wAgreste
Rabiscos e divagações

Auto-retrato
Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos.
Contato
"Não basta que seja pura e justa a nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós"
Agostinho Neto
"Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos"
Vital Farias
"Não há vento favorável para quem não sabe a que porto quer chegar"
Luiz Carlos Prestes
"Eu não vivo do passado, o passado é que vive em mim"
Paulinho da Viola


wAcervo:


-- Atual --

wRabiscos:

A briga
A decisão
A entrevista
A espera
A fuga
A Mata do Caboclo
A ressaca
A vingança
Amor Agreste
Amuo
Arcano
Atrapalhado
Bola que rola
Cultura pernambucana na veia
De mazombo a brasileiro
Deca
Eterno aprendiz
O casamento
O curió da Tiazinha
O diploma
O prisioneiro
O violinista
Pacatez
Rabiscos
Sinfonia inacabada
Último dia
wLiteratura:

Usina de Letras
O Boteco
Site da Magriça
Jornal da Poesia
Plataforma para a poesia
Ponto de Vista
Sobre sites
wMúsica

Quinteto Violado
Agenda do samba & choro
Vissungo
wElos agrestinos

Bloggagens
O Pio da Coruja
Feira Moderna
Catalisando
Jansen
Os Urbanitas
Carlos Galvão
Proseando
Mudança de Ventos
Tábua de Marés
Vox Noctis Liber
Fausto Wolff e amigos
NAU
Cromossomos
Villas Basket´s Blog
Domínio Público
Pequi Up!
porcas e parafusos
imaginário eixo
palavras tortas
mas tudo bem...
balaio vermelho
Digressiva Maria
Cicatrizes da Mirada
Língua de Mariposa
cristal poesia prosa
Argonautando
O Lepárico
Oceanus Occidentalis
Graças - Poesia
A mosca do bolo
Olho clínico
Verso e reverso
Drosófila Basófila
Auriblog
Seda cáustica
letra de corpo
Voando pelo céu da boca
Umbigo do sonho
eugeniainthemeadow
Síndrome de Estocolmo
Todo dia é dia
Sulanorte
Sulparati
Palavras em chamas
Epistase
Sozinha no Mundo
Ilíquido
Cadernos da Bélgica
ardeoazul
Pijama secreto
Coisas de Nana
Sons
Montanha-Russa
Bloguice Crônica
Desblog
Elo primitivo
Via oral
Cabeça vazia
Divagando
Fala Poética
Letras ao Acaso
Conversas de Xaxa
Quem tem medo de Baby Jane?
Entre outras mil
Letras Proibidas
brancoepreto
Bisbilhoteira de plantão
De alma em punho
Meu porto
Sede em frente ao mar
Cobra, jacaré, elefante
Mar da Poesia
Sombras e Sonhos
Colcha de Retalhos
Quase arquitetas
Retalhos e pensamentos
Fadista Valéria Mendez
Maktub Poemas
Devaneios na loucura
Errante
Terna é a noite
Lendo & Relendo
O zoom cotidiano
Lâmina
Rasuras sobreviventes
Pirata da rua
Divagando
Simplesmente alegria
Ignorância Pura
Click... fotografando a alma
Retrato falado
Pílulas
Ponto Gê
Imagine the possibilities
A Coisa de Micas
Encontro de Almas
Carta da Itália
Sítio da Saudade
Retalhos amigos
Milton Ribeiro
Brasilis
Lia Araújo
Confabulâncias
Idiossincrasia
Texere
A dona do blog
Contra o Vento
O Apanhador de Sonhos
Confissões de um viajante
Rio Atlântico
Rabisqueiras
Contos e Desencontros
Sob o crivo de duas balzaquianas
Zadig
Amanda Jornal
Meu espacinho


Produzida por Blogger.
wDivagações e citações - Segunda-feira, Janeiro 31, 2005



Vomibora pra Catende

Hora de comer - comer!
Hora de dormir - dormir!
Hora de vadiar - vadiar!

Hora de trabalhar?
- Pernas pro ar que ninguém é de ferro!


