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Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos.
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wDivagações e citações - Quinta-feira, Dezembro 16, 2004



Hoje eu vi e ouvi na televisão fazerem uma afirmativa que me intrigou.
¿A situação no Brasil está muito melhor, pois no ano passado a inflação foi de 15% e este ano apenas 12%, portanto menor¿.
Esta afirmativa equivale a quê?
É o mesmo que o indivíduo dirigir, numa estrada cuja velocidade máxima permitida seja de 90 km/h.
Se o carro estiver a uma velocidade de 100 km/h, por certo estará fora das normas de segurança.
Se, mesmo assim, o indivíduo acelerar 15 km/h, passará à velocidade de 115 km/h.
Se, após isto, acelerar 12 km/h, passará à velocidade de 127 km/h.
Voltando à notícia da televisão, poderíamos afirmar que a situação do bólido, em forma de automóvel, melhorou, pois a aceleração de 12 km/h é inferior à aceleração anterior, de 15 km/h.

Época houve que se usava o termo carestia e não inflação.
Há uma clara analogia entre carestia e inflação com velocidade e aceleração.
A inflação e deflação são, respectivamente, medidas de aumento e diminuição da carestia.
A última vez que vi usada a palavra carestia faz vinte anos.
Em um manifesto ao povo brasileiro, Luiz Carlos Prestes escreveu um programa emergencial de luta contra a fome, a carestia e o desemprego.
Infelizmente, vivemos outro milênio e o Velho continua atualizado enquanto dos neo todas as coisas representam a vanguarda do atraso, mais que isto, do retrocesso.

E o uso de certas palavras, principalmente a sua difusão pelos meios de comunicação de massa, não se dá por acaso.
O acaso não existe.
A vida é uma série de relações causais, jamais casuais.

Quando criança, jogava futebol, e muito.
Nas férias, jogava pelada de manhã, futebol de campo à tarde e de salão à noite.
Havia dois tipos de jogadores violentos.
Uns que até jogavam bem e propositalmente tentavam machucar os adversários, eram os desleais.
Outros que não sabiam jogar e, por descontrole, trombavam, machucavam a si e aos outros.
Estes eram os grossos, bois brabos ou xavantes.
Isto mesmo, xavante era a palavra usada para se referir a algum grosso, rude.
O termo também adquiria conotação de ignorante, estúpido.

Ainda adolescente, vi-me a refletir sobre isto.
Ignorante em questões indígenas, parecia-me até fosse uma herança de outros índios, caeté, fulni-ô, tapuia, xucuru, cariri...
Imaginei que uns índios considerassem outros inferiores.
Confesso, admitia que poderia ser um pós-conceito com relação a alguma tribo menos desenvolvida.
Mesmo assim, eu não me permitia usar o termo xavante com conotação pejorativa.
Apenas muito mais tarde viria a conhecer um xavante, Mário Xavante, o qual ficou famoso como Mário Juruna.

Já no Rio de Janeiro, vi pessoas que se consideram progressistas usarem o termo botocudo para se referirem a rudes, ignorantes e atrasados.
Provavelmente, estas pessoas se ofenderão ao serem consideradas racistas.

Chegamos ao absurdo de termos o tal bantuísmo africano.
Racismo e ignorância combinados.
Banto, conforme consta no glossário de Agreste, não tem conotação étnica, embora os racistas africanos atualmente atribuam esta conotação ao termo.
E o tupi?
Assim como o africâner, o tupi é uma língua artificial, criada pelos jesuítas, os quais, habilmente, reuniram termos comuns a diversas línguas indígenas.
Além disto, catequizaram os índios.

É claro que não há a dicotomia: índios isolados e índios integrados, ditos ¿civilizados¿.
São complexos os processos de aproximação.
Precisamos entender e resgatar a visão de Rondon.
Mais que isto, precisamos respeitar e, a quem couber, resistir às manifestações avassaladoramente dominantes.

As nossas armas são as nossas línguas, inclusive a última flor do Lácio.
As nossas manifestações culturais, dos nossos temperos às nossas iguarias.
E nossas músicas.
Lembro-me haver combinado com mamãe, na última vez que conversamos, que em nosso próximo encontro faríamos juntos beira-seca, pois alguém precisa manter certas tradições.
Não foi possível.
Contudo, resta-nos resistir.
Como forma de resistência, cantemos, ergamos as vozes do Semi-árido!

A seguir, a letra da canção original, a tradução em português e o botão para acionar a música de autoria de Tatxhyá Fulni-ô.

Ytxhykyateka owke ykletxhate

Yrxhykyateka owke ykletxhate
Yrxhykyateka owke ykletxhate
Owyklerxhascê ykhumascylhaka
Wakufalatol owa ythê noudowahheman
Keynylhastol yathelha owahyalha ke
Yathelha eyfeyalha setsysoutowalha
Yahhyalha tha houlhawka otxhaythowa
Thanyte tha keynylhastol yathelha
Yahyalhake setsysow thowa

Eu vim aqui, eu vim contar

Esse meu conto, eu peço a vocês
Escute nas minhas palavras, o que eu estou falando
Ensine nosso idioma a seus filhos.
Nosso idioma é nossa raiz, índios;
Nossos filhos andam que nem os brancos
Ensine nosso idioma
Nossos filhos, índios aprendam nosso idioma.







MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quinta-feira, Dezembro 16, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sexta-feira, Dezembro 10, 2004



A culinária é uma das principais manifestações culturais de um povo.
Qualquer pessoa nascida, por exemplo, em Uberlândia, sendo mineira, tem como referência a culinária mineira, do leitão à pururuca ao pão de queijo, passando pela vaca atolada.
Sendo do Triângulo Mineiro, sofreu a influência da culinária do Cerrado, notadamente goiana, sendo assim, aprecia o arroz de pequi e outros pratos característicos.
E, evidentemente, adora a ameixinha de queijo, iguaria local.

Nós, pernambucanos, somos arrogantes quando nos referimos aos pratos de frutos do mar à base de coco; à carne-de-sol tradicional, caprina ou bovina, e suas variações, suína e ovina; às inúmeras variedades de sorvete de frutas; às iguarias de nossas docerias...

O Restaurante Leite à Praça Joaquim Nabuco, Cidade Maurícia, é um tradicional reduto da culinária pernambucana.
Ele é tido, por nós, como um restaurante português.
Certamente os amigos lusitanos o consideram um restaurante pernambucano.
Ambas avaliações estão corretas, afinal é um restaurante português com sotaque pernambucano.
É possível encontrar variedades de pratos portugueses e suas adaptações pernambucanas; os doces portugueses não são encontrados nas variedades que outros restaurantes portugueses, no Brasil, costumam servir, apenas os mais conhecidos como o pastel de nata - de Belém, como queiram -, de Santa Clara, de Coimbra, toucinho do céu, ovos moles d´Aveiro, barriguinha de freira...

Passou-se algum tempo entre as minhas duas mais recentes visitas ao Leite.
Para não dizer que nada mudou, o pianista é outro.
E executa com competência músicas da MPB e internacionais.
É a única coisa do restaurante que não é pernambucana nem portuguesa.

Talvez seja um dos raros restaurantes em que ainda se encontra muita gente de gravata borboleta.
Para quem vai pela primeira vez, até dá a impressão de ser um ambiente muito formal.
O atendimento, com certeza, não é lusitano.
E é exatamente a forma de atender que dissipa qualquer impressão de formalismo.
O pernambucano, como muitos brasileiros, não tem o formalismo europeu ou moçambicano.
Neste aspecto, parecemos mais com os angolanos.

Com gentileza e tato, o maître-d'hôtel, em pouco tempo, já estava a determinar o que eu deveria consumir.
Impensável em ambientes mais formais.
Para tanto, bastou que eu manifestasse a dúvida entre a carne-de-sol com farofa matuta e o camarão ao molho de coco.
Ele não pestanejou e sugeriu o camarão.
Fez-me trocar o couvert por bolinhos de bacalhau.
Como oferta da casa, serviu-me um maravilhoso caldinho de peixe.
À sobremesa, fez-me desistir da cartola e aceitar uma fatia-parida, que os portugueses chamam fatia-de-parida e os cariocas, rabanada.

Não pensem que os clientes são tratados com a abusiva intimidade de alguns garçons inconvenientes.
Nada disto.
Nos limites determinados pelo próprio cliente, revela-se a solicitude em cada detalhe.
Da rapidez à qualidade de tudo que é servido.
O azeite com acidez máxima de 0,5%, a pimenta com o exato tempo de curtição, a temperatura do vinho verde - estupidamente gelado, como dizemos - consistência, sabor e apresentação do camarão.

Não sou contrário aos restaurantes a peso.
Eles fazem parte do dia-a-dia urbano.
Com pouco tempo, muitas vezes com orçamento limitado, para a maioria das pessoas, almoçar seria quase um desprazer, sem os restaurantes a peso.
De certa forma, eles amenizam a tensão que dia a dia torna insuportável a moderna vida urbana.

Contudo, não podemos esquecer que a culinária é uma expressão cultural.
Almoçar no Leite é um ritual.
Deve-se ir lá disposto a dedicar tempo e atenção a cada coisa servida.
Durante o almoço, até pelas circunstâncias vividas, as lembranças tomaram conta de mim.
Neste aspecto, a fatia-parida teve o seu papel.
Deliciosa, ao molho de Vinho do Porto, não muito doce, a canela na medida exata.
A massa dela lembrou o nosso tradicional pudim de pão.
Inevitavelmente, vieram-me à lembrança as inúmeras vezes que vi mamãe juntar marroca para fazer, com mestria, pudim de pão.

Nota: as palavras em itálicos estão no glossário.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sexta-feira, Dezembro 10, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Segunda-feira, Dezembro 06, 2004



Ontem o Agreste completou um ano no ar.
Sem comemoração.
No sábado, à noite, viajei do Rio de Janeiro para o Recife.
No domingo, do Recife a Pesqueira, cidade natal, Agreste de Pernambuco.
Viagem dorida.
À medida que a paisagem se modificava - Litoral, Zona da Mata, Agreste - um filme passava em minha cabeça.
Descontínuo; intermitente e recorrente.
Imagens de infância, adolescência e juventude.
Vivências e observações, personagens e folguedos, festas e ritos, lutas e trabalhos.
Reminiscências, evocações...
Regresso e despedida.
Nós, juntos, os seis irmãos, levamos a nossa mãe em sua última viagem.
Na sexta-feira, ela sofreu uma AVC hemorrágico.
Houve um agravamento do quadro clínico no sábado à tarde.
Ao chegar ao Recife, fui do aeroporto direto para o Hospital De Ávila, no Bairro da Madalena.
O proprietário do hospital, fraterno amigo da família, permitiu a visita especial, quase à meia-noite.
Na UTI, consegui vê-la, afagá-la.
Junto comigo, o irmão mais velho.
Parece que ela nos aguardou e, na manhã do domingo, faleceu.
Impossível citar todos os amigos que, mesmo surpreendidos, conseguiram estar ao nosso lado neste momento de dor.
Contudo, necessito expressar alguns agradecimentos.
A Luís Saraiva, Superintendente do GEAP em Pernambuco, pelo inestimável apoio.
Ao violonista Cláudio Almeida que providenciou o translado.
A D. Francisco, Bispo Diocesano de Pesqueira, que retardou compromisso anteriormente assumido, na vizinha cidade de Alagoinha, para prestar pessoalmente a homenagem a uma católica praticante.
A João Eudes e Maria José, Prefeito reeleito e Primeira Dama, que, na ausência dos filhos, assumiram pessoalmente a preparação da casa dela para que os inúmeros amigos pudessem homenageá-la.
Ao povo Xucuru, cujo representante caminhou ao meu lado de casa até o cemitério e se juntou a filhos e netos na condução do caixão.

À hora do poente, a despedida.
Ao sopé do Ororubá, o descanso eterno.
Saudades.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Dezembro 06, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sexta-feira, Dezembro 03, 2004



A partir de hoje terá início o Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro.
Gosto muito de curta-metragem.
Há muito tempo vi um filme búlgaro, desenho animado, no qual dois homens jogavam gamão.
As coisas a acontecerem à volta deles sem que eles dessem a mínima atenção.
As pessoas os afastavam, a paisagem se alterava, obras eram realizadas e eles a jogarem gamão.
Chuva, inundação, e eles sem pararem de jogar.
Até que um vulcão entrou em erupção, todos correram, menos eles, e a lava os cobriu.
Há um corte e, numa outra época, cientistas fazem escavações, descobrem os dois petrificados; retiram as camadas de rochas que os cobre e, quando alguém os inclina, o dado cai, na conclusão da jogada.
Até fossilizado o búlgaro continuou a jogar gamão.

Quem desconhece os búlgaros não consegue perceber o quanto este filme é interessante.
Estes descendentes de trácios, gregos, romanos e eslavos constituíram uma nação há catorze séculos.
Por mais que os búlgaros se ressintam de invasões e períodos sob dominação dos turcos, a paixão nacional, ou melhor, a obsessão nacional, é o jogo de gamão, uma herança turca.
Os búlgaros são conhecidos por serem os únicos no planeta a menearem a cabeça para dizerem sim e moverem-na verticalmente para dizerem não.
Têm alguma notoriedade por serem os criadores do iogurte.
Também são conhecidos pelo hábito de consumirem semente de girassol torrada, justificando várias placas proibitivas do tipo "não cuspir semente de girassol neste jardim".
Eu gosto de lembrar os búlgaros pelas aguardentes: de uva (como a bagaceira), de anis e de ameixa; pela "chubritza", uma erva que é o mais gostoso tempero que alguém pode usar em comida do dia-a-dia; pela habilidade de produzirem queijos e frios, verdadeiros pastores que são; e, previdentemente, pela habilidade em usarem chifres de cabras, como os nordestinos e cabo-verdianos usam peixeiras, ou bastões, como alguns orientais o fazem em lutas marciais.

Dá gosto enfrentar um búlgaro num tabuleiro de gamão.
Não lembro quando ou como aprendi a jogar gamão.
Até fiquei muito surpreso quando descobri que, no Sudeste do Brasil, o gamão é considerado um jogo sofisticado, praticado pela elite.
No Agreste de Pernambuco, damas, firo, onça, dominó e gamão eram, ou ainda são, jogos de beira-de-calçada, denominação que se contrapõe à de jogos de salão.
As elites só jogavam xadrez, pingue-pongue e víspora.
Mesmo sabendo jogar gamão desde que me entendo por gente, fiquei surpreso de ver como os búlgaros jogam muito bem.
Desde os jogadores com estilo defensivo até os mais audaciosos.
Homens e mulheres, adultos e jovens.

Daí eu ter me espantado em Moçambique.
Há um jogo tradicional, que todos jogam pelas ruas e calçadas.
Ao invés de usarem tabuleiro, fazem uns buracos na terra ou mesmo nos cantos menos movimentados das calçadas.
Se não me falha a memória, são quatro fileiras de vinte buracos.
Usam pedras comuns e há quem ande com saquinhos de seixos para uma eventualidade.
Jogam com um número de pedras que não consegui identificar, muitas pedras.
Os movimentos são parecidos com os do gamão, mas não há dados, ou búzios, nada.
Não consegui, apenas observando, entender o jogo.
Aprendi a jogar damas, gamão, firo, onça, dominó, xadrez, todos estes jogos, sem necessidade de explicações, apenas a observar.
Senti-me incapaz de entender o jogo africano.
Conversei com um búlgaro, exímio jogador de gamão.
Ele já vira o jogo e disse que também não conseguiu aprendê-lo apenas a observar.
Também achou que o jogo tem movimentos de gamão, mas não entendeu o mecanismo.
Disse-me ter ficado fascinado com o jogo e juntos fomos observar.
Com a minha ignorância da língua usada pelos jogadores, o Shangana, nem mesmo os comentários consegui interpretar.

Algumas vezes, pelas calçadas da Vladimir Lenine, vi pessoas a jogarem damas.
Num impulso parei, fiquei a observar e aceitei quando o campeão da rua me convidou a jogar.
Ganhei com certa facilidade, nesta e nas demais vezes que joguei contra damistas moçambicanos.
Certo dia, quando o mesmo jogador me desafiou para este outro jogo e respondi que não sabia jogá-lo, ele ficou tão surpreso quanto se eu andasse sem a cabeça ou tivesse cinco olhos.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sexta-feira, Dezembro 03, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Quarta-feira, Dezembro 01, 2004



Brancas e pretas

Quando Leila publicou o conto Damas a mim dedicado, em 15/10/2004, em Cadernos da Bélgica, com certeza, ela não teve idéia de quanto foi importante, pois ela jamais poderia imaginar o quanto fui envolvido com o jogo de damas.
Como jogador não tive contato com os mestres que constituem o verdadeiro universo damístico.
Já na condição de ex-damista, conheci Isidoro, o primeiro grande teórico da Dama Brasileira.
Português, radicado no Rio de Janeiro, Mestre Isidoro era recebido com todas as honrarias nos círculos damistas.
Ao conhecê-lo, lembrei-me de Seu Rufino.
A mesma ataraxia, o mesmo devotamento de todos que os cercavam.
Muitas vezes, na Portela, Paulinho da Viola conversava animadamente, mas bastava Seu Rufino chegar para Paulinho pedir licença e dizer que precisava aprender um pouco com Seu Rufino, História viva da Portela, portanto, do samba.
Eu procedia da mesma forma com Mestre Isidoro.
Como diz Paulinho da Viola: "eu não vivo do passado, o passado é que vive em mim".

Desde os quinze anos deixei de jogar Damas, pois não dispunha de tempo.
Até aquela idade, era com muita freqüência que sonhava, dormindo ou acordado, com jogadas fantásticas.
Sem falsa modéstia, ouso dizer que, em alguns campeonatos, consegui vitórias antológicas.
Entretanto, quando jogava, desconhecia as teorias do jogo, não passava de um empírico, intuitivo.

Há dois tipos de Jogo de Damas.
O mais conhecido é jogado em tabuleiro de sessenta e quatro casas, doze peças para cada jogador.
Das muitas regras existentes, houve uma fusão.
Anteriormente, a cada conjunto de regras correspondia um nome de jogo, em função do país que as praticava.
Daí terem existido: Dama Polonesa, Turca, Italiana, Francesa, Portuguesa, Espanhola, Alemã, Africana, Inglesa, Síria...
Em todos os torneios internacionais, em tabuleiro de sessenta e quatro casas, adota-se a Dama Brasileira.
Há, ainda, a Dama Internacional, a qual é jogada em tabuleiro de cem casas, cada jogador com vinte peças.

Conheci alguns dos grandes campeões, inclusive o maior deles, o pernambucano Genaldo, que me incentivou, sem sucesso, a voltar a jogar.
Cleuber Landim, introdutor do jogo em Brasília, Édson Fregni, do Espírito Santo, Douglas Diniz, campeão brasiliense, Mestre Batista, baiano radicado no Rio de Janeiro...
Igrejas o grande teórico de problemas.
Carlos Alberto Ferrinho, Árbitro Internacional, velho comunista, exercia plena autoridade sobre todas as coisas do jogo de damas nacional.
Certa vez, Ferrinho puniu um damista, eliminando-o do campeonato.
Descumprindo a determinação, o damista inscreveu-se para o campeonato.
Todos os presidentes de federações, mesmo reconhecendo que Ferrinho estava com a razão, preferiam o indulto.
A unanimidade não foi suficiente para que os presidentes ousassem desafiar a autoridade de Ferrinho e o damista viajou do Piauí ao Rio de Janeiro em vão.
O que me surpreendeu em Ferrinho é que ele, já aposentado, jamais tendo lidado com computadores, resolveu aprender a programar e criou um programa de computador de emparelhamento automático pelo sistema suíço.

No campeonato brasileiro de 1993, convivi com todos eles.
Após as rodadas, saíamos para beber um pouco.
Nestas ocasiões, todos preferiam cerveja Antarctica, menos Cleuber, ex-funcionário da Brahma.
Numa destas vezes, saí-me com um improviso.

Cleuber, damista perfeito,
o mais recente amigo,
faz eu pensar comigo:
ele é um grande sujeito
que apenas tem um defeito:
a origem de sua grana
provoca o maior drama:
recusa a melhor cerveja
e, onde quer que esteja,
o diabo só bebe Brahma.


A gargalhada foi geral.
Começaram as solicitações e tive que falar de outras pessoas.

Sabes quem é Igrejas.
O nome lembra problema,
Em todo tipo de tema.
Às vezes, em tuas pelejas,
enrascado, até esbravejas.
Lembra Isidoro, Ferrinho, Bakumenko,
troca, posição ou tempo.
Em volta com diagramas,
verás que o jogo de damas
é mais que um passatempo.


E ainda.

O grande Mestre Batista,
professor de matemática,
enfrenta qualquer temática.
Diz-se poeta e artista,
além de grande damista.
Na hora do brasileiro,
em frente ao tabuleiro,
a verdade vem à tona:
pensa que bate e toma
até arder-lhe o traseiro

Pode até ser artista
que vara a madrugada
em loas à namorada.
De fato não é damista
o grande Mestre Batista.
Na dama grande ou pequena
não há alguém que lhe tema.
Qualquer mestre fuleiro
o deixa num atoleiro
e bate que até dá pena.


Finalizei com este.

Carlos Alberto Ferrinho
velho amigo novo
querido de todo o povo
sempre abrindo caminho
jamais está sozinho
consagrado no tabuleiro
este bom brasileiro
tem uma idéia de Universo
muito além de um verso
que serve ao povo inteiro


Um dos maiores enxadristas de todos os tempos, Mikhail Botvinnik, campeão mundial e professor dos campeões Anatoli Karpov e Garry Kasparov, começou como damista.
Botvinnik, engenheiro, foi o primeiro a elaborar programas de computador que jogam xadrez.

Sobre a paixão que estes jogos despertam, há uma música de Paulinho da Viola.
Para ver a letra, clique aqui.
Para ouvi-la, basta pressionar abaixo.






Adendo

A Bisbilhoteira de plantão perguntou:
- Como conseguiu recordar os improvisos?
Respondi:
- Batista, então Presidente da Federação de Jogos de Dama do Estado do Rio de Janeiro, na hora, pediu que repetisse, copiou, digitou e os prendeu às paredes do Brizolão do Catete onde se realizava o campeonato. Fiquei com cópias impressas. Foi exatamente o fato de encontrá-las que me fez escrever sobre o assunto para Agreste.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Dezembro 01, 2004
Comentário e zombaria:




Praia do Porto - Costa Dourada
Litoral Sul de Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Praia de Calhetas
Cabo de Santo Agostinho
Ponto extremo de Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Chapada dos Guimarães
Mato Grosso
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Serra dos Órgãos
Estado do Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Campos do Jordão
São Paulo
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Provetá - Ilha Grande
Estado do Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Candeias
Jaboatão dos Guararapes
Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Mercado São Josá - Recife
Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Piedade
Jaboatão dos Guararapes
Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Pouso Alegre
Minas Gerais
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Pão-de-Açúcar
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Cristo Redentor
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Nascente - Pão-de-Açúcar
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Poente - Floresta da Tijuca
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Maracanã
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Niterói
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Quinta da Boa Vista
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Zona Norte
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Santa Tereza
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Micos
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Igreja da Penha
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro