente?
Vale a pena repetir:

Quando ele (o presidente) assume para si a coordenação política da operação abafa (...) oficializou a relação promíscua entre o Executivo e o Legislativo".
A frase é de Lula, em maio de 2001, sobre o então presidente FHC. Foi publicada na Folha de São Paulo.
Fonte: www.opiniaolivre.com.br


Por que tanto esforço para esconderem de nós, o povo, os fatos?
Outra vez, vale a pena repetir:

"Se querem abafar, é porque têm o que esconder"
José Genoino, em 1999.
Boletim PT Notícias nº 78 - Junho de 1999
http://www.pt.org.br/ptnot/ptnot78/pagina1a.htm


Talvez, por terem nos enganado por tanto tempo, os lullistas tenham uma imagem consolidada a nosso respeito.
Qual é a imagem que os lullistas têm de nós?


Anta silvestre em seu hábitat, no Parque das Emas, foto: Manoel Carlos

Infortúnio


O presidente Lula continua só abrindo a boca quando tem certeza. Agora ele confessa, com expressão desconsolada, que nunca sofreu tanto na vida como nos primeiros 45 minutos do jogo Brasil x Argentina. Isso significa que uma derrota da seleção, em partida não-eliminatória, causa-lhe mais sofrimento do que, entre outras tragédias nacionais, os milhões de brasileiros excluídos socialmente, a corrupção presente em todo o país e que já ameaça o seu governo, a devastação da Floresta Amazônica, a bandidagem e o tráfico de drogas presentes em todas as cidades e os milhões de famintos iludidos pelo programa Fome Zero.

Nei Leandro de Castro


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quinta-feira, Junho 16, 2005
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Junho 13, 2005


Avante!

Álvaro Cunhal
- 10 de novembro de 1913, na Freguesia da Sé Nova, Coimbra.
- 13 de junho de 2005, Lisboa.


La Lámpara Marina
Pablo Neruda

I
El Puerto Color de cielo
     Cuando tú desembarcas
     en Lisboa,
     cielo celeste y rosa rosa,
     estuco blanco y oro,
     pétalos de ladrillo,
     las casas,
     las puertas,
     los techos,
     las ventanas,
     salpicadas del oro limonero,
     del azul ultramar de los navíos.
     Cuando tú desembarcas
     no conoces,
     no sabes que detrás de las ventanas
     escuchan,
     rondan
     carceleros de luto,
     retóricos, correctos,
     arreando presos a las islas,
     condenando al silencio, pululando
     como escuadras de sombras
     bajo ventanas verdes,
     entre montes azules,
     la policía
     bajo las otoñales cornucopias
     buscando portugueses,
     rascando el suelo,
     destinando los hombres a la sombra.

II
La Cítara Olvidada
     Oh Portugal hermoso
     cesta de fruta y flores,
     emerges
     en la orilla plateada del océano,
     en la espuma de Europa,
     con la cítara de oro
     que te dejó Camoens,
     cantando con dulzura,
     esparciendo en las bocas del Atlántico
     tu tempestuoso olor de vinerías,
     de azahares marinos,
     tu luminosa luna entrecortada
     por nubes y tormentas.

III
Los presidios
     Pero,
     portugués de la calle,
     entre nosotros,
     nadie nos escucha,
     sabes
     dónde
     está Álvaro Cunhal?
     Reconoces la ausencia
     del valiente
     Militão?
     Muchacha portuguesa,
     pasas como bailando
     por las calles
     rosadas de Lisboa,
     pero,
     sabes dónde cayó Bento Gonçalves,
     el portugués más puro,
     el honor de tu mar e de tu arena?
     Sabes
     que existe
     una isla,
     la isla de la Sal,
     y Tarrafal en ella
     vierte sombra?
     Sí, lo sabes, muchacha, muchacho, sí, lo sabes.
     En silencio
     la palabra
     anda con lentitud pero recorre
     no sólo el Portugal, sino la tierra.
     Sí, sabemos,
     en remotos países,
     que hace treinta años
     una lápida
     espesa como tumba o como túnica
     de clerical murciélago,
     ahoga, Portugal, tu triste trino,
     salpica tu dulzura
     con gotas de martirio
     y mantiene sus cúpulas de sombra.

IV
El Mar Y Los Jazmines
     De tu mano pequeña en otra hora
     salieron criaturas
     desgranadas
     en el asombro de la geografia.
     Así volvió Camoens
     a dejarte una rama de jazmines
     que siguió floreciendo.
     La inteligencia ardió como una viña
     de transparentes uvas
     en tu raza.
     Guerra Junqueiro entre las olas
     dejó caer su trueno
     de libertad bravía
     que transportó el océano en su canto,
     y otros multiplicaron
     tu esplendor de rosales y racimos
     como si de tu territorio estrecho
     salieran grandes manos
     derramando semillas
     para toda la tierra.
     Sin embargo,
     el tiempo te ha enterrado.
     El polvo clerical
     acumulado en Coimbra
     cayó en tu rostro
     de naranja oceánica
     y cubrió el esplendor de tu cintura.

V
La Lámpara Marina
     Portugal,
     vuelve al mar, a tus navíos,
     Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
     vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
     a tu razón libre en el viento,
     de nuevo
     a la luz matutina
     del clavel y la espuma.
     Muéstranos tu tesoro,
     tus hombres, tus mujeres.
     No escondas más tu rostro
     de embarcación valiente
     puesta en las avanzadas de Océano.
     Portugal, navegante,
     descubridor de islas,
     inventor de pimientas,
     descubre el nuevo hombre,
     las islas asombradas,
     descubre el archipélago en el tiempo.
     La súbita
     aparición
     del pan
     sobre la mesa,
     la aurora,
     tú, descúbrela,
     descubridor de auroras.
     Cómo es esto?
     Cómo puedes negarte
     al ciclo de la luz tú que mostraste
     caminos a los ciegos?
     Tú, dulce y férreo y viejo,
     angosto y ancho padre
     del horizonte, cómo
     puedes cerrar la puerta
     a los nuevos racimos
     y al viento con estrellas del Oriente?
     Proa de Europa, busca
     en la corriente
     las olas ancestrales,
     la marítima barba
     de Camoens.
     Rompe
     las telaranãs
     que cubren tu fragrante arboladura,
     y entonces
     a nosotros los hijos de tus hijos, aquellos para quienes
     descubriste la arena
     hasta entonces oscura
     de la geografía deslumbrante,
     muéstranos que tú puedes
     atravesar de nuevo
     el nuevo mar oscuro
     y descubrir al hombre que ha nacido
     en las islas más grandes de la tierra.
     Navega, Portugal, la hora
     llégó, levanta
     tu estatura de proa
     y entre las islas y los hombres vuelve
     a ser camino.
     En esta edad agrega
     tu luz, vuelve a ser lámpara:
     aprenderás de nuevo a ser estrella.


Correio da amizade

Se estivéssemos numa típica festa de interior, o serviço de alto-falantes anunciaria.

Márcia Maia, por ocasião do seu aniversário, receba este postal sonoro do seu amigo Manoel Carlos, com os sinceros votos de parabéns e desejo de felicidade plena.
Com a Banda de Pau e Corda: Vivência.
Por favor, para ouvir, clicar aqui ou ao lado.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Junho 13, 2005
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sexta-feira, Junho 10, 2005


Crítica literária

Eu tenho abusado da boa vontade e da paciência do grande escritor Moacir C. Lopes, pois eu o tenho entulhado de textos e ainda tenho o desplante de pedir suas críticas aos mesmos.
Ele é escritor e não um crítico literário.
Contudo, trata-se de um homem gentil e um grande amigo, então empilha tudo que envio e, à medida que o tempo permite, lê e comenta; às vezes os comentários são feitos verbalmente, com o texto à mão, cheio de rabiscos e anotações, mas às vezes ele escreve os comentários, o que me permite a publicação.
Lamento muito que a análise que ele fez de um poema de Márcia Maia ( Mudança de Ventos e Tábua de Marés) tenha sido numa mesa de bar; se eu os tivesse gravado, certamente ganharíamos todos ao lermos os tais comentários.
Costumo identificar os autores dos textos que entrego para ele comentar, mas desta vez, talvez por fazer muito tempo, ele se esqueceu e chegou a aventar a possibilidade de ser eu o autor.
O autor é Antônio de Eu, o tosco e Encontro e desencontros, ambos inativos; atualmente faz parte de Duas balzaquianas & um tosco.

Tive o privilégio e a honra de conhecer e conviver com alguns dos mais brilhantes pensadores brasileiros de todos os tempos, entre eles, eu destaco três como detentores de mais ricos universos literários: Moacir, Nelson Werneck Sodré e Octavio Brandão.
Por isto, tem sido um prazer e um constante aprendizado conviver com Moacir; apesar disto, Moacir não é petulante ou professoral no relacionamento que mantém com os amigos; e mais: ele também procura aprender e até consegue, mesmo com os mais iletrados como eu; por meu intermédio passou a conhecer alguns autores africanos, como Arnaldo dos Santos, Mia Couto, Pepetela... Talvez isto ajude a manter Moacir sempre paciente e disposto a ler e comentar os textos que encaminho à apreciação dele.
Vejam, por favor, o que ele disse sobre dois contos e uma carta que remeti.


Manoel Carlos
Sobre os dois contos que você me enviou, pedindo minha opinião, aqui vai:
O Carpinteiro e a Estrela - É excelente conto, muito criativo, bem de acordo com a técnica narrativa do conto. É um autor de talento. Encontrei apenas uns deslizes de linguagem, como "Vigiava o céu até de dia e nada". e nada está sobrando; "Desempregado de novo, e agora? Hora, precisava pensar", e agora e Hora provocam eco. E esse Hora, deveria ser Ora, interjeição; "Comprou o barraco ao traficante da hora, pagou à vista", com que dinheiro o comprou, se estava desempregado? Pequenos deslizes que não prejudicam o valor do conto.
O Dono do Castelo - É também um belo conto, bem construído, de um autor igualmente talentoso, na mesma linha do imaginário, do sonho que transcende a realidade. Há também uns senões, como: "adentrou a escuridão a dentro": "Nunca mais os vi, nem a mais nada", esse a não seria há?; Era a vez do homem perguntar...", devia ser era a vez de o homem perguntar.
Você é o autor desses dois contos? Ou, não o sendo, são de um mesmo autor? Porque a linha de raciocínio possui certa semelhança, inclusive a linguagem.
Recebi a carta escrita por Graciliano Ramos à irmã dele, datada de 1949, comentando um conto escrito por ela, que ele ajudou a publicar numa revista, mas com ressalvas, afirmando que "Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos".
É muito individualizada a opinião do velho Graça, e bem reflete sua própria personalidade e o conteúdo ideológico de sua obra, concentrada no universo em que ele se situava como homem e como escritor. Aí, lembramos Georges Buffon que, em seu Discurso sobre o estilo, afirmara que "O estilo é o próprio homem". Defendo, também e em parte, essa teoria, como demonstrei no capítulo "O Autor e seu universo", do meu livro Guia prático de criação literária, afirmando que o autor não pode fugir integralmente de sua condição humana, porque seu universo mental obedece ao seu próprio metabolismo, ao acúmulo da cultura armazenada no seu consciente e no seu subconsciente, porque é fruto de uma memória genética, herdada de seus antepassados, desde tempos imemoriais. Nessa ótica, está certo Graciliano, mostra-o sua obra.
José Lins do Rego também o mostrou na sua obra do ciclo da cana do açúcar, Guimarães Rosa, na sua saga dos campos gerais, Jorge Amado, na sua obra do ciclo do cacau e em sua baianice. Saint-Exupéry, como piloto de avião, fez sua obra basicamente sobre o tema de aviação. Joseph Conrad, comandante de navio mercante, tem sua obra toda sobre tema de mar. Eu mesmo, que fui marinheiro durante oito anos, centrei minha obra sobre esse mesmo tema de mar, por absorver fortemente essa vivência nos meus anos de juventude.
Mas não pode ser regra tão rígida, como demonstra Graciliano. Por acaso Dante Alighieri teve vivência do Inferno, do Purgatório e do Paraíso para escrever sua Divina comédia? Cervantes conviveu entre os cavaleiros andantes? Gustave Flaubert escreveu sua obra-prima Salambô, sobre uma cortesã da antiguidade, reconstituindo todo o cenário e personagens da época antes de Cristo. O mesmo fez Anatole France para construir sua personagem Thaís, do romance do mesmo nome, também cortesã da Grécia antiga. Coitado do Júlio Verne, que nunca se afastou de sua pequenina cidade de Amiens, na França, e escreveu Vinte mil léguas submarinas (a bordo de um submarino que, antes dele, só Leonardo Da Vinci havia imaginado), A volta ao mundo em oitenta dias (a bordo de um balão dirigível por ele imaginado), Viagem ao centro da terra.
Estou ao lado de Graciliano Ramos, mas não com essa verdade absoluta. Está certo que devemos estar ligados à soma cultural do nosso povo, à alma da nossa língua, ao cheiro da nossa terra. Mas não invalida outras formas de fazer literatura, criar personagens e situações fora da nossa convivência. O que é essencial é o poder de criar e recriar, é o talento do escritor, o manejo das ferramentas com que constrói seu estilo, sua visão universal dos tipos por ele criados. De onde e como vim, onde e como estou, como interpreto meu mundo.
Talvez Graciliano visse pouco talento no conto de sua irmã. Aí é outra história. Porque qualquer peça literária é válida.
Abraço
Moacir
9/6/2005

Mar de lama no Governo Lulla?

"Se eu ganhasse a Presidência para fazer o mesmo que o Fernando Henrique Cardoso está fazendo, preferiria que Deus me tirasse a vida antes. Para não passar vergonha. Porque, sabe o que acontece? Tem muita gente que tem direito de mentir, o direito de enganar. Eu não tenho.
Há uma coisa que tenho como sagrada: é não perder o direito de olhar nos olhos de meus companheiros e de dormir com a consciência tranqüila de que a gente é capaz de cumprir cada palavra que a gente assume. E, quando não as cumprir, ter coragem de discutir por que não cumpriu".

Luiz Inácio Lula da Silva, novembro de 2000, em entrevista à revista "Caros Amigos!".

Operação Abafa (2)

Surgiu uma emblemática frase sobre envolvimento do presidente na tentativa de barrar a CPI da Corrupção:

"Quando ele (o presidente) assume para si a coordenação política da operação abafa (...) oficializou a relação promíscua entre o Executivo e o Legislativo".

A frase é de Lula, em maio de 2001, sobre o então presidente FHC. Foi publicada na Folha de São Paulo.

Fonte: www.opiniaolivre.com.br

"Se querem abafar, é porque têm o que esconder"
José Genoino, em 1999.
Boletim PT Notícias nº 78 - Junho de 1999
http://www.pt.org.br/ptnot/ptnot78/pagina1a.htm


Em tempos de águas turvas, sugiro a leitura do que tem escrito um jornalista sério e competente: Ricardo Noblat, o acesso à página dele está em elos agrestinos, tanto no menu superior, como na parte esquerda de Agreste.

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sexta-feira, Junho 10, 2005
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Segunda-feira, Junho 06, 2005


Concursos

Ontem eu e Flora vimos o jogo Brasil X Paraguai.
Flora torcia ruidosamente pelo Brasil.
Quando o Brasil fez 3 X 0, Flora me disse: — pai, estou com pena dos paraguaios, eles não estão jogando tão mal para perderem de três.

A terra dos meninos pelados é um conto que, em 1937, Graciliano Ramos inscreveu em um concurso promovido pelo Ministério da Educação e Cultura.
Vejam o que o próprio Graciliano escreveu, numa carta à mulher, sobre um fato curioso que ocorreu em relação ao concurso.
Tudo isso é uma pilhéria desagradável e foi um desastre Valdemar ter metido aquelas notas na Gazeta. E desastre maior haver noticiado a publicação dos meninos pelados. Como você sabe, esta história foi escrita para um concurso e mandada para o ministério com um pseudônimo. O nome do autor não podia ser descoberto antes do julgamento. É verdade que eu não tinha esperança de alcançar o prêmio, mas enfim havia oitenta candidatos e eu era um deles. Agora, dois meses antes da apuração, a nota da Gazeta me exclui do concurso. O intuito de Valdemar não foi esse, é claro, mas se ele soubesse que a história tinha sido escrita para um concurso, não publicaria aquilo. Não desejo que se diga mais nada sobre os meninos pelados e sobre a conversa da Revista. É bom ele não pensar que estou ressentido (realmente não estou), mas qualquer publicidade me prejudica. Afinal o meu afastamento do concurso foi um bem: não me preocuparei com essas coisas incertas. Eu só tinha feito aquilo por insistência do Rodrigo. Acabou-se, não tem importância.
Ao que parece, a notícia não foi lida, pois o conto de Graciliano Ramos foi o vencedor.

Há concursos nos quais o ineditismo da obra é uma exigência.
Na época dos famosos festivais de música, promovidos pelas televisões, em um deles, trezentas músicas foram pré-selecionadas e, entre elas, dezesseis foram selecionadas para uma fase final, de apresentação ao público, em etapas eliminatórias.
Tão logo as dezesseis finalistas foram anunciadas, um canal de televisão concorrente exibiu o filme Rio Zona Norte, em cuja trilha sonora, de autoria de Zé Kéti, havia uma das músicas finalistas.
O júri do concurso foi reunido às pressas para selecionar uma música substituta.
Coisas do Mundo Minha Nega, de Paulinho da Viola estava entre as não selecionadas.
Quando o júri descobriu esta música, que é uma das obras-primas da Música Popular Brasileira, houve um constrangimento, pois a mesma não poderia ser vencedora e era, sem dúvida alguma, a melhor música.

Paulinho da Viola parecia mesmo atrair confusões em festivais.
Uma delas, provocada por ele mesmo.
Havia dois festivais simultâneos; um deles, dedicado à música tradicional; o outro se caracterizava por ser uma feira aberta às novas experiências musicais.
Paulinho da Viola, que acabara de compor duas músicas, resolveu inscrevê-las.
Foi um Rio Que Passou em Minha Vida, um sambão, bem tradicional; e Sinal Fechado, uma música absolutamente inovadora, para os padrões da época.
Apenas aconteceu um detalhe: na hora de enviar as músicas, Paulinho trocou as fitas.
Resultado: venceu os dois festivais.
É claro que o próprio Paulinho se surpreendeu.

Para ouvir Foi um Rio que Passou em Minha Vida, por favor, clicar aqui ou ao lado.
Para ouvir Sinal Fechado, por favor, cliacar aqui ou ao lado.

Por mais honestas e competentes que sejam as pessoas envolvidas no julgamento de um concurso, é sempre possível que haja alguma injustiça.
Recentemente inscrevi uns contos em um concurso.
Desconheço o número de participantes e outros detalhes do concurso.
Eu fui um dos ganhadores e fiquei muito feliz, mas, assim como Flora, penalizado, fiquei a pensar se alguém foi injustiçado.
Maiores detalhes sobre o concurso com Tânia em Arteiros de plantão e suas 9 musas


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Junho 06, 2005
Comentário e zombaria:




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