Quem já ouviu isto?
Muitos pensam que é de domínio público, mas foi publicado por Ascenso Ferreira em 1939.
Há muito da obra de Ascenso que as pessoas pensam ser do folclore.
E quem é Ascenso?
Em 1951, sob a coordenação de Carlos Drummond de Andrade, a José Olympio Editora publicou um livro, cujos textos foram selecionados pelo próprio Drummond.
Entre eles, há um texto de Manuel Bandeira.

"Ler, e sobretudo ouvir Ascenso, é viver intensamente no mundo dos mangues do Recife, do massapê e das caatingas, mundo do bambodo - bambu-bambeiro, das cavalhadas, dos pastoris, dos reisados, dos bumbas, dos maracatus, das vaquejadas. Mundo onde as aragens são mansas e as chuvas esperadas: chuvas de janeiro... chuvas de caju... chuvas de Santa Luzia... Os poemas de Ascenso são verdadeiras rapsódias do Nordeste, nas quais se espelha amoravelmente a alma ora brincalhona, ora pungentemente nostálgica das populações dos engenhos e do sertão. Ascenso identificou-se de corpo e coração com o homem do povo de sua terra, mesmo quando este é o cangaceiro que a fatalidade mesológica marcou com os estigmas do crime."

É possível encontrar alguns poemas de Ascenso no Jornal da Poesia (na barra superior de Agreste: elos - literatura - Jornal da Poesia), além disto, lá está publicado um excelente resumo biográfico.
Contudo, no Jornal da Poesia não é possível ouvir Ascenso declamando.
Qual a importância disto?
Recorro a Manuel Bandeira para explicar.

"Não me lembro se foi antes de me avistar pela primeira vez com Ascenso Ferreira (foi, se não me engano, em 1928, no Recife) eu já tinha conhecimento dos seus versos. Como quer que fosse, eles foram para mim, na voz do poeta, uma revelação. Pois quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dançar, arrotar os seus poemas, não pode fazer idéia das virtualidades verbais neles contidas, do movimento lírico que lhes imprime o autor.
... Verso metrificado, verso livre, rima, toada musical, frases soltas - todos esses elementos do discurso poético se fundem pela mão de Ascenso numa coisa só, peça inteiriça, onde não se nota a menor emenda, a menor fenda. Não conheço, na poesia brasileira culta, na poesia de nenhum outro país, poeta que, a esse respeito, supere o pernambucano".

Selecionei três poemas, na voz do próprio Ascenso, para apresentar aos amigos do Agreste.
Maracatu;
Trem de Alagoas;
e Oropa França e Bahia .



Homenagem

Hoje aniversariam três pessoas muito queridas: Ana Carina, minha sobrinha; Luana, minha filha; e Fernanda, filha de um primo e minha afilhada.
Completam, respectivamente, 27, 25 e 21 anos de idade.
Carina é pernambucana, cheguei a vê-la dar os primeiros passos, depois, ganhei o Mundo e esporadicamente a via, sempre para me surpreender com o seu crescimento. Há muito tempo vive m São Paulo, onde é psicóloga.
Luana atravessou o Atlântico para passar o aniversário conosco.
Ou seja, ela aniversaria e eu é que recebo o presente.
Pena que fique apenas duas semanas.
Mais tempo que isto os seus afazeres de advogada não permitem.
Luana morou em Moçambique quando pequenina.
Sempre teve a iniciativa de estar ao meu lado, acompanhando-me em atividades de que criança alguma gosta de participar.
Atualmente, vive na Europa.
Fernanda é estudante da UFRJ... Infelizmente, devido ao corre-corre do dia-a-dia, temos pouquíssimo contato, mas não pouco afeto.


O novo padre
Por Mia Couto


O engenheiro Ludmilo Gomes entrou na igreja cheio de feição. Cabelo bem grenhado, engargalado de fato e gravata. Marchava mais que aspectuado, todo enfeitado de si. Abriram-lhe alas, estava-se à espera dele. Pelo menos, Ludmilo sentiu-se como sendo esperado. Sorriu. Atrás dele, com passos míopes, se apressava o secretário Olinto Machado. E foi ele que soprou, roçando a nuca do recém-chegado:
-Temos um novo padre, senhor engenheiro. Ludmilo não cedeu importância. Ali, em pleno mato de Moçambique, os padres iam e vinham. A vila era um desamparadeiro, lugar de além do fim do mundo. Ou talvez fosse o clima que suscitava os homens a pecarem. E até os padres não resistiam à luxúria que os trópicos suscitavam. Mais engenhoso que engenheiro, Ludmilo Gomes governava-se com suas próprias leis. Essa era, provavelmente, a maior vantagem de viver longe do governo central, esfumado lá na longínqua metrópole. Mas essa autonomia não colocava em causa as suas obrigações religiosas. Com ou sem padre, o português mantinha-se praticante, obediente a Deus. Momentos, antes, quando ainda cruzava a manhã para se encaminhar para os dominicais deveres católicos, o português deu conta de algo anormal se passava na pequena vila do norte de Moçambique. Contrariamente ao habitual, se juntavam alguns negros no bairro dos brancos. E à entrada da casa de Deus, havia mesmo uma aglomeração de camponeses que rodeava o canhão que, desde que começara a guerra, se posicionara no átrio. Os homens empurravam o canhão para fora do pátio.
-Para onde raio levam isso?
-Estamos a tirar lá para longe da igreja.
- Quem vos mandou?
-O senhor padre.
O engenheiro ainda hesitou em tomar as contra-medidas. Atrasado que estava, optou para fazer isso mais tarde. Obediência do negro de que vale se é sempre falsa? Esse era o suspiro do colono: em Africa tudo é outra coisa: a mansa crueldade do leopardo, a lenta fulminância da mamba, o eterno súbito afundar do poente. E isto era o que se dava a ver, junto ao benzido espaço da vila. O que dizer desses iletrados matos, terras que nunca viram cruz nem luz?
Já no interior da capela, Ludmilo suspirou aliviado. Na igrejinha estavam só brancos. Não era que ele fosse racista, insistia ele. Mas era sensível aos cheiros. Nessa manhã, os seus compatriotas soslaiaram a sua chegada. E viram-no aproximar-se do altar e tomar posição para receber a hóstia. Foi então que ele espetou a língua. As senhoras viraram a cara, recatadamente. Diziam as madames, nas resguardadas conversas do clube, que nunca se vira língua tão excessiva. Os homens comentavam à boca pequena sobre o modo despudorado como, por dá cá nenhuma palha, o engenheiro alardeava publicamente a língua. Não deveria ele ter outro exibível músculo, rematavam. De joelhos frente à cruz, Ludmilo permaneceu longos e húmidos minutos, de língua exposta, até que o secretário lhe bichanou:
-Não vale a pena, senhor engenheiro Não há hóstias.
-Como não há?
- Dizem que a farinha foi distribuída para outros fins. E dizem que, doravante, vão passar a fazer hóstias com farinha de mandioca...
-Onde está o padre?
O secretário nem falou: apontou para o confessionário. Ludmilo ergueu-se e aproveitou o caminho que se abria perante ele. Com altivez se ajoelhou no confessionário. Um homem superior tem que saber ajoelhar-se de modo a que não pareça submissão. O engenheiro inclinou-se até quase tocar com a cabeça a janelinha de madeira. Mesmo na casa de Deus as paredes gostam de escutar. Ainda sorriu, ao de leve, recordando o último padre que era surdo e fingia escutar as confissões. Poderia Deus falar por sua boca mas certamente que não ouvia pelas suas orelhas.
Desta vez, Ludmilo calculou a intensidade da fala. No início, até teve que se repetir: as palavras se mastigavam umas nas outras, as consoantes canibalizando as vogais. A eloquência do engenheiro se remelava. Finalmente, o discurso se aclarou. Que tinha pecado, tinha entrado numa cubata seguindo uma moça preta que ele há muito tinha fisgado.
- Continue, meu filho - encorajou o padre.
- Essas pretas, não sei o que têm. A gente, de um lado, tem-lhes asco, sabe-se lá se estão lavadas, que doenças nelas se escondem. Por outro lado, os corpos delas saltam da natureza e agarram-nos pelos... entende, senhor padre?
- Não entendo. Claro que não podia perceber. Era como perguntar ao chacal se tinha apreciado a alface. O engenheiro prosseguiu a narração do pecado: porque a coisa, nessa noite, tinha corrido mal. Estava assaltando a moça, e ela resistia. Ou melhor, fazia de conta que resistia, a malandra, qual a pretita que não quer ser... como direi, senhor padre, não quer ser possuída por um branco?
-Foi isso que aconteceu?
-O pior ainda não revelei, padre. É que no meio da luta entrou na palhota o irmão da moça, chamado pelos gritos dela. O rapaz num ápice se lançou sobre a cama onde nos debatíamos. Pensei que me ia agredir. Mas ele, coitado, queria era bater na irmã por ela estar criando um conflito comigo. Sem entender, lhe atirei com erro. Dizem que foi aquilo que o matou. Mas eu acho, sinceramente, que ele já devia ter qualquer problema. Não se morre assim, o senhor sabe como os africanos são vítimas de estranhas maleitas e feitiços.
O português calou-se, espreitou em redor para confirmar o sigilo da confissão. Tossiu para sugerir que estava apressado, o dolente joelho parecia espreitar-lhe pelos olhos.
- Quantas orações devo rezar, padre?
- Nenhuma.
- O senhor me absolve? Deus me perdoa?
- Quem o absolve não é Deus, meu filho.
- Como não é Deus?
- Deus está cansado de ouvir. O demónio, foi o demónio quem o escutou. E de lá, do meio do Inferno, é o demónio quem o está abençoando.
O engenheiro sentiu um calor entontecer os seus interiores. Os óculos, derretidos, descaíram pelo rosto. Assim, em desfoco, olhou a multidão como que uma desconformada espuma. Foi então que viu o padre sair do confessionário. Fosse a tontura que lhe dava mas o coração, de um golpe, se confrangeu: o missionário era preto, retintamente negro. E escutou, como se fosse vindo de um outro tempo, o ranger das rodas do suporte do canhão. E depois, ouviu pés descalços cruzando os passeios do bairro branco. Em seguida, o silêncio. Ludmilo ainda sorriu. Já sabendo que o silêncio é sempre um engano: o falso repetir do nada em nenhum lugar.


Esclarecimento

Algumas pessoas enviaram mensagem dizendo não perceberem o significado ou a ambigüidade de expressões usadas na postagem anterior, tais como: vou-me!, bicha, casa de frescos, grelo, rapariga... todas as expressões constam do glossário, com o uso em Portugal, África e Brasil.
O glossário não é um dicionário, as palavras e expressões são incluídas de acordo com o contexto em que são utilizadas no Agreste.
E prefiro não fazer glossário no caso de textos como este de Mia Couto.

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Janeiro 31, 2005
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Quarta-feira, Janeiro 26, 2005



Parecença

- Pinheiro quer gozar comigo...
Enquanto dizia isto, ela me olhava nos olhos.
Um olhar firme e sereno; um sorriso aberto.
Lindo riso, com certeza. Aliás, a única. Tudo o mais era ambíguo.
O próprio tom que ela usara. Não era uma afirmativa, nem uma pergunta.
O sorriso era maroto. Pareceu-me um convite, mais que isto: um chamamento.
Contudo, eu fiquei desconcertado.
Aprendera que, em Moçambique, as palavras nem sempre tinham o sentido que dávamos às mesmas no Brasil.
E falamos a mesma língua, somos parte da mesma Comunidade Lusófona.
Ainda bem que, a esclarecer, havia o olhar, o sorriso e a expressão corporal...

- Vou-me!
Dito isto, a brasileira se retirou, com naturalidade.
Ninguém entendeu por que ri.
É que me lembrei das vezes que ouvi isto dito por portuguesas.
Em circunstâncias e condições absolutamente distintas. E, é claro, com outra motivação.
Gostei de ouvir esta expressão de portuguesas. E não apenas pelo motivo óbvio.
Também por uma questão lingüística, pelo valor semântico da expressão. É enfática, mas precisa e adequada à circunstância.

Inapropriado foi a jovem portuguesa dizer, em pleno interior nordestino, que era uma rapariga.
Ou o gajo contar que pegou uma bicha na casa de frescos, mas saiu desapontado porque não conseguiu um grelo.

Não vivo em Malaca; não como copra; fico nostálgico ao ouvir a morna, mas ela não é parte de mim como o frevo; prefiro o baião à marrabenta; talvez goste mais de Malhangatana que de Portinari; aprecio Agostinho Neto tanto quanto Drummond, Bandeira, João Cabral e Craveirinha.

Paulinho da Viola tem razão quando afirma que "voltar quase sempre é partir para um outro lugar", pois sinto saudades do Recife, de Maputo, de Luanda, de Bissau, de Lisboa, de Pesqueira...
Como gostaria de saber dizer o que estes lugares têm em comum, revelar a essência deles...
Essência que é nossa, não importa onde estejamos.

Este baião, Pesqueira, de autoria de Marco César e Marco Silva Araújo, executado pela Oficina de Cordas de Pernambuco, por certo revela parte da essência de minha terra natal, apenas quem a conhece poderá concordar.






Se me quiseres conhecer - Noémia de Sousa

Se me quiseres conhecer,
Estuda com olhos de bem ver
Esse pedaço de pau preto
Que um desconhecido irmão maconde
De mãos inspiradas
Talhou e trabalhou em terras distantes lá do norte.

Ah! Essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir a vida
boca rasgada em ferida de angustia,
mãos enorme, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado feridas visíveis e invisíveis
pelos duros chicotes da escravatura...
torturada e magnífica
altiva e mística,
africa da cabeça aos pés,
- Ah, essa sou eu!

Se quiseres compreender-me
Vem debruçar-te sobre a minha alma de africa,
Nos gemidos dos negros no cais
Nos batuques frenéticos do muchopes
Na rebeldia dos machanganas
Na estranha melodia se evolando
Duma canção nativa noite dentro

E nada mais me perguntes,
Se é que me queres conhecer...
Que não sou mais que um búzio de carne
Onde a revolta de africa congelou
Seu grito inchado de esperança.

In notícias, 07.03.1958, página "Moçambique 58"

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Janeiro 26, 2005
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Domingo, Janeiro 23, 2005



O Mundo Português

Em um ano de Agreste, a manutenção deste espaço me proporcionou coisas muito agradáveis.
Entre elas, hoje destaco o reencontro com o Mundo Português.
Por desinformação e incultura, ignoro toda a complexidade e riqueza que compõem o Mundo Português, a partir de Portugal e incluindo países africanos e asiáticos.
Nem sei como foi que se criaram os elos entre o Agreste e a blogosfera lusitana.
O que sei é que o contato com portuguesas e portugueses tem marcado fortemente o meu universo bloguístico.
Alguns blogues desapareceram, outros não são atualizados, mas, ao todo, minimizo minha ignorância através da leitura constante de letras ultramarinas.
Preciso destacar duas coisas.
A primeira: a generosa e emocionante homenagem feita nos dias 24 e 25 de novembro de 2004 em
Conversa de Xaxa
A segunda: a descoberta da obra literária de Maria Azenha.
Envergonhado, admito que desconhecia os seus livros.
Recentemente li O Último Rei de Portugal e Nossa Senhora de Burka.
O primeiro, verdadeiro épico, inaugurou a Coleção Lusíada - Poesia da Fundação Lusíada.
Certamente foi editado como uma das primeiras iniciativas de comemoração dos 500 Anos dos Descobrimentos.
Estas comemorações ajudaram na redescoberta, até mesmo pelos portugueses, do Mundo Português.
O segundo, escrito a navalha, de arrepiante beleza, fala de morte e guerra, mas também de liberdade, sentimentos, luta, paixão, amor... vida!

Além dos destaques, foi gratificante trocar informações, na maioria das vezes através de comentários, com os novos amigos.
São estes elos que justificam a existência do Agreste.
Agradeço, por terem enriquecido o Agreste a:
Oceanus Occidentalis
Sulanorte - desativado
Sulparati - desativado
ardeoazul
Sons - desativado
Letras ao Acaso - desativado
Conversa de Xaxa
brancoepreto
Devaneios na loucura - desativado
Fadista Valéria Mendez
Errante
Terna é a noite - desativado.
Retrato falado - desativado.
Textos e cenas - desativado.
uma forma de olhar
A Coisa de Micas
Sítio da Saudade
Texere

Nelson Saúte - Moçambique


Dunas

Anuncia o teu corpo
o rumor das casuarinas

As dunas incendeiam
a memória do mar.

A fragilidade da tarde
transparece no olhar
molhado de ternura.

Amo Eros

o corpo franzino
os cabelos em desalinho.

Bebo nos teus gestos
a inesperada beleza.

Canção para Ana

Talvez esperasse te encontrar
algures na fatigada cidade
ao soçobrar da madrugada.

Talvez a distância me ensinasse
a trançar um ninho de ternura
com as mão do desejo.

Talvez te ocultasses nas ruas
anónimas das minhas viagens
para surpreender o abraço inesperado.

Talvez desejasse inaugurar
o mundo com teu corpo
à revelia dos pirilampos.

Talvez meu amor
eu te quisesse albergar
no côncavo de um sonho impossível.

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Domingo, Janeiro 23, 2005
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Domingo, Janeiro 16, 2005



Oportunidade

Louro de olhos claros, magro e baixo.
Quem o visse pela primeira vez não imaginaria que Orlando fosse um sujeito tão agressivo, até mesmo violento.
Um cachaceiro.
Aos poucos, os amigos se afastavam dele.
Eu não.
Nas minhas férias, sempre o procurava.
Ninguém entendia por quê.

Às vezes, Orlando, após beber um pouco, começava a ser inconveniente.
Discretamente, eu fazia um gesto ou me aproximava dele, puxava conversa e ele deixava a confusão pra lá.
Havia vezes que eu pedia que ele fosse para casa descansar e ele me atendia.
Ninguém entendia por quê.

Jogávamos no mesmo time de futebol de salão.
Durante o ano, nosso time costumava ir mal no campeonato.
Nas férias, eu e Dimo o reforçávamos e vencíamos todos os jogos.
Nos torneios de férias, éramos campeões.
Orlando só jogava nas férias.
A meu pedido, jogava de ala, de pivô, até de goleiro.
Ninguém entendia por quê.

E no carnaval?
A minha rua era considerada o Quartel General do Carnaval de Pesqueira.
Dela saíam: Bacalhau na Vara, Montulia, Dois de Ouro, Lira da Tarde, Cambinda Véia, Caiporas, Cangaceiros...
No frevo, entre o estandarte e a orquestra, íamos nós.
Adolescentes e crianças.
Os adultos seguiam atrás da orquestra.
Havia um entendimento tácito.
Ninguém podia brigar.
Isto é: ninguém podia trocar socos, peixeiradas, etc.
Rabo-de-arraia, martelo... desconhecíamos os nomes dos golpes que aplicávamos.
Para nós, tudo era rasteira.
À base da rasteira, valia tudo.
Para nos protegermos, quando os blocos chegavam a outras ruas, costumávamos pular em duplas.
Um de costas para o outro, proteção recíproca.
Quando me via, Orlando vinha me proteger.
Ninguém entendia por quê.

A nossa amizade surgiu com a rivalidade.
Na primeira Série do Curso Primário, atual Ensino Fundamental, disputamos o primeiro lugar.
Certo dia, a mãe de Orlando interrompeu a aula.
Ele fugira de casa para ir à escola.
Ardia de febre, quase quarenta graus.
Aquilo me impressionou.
Passei a respeitá-lo e, mesmo continuando rival, me tornei seu amigo.
Foi o único ano que estudamos juntos.
Achei que ele houvesse mudado de escola.
Apenas quando estava concluindo o Ginasial é que soube que aquele foi o único ano de estudo de Orlando.
Quando fiz concurso para o Colégio Agrícola da Universidade Federal Rural de Pernambuco, os amigos, admirados me perguntaram: - como você conseguiu ser primeiro lugar?!
Eu respondia: foi fácil, difícil foi superar Orlando na Primeira Série.
Até saber que Orlando só estudara um ano, eu, apesar de ser bom aluno, não tinha tempo para estudar.
Era o futebol, o futebol de salão, as andanças pelo mato, as rinhas de galo, o samba-de-coco, as brincadeiras, as brigas, os namoricos... quem podia arrumar tempo para estudar?
Quando soube que Orlando não pôde fazer o que tanto gostava, percebi que eu era um privilegiado.
Só então passei a valorizar o estudo.
Orlando soube do meu comentário e veio conversar comigo.
Não explicitamos, mas fizemos um pacto.
Tínhamos quinze anos.
Ao bebermos o copo de cachaça, selando nosso pacto, vi lágrimas nos olhos do duro Orlando.
A partir de então, eu seria o que Orlando não pôde ser.
E ele, nunca vi tão generoso, torceu a vida inteira pelo meu sucesso, como se fosse o sucesso dele próprio.
Nunca falamos deste assunto com ninguém, quem entenderia?


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Domingo, Janeiro 16, 2005
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Quarta-feira, Janeiro 12, 2005



Luzes da Cidade

Já vem tarde.

Francisco Sobreira é um escritor cearense radicado no Rio Grande do Norte.
De Sobreira, li apenas Infância do Coração.
É um romance ambientado no Ceará de meados do século passado.
A vida simples e comum de um menino interiorano, a sua transformação em homem.
A narrativa é muito boa, em uma linguagem simples.
Os pequenos conflitos, a mudança para a capital - cuja vida é brilhantemente apresentada como pano de fundo - a inserção social, as experiências, amores, a descoberta da magia do cinema, o início da vida profissional...
Tudo muito comum.
E é exatamente o tratamento das coisas simples e comuns da vida cotidiana que confere universalidade ao romance.
Em muitos momentos parece um relato autobiográfico.
Até isto é bom, pois cada fato narrado soa verdadeiro.

Mesmo considerando recomendável a leitura do romance, não é este o objetivo desta postagem.
Afinal, o título não é Infância do Coração e sim Luzes da Cidade.

Acontece que Sobreira adentrou a blogosfera.
Como disse anteriormente, já vem tarde.
Há muito precisamos que este cineclubista eleve a qualidade de nosso universo bloguístico.
Por favor, confiram: Luzes da Cidade.

Flora do Cerrado

O Cerrado é muito parecido com o Agreste.
No Agreste não tem cupim como no Cerrado.
Em compensação, o Cerrado não tem tanta pedra, muito menos lajedo, como no Agreste.
A floresta, na Amazônia, é exuberante e grandiosa.
Mas o Cerrado tem uma variedade de plantas que supera a Amazônia.

Na passagem pelo Parque das Emas, não pude ficar insensível à vegetação.
Bem sei que as pessoas se interessam muito mais pela fauna que pela flora de lá.
Se eu disser que pouco sei de Botânica, estarei exagerando.
Para pouco saber, teria que aprender muito.
Eu nada sei de Botânica.
Nem em sonho eu poderia pensar em fazer algum levantamento sistemático ou algum trabalho de fitotaxionomia.
Mas eu fiz algumas fotos.
Criei um álbum com noventas delas.
Quem gostar e quiser apreciar, basta ir até Flora do Parque das Emas, caso seja solicitada uma senha, basta digitar Agreste.
Para fotografar, precisei da autorização do Diretor do Parque.
Desde que não seja para uso comercial, se alguém quiser usar alguma imagem, poderá fazê-lo bastando citar a autoria.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Janeiro 12, 2005
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Domingo, Janeiro 09, 2005



O guará

O Parque das Emas é constituído por uma imensa área de mais de 138 mil hectares, ou seja, quase um bilhão e meio de metros quadrados.
Desde que era uma área particular, o proprietário a preservava.
No parque há uma diversificada flora do Cerrado, além de animais nativos.
É proibido levar plantas, flores, sementes e animais.
Ninguém pode molestar os animais.
Alguns deles são agressivos, como onças e queixadas.
Também há escorpiões e cobras.
Atualmente sabemos que há casos de cura de tumores cancerígenos de cérebro pela aplicação de veneno de escorpião.
Contudo, confesso que nasci em um ambiente politicamente incorreto.
Rousseau ficaria decepcionado com os seres rústicos do meu Agreste.
Quando pequeno, eu matava cobras, escorpiões, caranguejeiras, lacraias, sanguessugas...
No Parque das Emas, todo meu instinto assassino teve que ser dominado e subordinado à consciência.
Quem diria, de bruto agrestino, tornei-me quase um ecologista.

Numa manhã, muito cedo, enquanto os demais dormiam, eu e Sílvia levantamos, pois imaginávamos, ao menos desejávamos, que encontraríamos alguns animais nativos.
E Sílvia ficou em dúvida se viu uma cobra.
De máquina fotográfica à mão, aproximei-me e tirei a foto ao lado.
Um brusco movimento de Sílvia me assustou.
Olhei para ela e a vi apontar para o lado e gritar: - lá!
Fiquei estático.
E ela: - Guará!
Eu, um pouco atrapalhado, olhei para o lado, para o chão, para Sílvia, outra vez para onde ela apontava.
O lobo-guará parado.
Com a expressão entre surpresa e interrogativa.
Parecia querer dizer: - Eu?!
E a máquina totalmente fora de foco.
Quando apontei a máquina para ele, o danado começou a se movimentar.
Fotografei. Saiu a porcaria de foto que vêem abaixo à esquerda.
E ele foi embora.
Não tão rápido que demonstrasse nos temer, nem tão devagar que parecesse nos desafiar.
Contudo, rápido demais para mim, pois parece que levei disquetes de qualidade inferior e eles demoravam uma eternidade para gravarem uma foto e permitirem uma outra.
A foto seguinte, como podem ver, já foi de quase uma sombra de um guará que se encaminhava para o rio.
Foi a única vez que vi o guará, creio que o mesmo não gostou do grito de Sílvia, associado ao gesto de apontar na direção dele.
Deve estar, até agora, ofendido com a acusação a ecoar em seus ouvidos: - o guará!



MANOEL CARLOS PINHEIRO - Domingo, Janeiro 09, 2005
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Quarta-feira, Janeiro 05, 2005



Em outros anos o hábito era recebermos amigos em casa, principalmente no Ano Novo.
Neste ano, não estávamos com espírito de comemoração.
Preferimos o isolamento.
Eu, Flora e duas amigas dela encontramos Sílvia no Parque das Emas.

Antes que me perguntem se havia acesso à internet no Parque das Emas.
Outro dia, Sílvia foi ao Xingu mediar um conflito entre índios Panará e Terena.
Lá no Xingu, em plena aldeia indígena, havia acesso, via satélite, à internet.
No Parque das Emas também há.
Mas não postei nem acessei os blogues amigos.
Foi uma opção de isolamento em uma região maravilhosa.
Prometo permitir acesso às fotos da flora e da fauna do Cerrado, numa área preservada e isolada há mais de sessenta anos.

O curioso é que Flora tenha convidado duas amigas que conheceu pela internet.
Claro que, cada vez que Flora conhece pessoalmente alguém que conheceu pela internet, nos cercamos de todos os cuidados.
Contudo, sempre conversamos sobre o fato de ela estabelecer grandes e duradouras amizades a partir do conhecimento que a internet propicia.

E aprendi, exatamente com Flora, que o meio é virtual, mas as amizades são reais.
Quando em dezembro de 2003, a partir da sugestão dela, criei o Agreste, não fazia idéia do que isto significaria para mim.
Após um ano, através do Agreste, fiz algumas amizades.
São pessoas com as quais tenho alguma identificação.
Ao contrário de parentes, vizinhos e colegas de trabalho, escolho as amizades da internet e sou por elas escolhido.
Leio o que elas escrevem, mantenho um relacionamento a partir de comentários recíprocos.
Nestas três semanas de isolamento, senti saudades delas, pois a elas me afeiçoei.
Espero que neste ano de 2005 continuemos a amigos e ampliemos o nosso intercâmbio.

Ainda sou devedor, pois preciso comentar alguns textos que foram publicados sobre Agreste, e também alguns livros que recebi.
Desejo a todos um 2005 de muitas realizações, em um ambiente de paz e felicidade, com muita saúde.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Janeiro 05, 2005
Comentário e zombaria:




Praia do Porto - Costa Dourada
Litoral Sul de Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Praia de Calhetas
Cabo de Santo Agostinho
Ponto extremo de Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Chapada dos Guimarães
Mato Grosso
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Serra dos Órgãos
Estado do Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Campos do Jordão
São Paulo
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Provetá - Ilha Grande
Estado do Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Candeias
Jaboatão dos Guararapes
Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Mercado São Josá - Recife
Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Piedade
Jaboatão dos Guararapes
Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Pouso Alegre
Minas Gerais
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Pão-de-Açúcar
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Cristo Redentor
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Nascente - Pão-de-Açúcar
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Poente - Floresta da Tijuca
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Maracanã
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Niterói
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Quinta da Boa Vista
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Zona Norte
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Micos
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Igreja da Penha
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro