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wAgreste |
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Rabiscos e divagações
 Auto-retrato |
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Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos. Contato |
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“Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos” Vital Farias |
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wDivagações e citações - Terça-feira, Agosto 31, 2004 |
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Roberto Ananias
O octogenário Roberto Ananias atendeu o meu convite e deu o ar de sua graça no encontro dos amigos de Nilo Batista na recente quinta-feira.
Especialmente para a ocasião, ele compôs o samba de enredo: Nilo é nome de rio sagrado.
A sua apresentação se transformou no destaque da noite.
Além do samba de enredo, ele brilhou ao interpretar, de forma magistral, Falsa baiana de Geraldo Pereira.
Na próxima quinta-feira (02 de setembro), teremos a canja especial de: Sueli Costa e Nana Caymmi.
Ah! O local?
Casarão dos Arcos, à Avenida Mem de Sá, 23 - Lapa.
Horário: 18 às 20 horas.
A entrada é gratuita e não há taxa de consumação.
Cada um pagará o próprio consumo.
Os amigos de Agreste serão muito bem-vindos.
Moçambique hoje
Recebi um artigo, diário de viagem, da jornalista e escritora brasileira Marilene Felinto, escrito em 2002.
A sensação, ao lê-lo, foi desagradável.
Não pelo artigo em si, muito bem escrito, apesar de algumas imprecisões e deslizes.
O desconforto foi pela realidade retratada.
Há enorme discrepância entre as minhas lembranças de Maputo e o retrato feito pelo artigo.
Não que o artigo esteja errado.
Não que minha memória afetiva tenha me traído.
Há mais de vinte anos que não regresso a Maputo.
Retornei à África: Bissau, Senegal... Moçambique não.
Tenho informações recentes.
Sei que as coisas não estão bem na querida África.
De qualquer forma, causou-me mossa a descrição da miséria e da sujeira.
Talvez decorrentes de outro tipo de imundície e miséria.
Pensei em Angola.
Pensei no fato de Lúcio Lara ter abandonado a vida pública.
Ele renunciou ao cargo no Comitê Central do MPLA e ao mandato na Assembléia Popular.
Para mim, fortíssimo indício de que a Revolução perdeu o rumo.
Circula na internet
Lula, Dirceu e Genoíno estavam sendo conduzidos do aeroporto a um hotel no Rio de Janeiro.
A acompanhá-los, um antigo companheiro de campanhas do Lula-lá.
O ambiente era de total descontração.
Ao passarem pela orla, um deles, a olhar as garotas na praia, disse:
- Seria bom casar outra vez...
O companheiro, um pouco embriagado, que os acompanhava perguntou:
- Se pudessem casar outra, com quem vocês casariam?
Dirceu:
- Com a Feiticeira, a mulher mais bonita e gostosa do Brasil!
O companheiro:
- É isto aí! Beleza é fundamental!
Genoíno, com ironia:
- Com a companheira Marina Silva, mulher de fibra!
O companheiro:
- Casamento de futuro, com identidade ideológica!
Lula, com demagogia:
- Casaria com o Brasil, minha pátria amada!
Companheiro:
- Valeu! Homem de honra! F**** tem que casar!
MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Agosto 31, 2004
Comentário e zombaria:
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wDivagações e citações - Terça-feira, Agosto 24, 2004 |
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Adendo em 26/08/2004
Hoje, duas boas opções .
O amigo Carlos Negreiros se apresentará, às 19 horas, no Centro de Artes Calouste Gulbenkian à Rua Benedito Hipólito, 125/Praça Onze - Centro.
Entrada franca.
Das 18 às 20 horas, o encontro dos amigos de Nilo Batista.
Sou forçado a optar pelo segundo, pois combinei com alguns amigos lá.
Entre os amigos, Roberto Ananias, aos oitenta anos, quase cego, mas firme e forte, reorganizando o Divina Senzala, com previsão de volta às ruas no carnaval de 2006.
Hoje teremos canja de: Maira Martins, Luna Messina, Cláudio Pinheiro e Henrique Cukierman.
Mesmo quem já combinou comigo pode ir ver Negreiros, pois vale a pena.
A explicação do valor do Salário Mínimo
Uma grande polêmica tomou conta de todo o Brasil quando da decretação do novo Salário Mínimo.
Agora, ninguém mais discute, pois não está na televisão.
Nós, brasileiros, justificamos a música de Chico Buarque, composta em 1967.
"A própria vida ainda vai sentar sentida, vendo a vida mais vivida que vem lá da televisão".
Mesmo não fazendo parte das preocupações do país do iatismo, circula pela internet uma mensagem, de autoria ignorada, que merece a reprodução.
Vendo toda esta discussão em torno do valor do salário mínimo, lembrei de uma velha história, publicada no Pasquim há uns 30 anos, quando Mario Henrique Simonsen estabeleceu o valor do novo salário mínimo em Cr$ 76,80.
Pausa para explicações - para alguns de menos de 40 anos de idade:
1 - O Pasquim era o único jornal que debochava de tudo e de todos, em plena ditadura militar. Foi uma espécie de avô do Casseta e Planeta, só que numa época em que fazer piada do governo, em vez de dar audiência, dava cadeia.
2 - Mario Henrique Simonsen era o Ministro da Fazenda. Uma espécie de Palocci, com muito mais poder - não vamos nem falar da inteligência, para não humilhar o Palocci.
3 - Cr$ (cruzeiro) era a moeda da época. É a única coisa igual a hoje: não valia nada, tal qual o Real.
Bom, continuando a história:
Quando o salário mínimo foi decretado em Cr$ 76,80, todo mundo se perguntava por que este número cabalístico e não Cr$ 80,00, redondos. Ou, pelo menos, Cr$ 77,00.
O Pasquim então publicou uma capa, com uma charge do Simonsen, diante de um quadro negro cheio de cálculos, dizendo: vou explicar para vocês como foi definido o valor do salário mínimo (Simonsen era brilhante professor de economia). E, dentro, o jornal apresentava os cálculos:
Preço de um cafezinho: Cr$ 0,12
Preço de um pãozinho francês: Cr$ 0,04
Uma pessoa normal vive muito bem tomando um cafezinho e comendo um pãozinho (sem manteiga), quatro vezes por dia.
Portanto: (0,12 + 0,04) x 4 = Cr$ 0,64
Uma família tem, em média, 4 pessoas.
Logo: 0,64 x 4 = Cr$ 2,56
O mês tem 30 dias (isto, até quem ganha salário mínimo sabe):
Assim: 2,56 x 30 = Cr$ 76,80.
Logo, o salário mínimo tinha que ser de Cr$ 76,80. Nem mais, nem menos.
Será que esta "explicação" serviria para justificar os R$ 260,00 do salário mínimo decretado hoje?
Vejamos:
Preço de um cafezinho: R$ 0,70
Preço de um pãozinho francês: R$ 0,20
(0,70 + 0,20) x 4 = R$ 3,60
R$ 3,60 x 4 = R$ 14,40
R$ 14,40 x 30 = R$ 432,00.
É... a conta não fechou.
Vamos ter de pedir para Lula ou Palocci outra "aula" para explicar os R$ 260,00.
A Era Vargas
Há exatos 54 anos, deu-se a maior tragédia nacional.
Com todos os ingredientes das tragédias gregas.
Com um tiro no peito, Getúlio Vargas cometeu suicídio.
Um gigante nos acertos e nos erros.
Voltarei a tratar do polêmico assunto.
MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Agosto 24, 2004
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wDivagações e citações - Sexta-feira, Agosto 20, 2004 |
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Festa à brasileira
Em 1998, a antropóloga Rita Amaral defendeu, junto ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo a tese de doutorado: Festa à Brasileira - Significados do festejar no país que "não é sério".
Rita nos avisa que a tese está disponível para todos, basta clicar aqui
A invenção de Caicó
Moacy Cirne retornou do Rio Grande do Norte.
Quem lê o Balaio Vermelho pôde acompanhar a verdadeira agitação cultural que foi esta viagem do estimado sertanejo à terra natal.
Costumamos dizer que nordestinos, ao viajarem, se caracterizam por duas coisas.
A primeira coisa é que nordestino não conhece hotel.
Sempre acha que precisa se hospedar na casa de alguém.
Isto independe da condição sócio-cultural do viajante.
Por isto mesmo, os nordestinos estão sempre disponíveis a receberem visitas.
Em minha casa, além de brasileiros de praticamente todos os estados, já recebi gente de diversos países, tais como: Alemanha, Angola, Argentina, Bélgica, Bolívia, Bulgária, Chile, Colômbia, Cuba, El Salvador, Espanha, França, Gabão, Holanda, Hungria, Itália, México, Nicarágua, Paraguai, Portugal, Rússia, Suécia, Uruguai, Venezuela...
Sem contar que estou sempre a receber telefonemas de amigos e de amigos de amigos.
- Manoel Carlos, estou viajando para tal lugar e fulano me deu o seu telefone para saber onde posso me hospedar.
Claro que o interlocutor não espera que eu indique o Hotel Negresco em Nice, o Polana em Maputo, o Hoti Hotel em Bissau, o Panorama em Luanda, o Tambaú em João Pessoa, o Amazonas em Cuiabá... mas casas de amigos.
Em alguns casos até o faço.
A segunda característica é que nordestinos levam e trazem dois tipos de bagagem.
Um matulão com roupas e objetos pessoais.
Um verdadeiro caçuá de lembranças.
Pai, mãe, tios, irmãos, sobrinhos, amigos, vizinhos, parentes, aderentes, cães e passarinhos aguardam ansiosos por uma lembrancinha.
Já vi criança chorar porque o viajante voltou e não trouxe uma lembrancinha para Mimoso, o carneirinho de estimação, ou para Sultão, o diligente perdigueiro.
Moacy Cirne, sertanejo que é, não foge à regra.
Eu é que lucrei.
Ganhei um exemplar de Preá e A invenção de Caicó, o novo livro de Moacy, lançado durante a viagem pela Sebo Vermelho Edições.
Aqui um parêntesis.
Há, enquistada em Laranjeiras, uma República Nordestina.
Seus integrantes têm um código próprio de comunicação e relacionamento.
Indecifrável, ao menos para mim.
Moacy não me telefonou, deixou um aviso no comentário aqui mesmo em Agreste e deixou o presente com Moacir Lopes que me entregou ontem à noite.
Fecha parêntesis.
Mais do que grato, fiquei emocionado.
Pelo carinho de Moacy e pelo próprio livro.
Ri muito, pois alguns termos, incluídos no glossário, são comuns à minha infância e há muito não os via, como cherada de bola.
Crônicas, depoimentos, fotos; remissão à origem tapuia; enfim: um documento que certamente se tornará em lembrancinha obrigatória para todo caicoense levar para os seus anfitriões em futuras viagens.
Contudo, mais adequado que comentar o livro é transcrever a contracapa.
Se Caicó não existisse, seria preciso inventá-la. Se o presente livro não tivesse sido escrito, seria necessário escreve-lo. Caicó não é apenas uma cidade, é um sonho; não é apenas um espaço geográfico hoje bastante povoado, é um estado de espírito; não é apenas o calor humano de sua gente, é o resultado histórico de uma lenda inaugural. O escritor François Silvestre de Alencar, de Martins, outro belo centro urbano do Estado, disse tudo, e o disse muito bem: ¿Caicó não é uma cidade, é uma pátria. Os caicoenses são ibéricos, visigodos. Dantas, Araújos, Medeiros, Macedos, Walfredos, Godofredos. Fibra de algodão mocó. Águas do Seridó. Águas do Barra Nova.¿ Se Caicó não existisse, o Mundo seria menor. E menos belo.
Para encerrar, publicado em Um panfleto para Godard (1986), há um poema que transcrevo.
Metaplágio - Moacy Cirne
na casa de sebastiana
meu poema zé-limeireia
na casa de maria joana
catimbó e borogodeia
borogodeia e fabrica
fábrica fabricália
fabricália lembrança
porretância embriaguez
filosomia conchambrança
berimbelo maciez
na terra dos caicós
encantos borogodós
vi onças a chupar carambolas
ao som de claras violas
o ano passado eu corri
este ano eu não corro
fábrica fabricália
palavra sonogrência
substantivo maravalha
putufu merdência
bucetina bravanalha
poema poemência
na terra dos caicós
macaxeiras mocotós
vi onças a comer graviolas
ao som de raras violas
o ano passado eu morri
mas este ano eu não morro
MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sexta-feira, Agosto 20, 2004
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wDivagações e citações - Terça-feira, Agosto 17, 2004 |
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Surpresa agradável
Como ocorre semanalmente, sempre às quintas-feiras, das 18 às 20 horas, no Casarão dos Arcos, à Av. Mem de Sá, na Lapa, reúnem-se os amigos de Nilo Batista.
É sempre o mesmo formato.
Música, sendo o próprio Nilo um dos músicos, ao piano e acompanhado pelo filho Guto à bateria, normalmente Nilo toca Bossa Nova.
Cada semana aparece alguém como atração especial.
Na recente quinta-feira, João Donato e Robertinho Silva estavam programados como as tais atrações.
Sem quem ninguém soubesse, apareceu Monarco.
Monarco é muito mais que um grande sambista, fundador da Velha-Guarda da Portela.
Ele chega mesmo a ser uma entidade do samba.
Cantou um pouco, deixando-nos emocionados.
Em dado momento, ele disse que sentia pairando Leonel Brizola que tanto fez pelo samba e que tanto prestigiou a Velha-Guarda - quando Governador, Brizola abria mão do camarote oficial do Governo e o cedia aos integrantes das velhas-guardas de todas as escolas.
Neste momento, o bar, que estava completamente lotado, aplaudiu de pé por alguns minutos.
Depois, ficou um pouco a conversar com Nilo e, involuntariamente, fui testemunha privilegiada da conversa.
Monarco falou do seu tempo de funcionário público, do convívio com Villa-Lobos, com o Barão de Itararé, contou causos...
Sem dúvida, uma grande personalidade e foi tratado, por todos os presentes, com respeito e carinho especiais.
Sem demérito para João Donato e Robertinho Silva, grandes músicos, Monarco, altaneiro como o símbolo de sua amada Portela, foi a grande atração da noite.
Invasão em Santa Tereza
Amanhã, quarta-feira, a partir das 22 horas, haverá uma invasão do Simplesmente.
O Grupo Panela de Barro tocará o seu Chorinho, como sempre, mas um grupo de amigos resolveu invadir o Simplesmente.
Pelo que sei, já somos mais de trinta.
Receita para um "jet-set" nacional
Mia Couto
Já vimos que, em Moçambique, não é preciso ser rico. O essencial é parecer rico. Entre parecer e ser vai menos que um passo, a diferença entre um tropeço e uma trapaça.
No nosso caso, a aparência é que faz a essência. Daí que a empresa comece pela fachada, o empresário de sucesso comece pelo sucesso da sua viatura, a felicidade do casamento se faça pela dimensão da festa. A ocasião, diz-se, é que faz o negócio. E é aqui que entra o cenário dos ricos e candidatos a ricos: a encenação do nosso "jet-set".
O "jet-set" como todos sabem é algo que ninguém sabe o que é. Mas reúne a gente de luxo, a gente vazia que enche de vazio as colunas sociais. O jet-set moçambicano está ainda no início. Aqui seguem umas dicas que, durante o próximo ano, ajudarão qualquer pelintra a candidatar-se a um jet-setista. Haja democracia! As sugestões são gratuitas e estão dispostas na forma de um pequeno manual por desordem alfabética:
Anéis - São imprescindíveis. Fazem parte da montra. O princípio é: quem tem boa aparência é bem aparentado. E quem tem bom parente está a meio caminho para passar dos anéis do senhor à categoria de Senhor dos Anéis O jet-setista nacional deve assemelhar-se a um verdadeiro Saturno, tais os anéis que rodeiam os seus dedos. A ideia é que quem passe nunca confunda o jet-setista com um magaíça*, um pobre, um coitado. Deve-se usar jóias do tipo matacão, ouros e pedras preciosas tão grandes que se poderiam chamar de penedos preciosos. A acompanhar a anelagem deve exibir-se um cordão de ouro, bem visível entre a camisa desabotoada.
Boas maneiras - Não se devem ter. Nem pensar. O bom estilo é agressivo, o arranhão, o grosseiro. Um tipo simpático, de modos afáveis e que se preocupa com os outros? Isso, só uma pessoa que necessita de aprovação da sociedade. O jet-setista nacional não precisa de aprovação de ninguém, já nasceu aprovado. Daí os seus ares de chefe, de gajo mandão, que olha o mundo inteiro com superioridade de patrão. Pára o carro no meio da estrada atrapalhando o trânsito, fura a bicha**, passa à frente, pisa o cidadão anónimo. Onde os outros devem esperar, o jet-setista aproveita para exibir a sua condição de criatura especial. O jet-setista não espera: telefona. E manda. Quando não desmanda.
Cabelo - O nosso jet-setista anda a reboque das modas dos outros. O que vem dos americanos: isso é que é bom. Espreita a MTV e fica deleitado com uns moços cuja única tarefa na vida é fazer de conta que cantam. Os tipos são fantásticos, nesses video-clips: nunca se lhes viu ligação alguma com o trabalho, circulam com viaturas a abarrotar de miúdas descascadas. A vida é fácil para esses meninos. De onde lhes virá o sustento? Pois esses queridos fazem questão em rapar o cabelo à moda militar, para demonstrar a sua agressividade contra um mundo que os excluiu mas que, ao que parece, lhes abriu a porta para uns tantos luxos. E esses andam de cabelo rapado. Por enquanto.
Cerveja - A solidez do nosso matreco vem dos líquidos. O nosso candidato a jet-setista não simplesmente bebe. Ele tem de mostrar que bebe. Parece um reclame publicitário ambulante. Encontramos o nosso matreco de cerveja na mão em casa, na rua, no automóvel, na casa de banho. As obsessões do matreco nacional variam entre o copo e o corpo (os tipos ginasticam-se bem). Vazam copos e enchem os corpos (de musculaças). As garrafas ou latas vazias são deitadas para o meio da rua. Deitar a lata no depósito do lixo é uma coisa demasiado "educadinha". Boa educação é para os pobres. Bons modos são para quem trabalha. Porque a malta da pesada não precisa de maneiras. Precisa de gangs. Respeito? Isso o dinheiro não compra. Antes vale que os outros tenham medo.
Chapéu - É fundamental. Mas o verdadeiro jet-setista não usa chapéu quando todos os outros usam: ao sol. Eis a criatividade do matreco nacional: chapéu ele usa na sombra, no interior das viaturas e sob o tecto das casas. Deve ser um chapéu que dê nas vistas. Muito aconselhável é o chapéu de cowboy, à la Texana. Para mostrar a familiaridade do nosso matreco com a rudeza dos domadores de cavalos. Com os que põe o planeta na ordem. Na sua ordem.
Cultura - O jet-setista não lê, não vai ao teatro. A única coisa que ele lê são os rótulos de uíque. A única música que escuta são umas "rapadas e hip-hopadas" que ele generosamente emite da aparelhagem do automóvel para toda a cidade. Os tipos da cultura são, no entender do matreco nacional, uns desgraçados que nunca ficarão ricos. O segredo é o seguinte: o jet-setista nem precisa de estudar. Nem de ter Curriculum Vitae. Para quê? Ele não vai concorrer, os concursos é que vão ter com ele. E para abrir portas basta-lhe o nome. O nome da família, entenda-se.
Carros - O matreco nacional fica maluquinho com viaturas de luxo. É quase uma tara sexual, uma espécie de droga legalmente autorizada. O carro não é para o nosso jet-setista um instrumento, um objecto. É uma divindade, um meio de afirmação. Se pudesse o matreco levava o automóvel para a cama. E, de facto, o sonho mais erótico do nosso jet-setista não é com uma Mercedes. É, com um Mercedes.
Fatos - Têm de ser de Itália. Para não correr o risco do investimento ser em vão, aconselha-se a usar o casaco com os rótulos de fora, não vá a origem da roupa passar despercebida. Um lencinho pode espreitar do bolso, a sugerir que outras coisas podem de lá sair.
Simplicidade - A simplicidade é um pecado mortal para a nossa matrecagem. Sobretudo, se se é filho de gente grande. Nesse caso, deve-se gastar à larga e mostrar que isso de país pobre é para os outros. Porque eles (os meninos de boas famílias) exibem mais ostentação que os filhos dos verdadeiros ricos dos países verdadeiramente ricos. Afinal, ficamos independentes para quê?
Óculos escuros - Essenciais, haja ou não haja claridade. O style - ou em português, o estilo - assim o exige. Devem ser usados em casa, no cinema, enfim, em tudo o que não bate o sol directo. O matreco deve dar a entender que há uma luz especial que lhe vem de dentro da cabeça. Essa a razão do chapéu, mesmo na maior obscuridade.
Telemóvel - Ui, ui, ui! O celular ou telemóvel já faz parte do braço do matreco, é a sua mais superior extremidade inferior. A marca, o modelo, as luzinhas que acendem, os brilhantes, tudo isso conta. Mas importa, sobretudo, que o toque do celular seja audível a mais de 200 metros. Quem disse que o jet-setista não tem relação com a música clássica? Volume no máximo, pelo aparelho passam os mais cultos trechos: Fur Elise de Beethoven, a Rapsódia Húngara de Franz Liszt, o Danúbio Azul de Strauss. No entanto, a melodia mais adequada para as condições higiénicas de Maputo é o Voo do Moscardo. Última sugestão: nunca desligue o telemóvel! O que em outro lugar é uma prova de boa educação pode, em Moçambique, ser interpretado como um sinal de fraqueza. Em Conselho de Ministros, na confissão da Igreja, no funeral do avô: mostre que nada é mais importante que as suas inadiáveis comunicações. Você é que é o centro do universo!
Adendo em 18/08
Vi o comentário de Sakana e, incontinênti, fui ao Cromossomos desejar feliz aniversário.
Está lá: trinta e um anos e passará o aniversário sem pai nem mãe ou namorado.
Numa cidade grande como São Paulo...
Tristeza, solidão...
Lépido e fagueiro, tentei fazer um comentário que fosse espirituoso, criativo, meigo.
Entre tentar e conseguir... ai! ai!
De acordo com as minhas limitações, obtive um resultado que a minha falta de auto-crítica me fez considerar razoável.
Enviei e... nada!
Já sem inspiração, mas movido pela simpatia que desenvolvi por meus amigos virtuais em pouco mais de meio ano de convívio, fiz um segundo comentário.
Nada!
A terceira tentativa também foi um insucesso.
Uma idéia brilhante: enviar uma mensagem por e-mail.
Não é mesma coisa, pois deixa de ser uma mensagem pública, mas...
Podem tentar, não há e-mail nos inúmeros comentários que Sakana tem deixado em Agreste.
Perdi a paciência, mas resolvi fazer a última tentativa: nada!
Os meios de comunicação me deram um rotundo não?
Desde quando os meios determinam o que fazermos?
Resolvi usar o próprio espaço do Agreste e torcer para Sakana retornar.
Já nem lembro o que disse em todas as tentativas, mas sei o que desejo.
Embora desejo seja um substantivo abstrato e sejamos apenas amigos virtuais, há concretude no que desejo.
Desejo sonhos.
Isto mesmo, Sakana, desejo que você sonhe sempre e cada vez mais.
Continuar a sonhar é não perder as esperanças de um Mundo melhor, uma vida digna e justa.
E que estes sonhos se tornem realidade.
É a realização de sonhos que alimenta a nossa esperança e o nosso desejo de mais, sempre mais e melhor.
Desejo muita saúde e muita paz.
Amigos, muitos amigos.
E que você seja muito feliz junto aos seus entes mais amados.
Eu desejo isto para todos os amigos que compõem o universo bloguístico agrestino.
Contudo, hoje a aniversariante é você e que você simbolize todos estes amigos.
Grande e fraterno abraço.
MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Agosto 17, 2004
Comentário e zombaria:
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wDivagações e citações - Quarta-feira, Agosto 11, 2004 |
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Ninguém bebeu
O Prepone Lula e seus aspones afirmam que ninguém bebeu.
Isto mesmo!
Nenhum integrante da comitiva presidencial bebeu em Minas Gerais.
O atropelamento do idoso foi uma fatalidade.
Além do mais, ele já estava muito velho, acima da expectativa de vida dos brasileiros.
Se duvidar, era um aposentado.
Só falta agora quererem transformar a sua morte em um ato de protesto.
O que vale uma vida?
A assessoria do prepone até que enviou uma coroa de flores ao enterro.
Isto não é o bastante?
O que mais querem os opositores, os detratores, os subversivos?
Como diz o prepone Lula, não se pode viver em paz e amor com esta onda de denuncismo, neologismo criado para desmerecer qualquer processo denunciativo.
O PT jamais denunciou coisa alguma.
Bom, na verdade denunciou.
Jamais provou qualquer de suas denúncias.
Em compensação, jamais apurou qualquer denúncia contra seus integrantes.
Será que isto significa o mesmo que ocorre em contabilidade? Tudo zerado?
Será que isto é o mesmo que não denunciar?
As CPI que o PT propôs sempre foram um palco para proselitismo.
Voltando ao idoso.
Ele morreu e a coroa de flores retrata todo o sentimento cristão dos lulistas.
Eles são oriundos do movimento cristão.
Constituem, no Brasil, o equivalente à Democracia Cristã italiana.
E não perdem a oportunidade de demonstrarem o seu espírito cristão.
Eu vi, num domingo destes, uma caminhada do PT em Copacabana.
Era um ato político em prol do seu candidato a prefeito do Rio.
Em frente à casa do recém falecido Leonel Brizola, eles botaram o carro de som para tocar um bolero antigo, cuja letra diz: "... agora é cinza, tudo acabado e nada mais..."
Calhordas!
Nota: alguém gostaria de legendar a foto?
Que tal?
Só porque vivo (ique!) atrás da moita dizem (ique!) que meu governo (ique!) só faz merda?
Poemas inéditos
Dois poemas não publicados de João Salva Rey.
Ilusões
Serenamente sem ânsia
Tento medir a distância
Que vai daquilo que penso
À verdade imaginada
Da primeira estrela que me espreita
Do espaço sideral
De cinza congelada
Talvez feita
Ou talvez feita de nada
Vazia mas perfeita
Como são as ilusões
Nem a distância é aquilo que penso
Nem faz para mim a estrela qualquer senso
Em cada estrela
Em cada estrela, irmão, plantámos uma esperança
E as estrelas deixaram de brilhar
Perderam-se as esperanças, uma a uma, na distância
Ou são os nossos olhos que as deixaram de enxergar?
João Salva Rey nasceu em Lisboa em 1924.
Em 1935, emigrou para Moçambique.
Em 1975, retornou a Portugal.
Em 1987, emigrou para Macau.
Em julho deste ano, regressou a Portugal e vive em Cascais.
Por conta da vida cigana que levou, escreveu:
Vagabundo
Deixe-me ser vagabundo
Assim como pareço
Só quero andar neste mundo
Da maneiro que vos peço
MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Agosto 11, 2004
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wDivagações e citações - Sexta-feira, Agosto 06, 2004 |
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Francisco Brennand
Em Pernambuco as opiniões se dividem: há quem ache Brennand antipático e há quem o ache pornográfico.
Nós não o achamos uma coisa ou outra.
Apenas o consideramos um gênio, falante, sedutor.
Estávamos em visita à Oficina e ele veio nos receber.
Após uma visita geral, levou-nos para a área reservada, o ateliê propriamente dito.
Em dado momento, Flora, pequenina, olhava, de muito perto, um quadro; Sílvia olhava outras coisas; eu conversava com Brennand e Dr. Hélio, um amigo que nos acompanhou até lá.
Repentinamente Brennand disse:
- Com licença! Criança é demais!
Saiu de perto de nós e foi até Flora.
Fiquei apreensivo, pois mesmo fritando o peixe de olho no gato, poderia não ter visto algo que Flora fizera.
Ao chegar perto de Flora, Brennand disse:
- Você, pelo comentário que fez, demonstrou que percebeu perfeitamente o que aconteceu comigo no momento que pintava este quadro.
Começou a dar uma aula de pintura para Flora e, deste momento em diante, parecia manteiga derretida.
Realmente estou devendo uma crônica sobre a Oficina Francisco Brennand, a Ilumiara.
Vamos legendar?
A partir de hoje, postarei algumas imagens para que os amigos possam legendá-las.
As duas de hoje são de autoria desconhecida.
Uma delas já foi legendada por algumas pessoas.
Fábio Perez da Silva:
- Juro que eu não sabia que celulares podiam detonar explosivos, verdade!!!
Felipe Cerquize
- Olá amor! Onde é que estou? No escritório, é claro! Por quê?Aconteceu alguma coisa?
Carlos Edu Bernardes
- Depressa! Depressa! Depressa! Mais lenha! A torre 1 está ganhando por 5 andares!
Então? quem se habilita?
MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sexta-feira, Agosto 06, 2004
Comentário e zombaria:
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wDivagações e citações - Terça-feira, Agosto 03, 2004 |
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Mia Couto é moçambicano. Fosse ele brasileiro, o seu artigo O país dos dez por cento seria pertinente à realidade do nosso país.
Rogério Gentile (Cem anos de gratidão), Dora Kramer (Arrevesada transparência) e Hugo Studart (Custo da Presidência e Os misteriosos cartões de crédito do planalto) além de brasileiros tratam de questões factuais, para nossa infelicidade.
O país dos dez por cento - Mia Couto
Havia um país em que tudo funcionava na base dos dez por cento.
Era o médico:
- Mandas-me esse doente e eu pago-te 10%.
Era a criança de rua para um candidato a criança de rua:
- Deixo-te guardar carros na minha área e dás-me 10 por cento.
Era o chefe:
- Deixo a vossa empresa ganhar o concurso e vocês retribuem com 10 por cento.
Era o polícia:
- Estou a telefonar para lembrar aquela multa que perdoei... recorde-se do combinado.
Era o director:
- Coloquei-te no projecto como técnico... já sabes, não é?
Era o outro chefe em sussurro para o empresário estrangeiro:
- Podem investir no nosso país mas... há comissões, é normal...
Tudo parecia correr bem, no país dos dez por cento. Na aparência, pelo menos... As pessoas trabalhavam a dez por cento, sonhavam nessa percentagem, viviam nessa escassa perspectiva. Tudo a dez por cento.
Mesmo a esperança a ser investida no futuro ocupava apenas uma fracção do coração.
Certo dia, porém, alguém pensou tomar uma iniciativa a 100 por cento. Meu dito, meu feito. O homem arregaçou as mangas e trabalhou.
E logo os amigos, familiares e colegas desataram a rir. Que o esforço seria em vão. Porque, nesse país, o construir era entendido como "comer". E ninguém pode "comer" sozinho. Viria o fiscal e pediria 10 por cento. Viria o camarário e pediria 10% para as licenças. Viria o ministerial e exigiria 10 por cento. Ou mais.
No final, ele acabaria por ficar com menos de 10 por cento das ideias, e do esforço aplicado resultaria quase nada. Que no país dos dez por cento o melhor é não fazer. O melhor é não construir, nem trabalhar. O que é bom e saudável é parasitar os que querem fazer. Sobretudo, os que querem fazer a cem por cento.
E assim, embora aparentando toda a normalidade, o país a dez por cento padecia de uma doença fatal. O problema é que um país a dez por cento só pode ser dez por cento país!
Mia Couto
in Beco com saída - Revista mais
Cem anos de gratidão - Rogério Gentile
Delúbio Soares de Castro, o tesoureiro do PT, é um sujeito curioso. Fã de Gabriel García Márquez e de charutos caros, costuma contar com orgulho que ficou 20 anos sem tomar Coca-Cola em protesto contra o imperialismo ianque.
Amadurecido na militância petista e amigo íntimo de Luiz Inácio e Zé Dirceu, Delúbio tem hoje uma outra obsessão na vida: coletar donativos de empresários abnegados, dispostos a auxiliar o Partido dos Trabalhadores e o companheiro-mor a mudar o país.
Pouco importa se, por uma dessas coincidências, o benemérito detenha contratos oficiais ou esteja enamorado de alguma concorrência pública.
O fundamental é que, para mudar o país, o partido precisa de uma nova sede na cidade de São Paulo, de preferência na região dos Jardins. A atual, no centro, ficou muito pequena depois que o PT desembarcou no Palácio do Planalto e engordou, amigado de tanta gente singular.
No seu itinerário de mármore, Delúbio Soares não pretende pedir muito, considerando o que o PT se propõe a fazer pelo futuro da nação. Algo entre R$ 5.000 e R$ 500 mil (o primeiro valor é suficiente para a concessão de cem bolsas-família, nova roupagem do programa Fome Zero, aquele da campanha presidencial de Lula).
Em troca, pela compreensão com o partido e pela disposição em ajudar o Brasil, o empresário solícito receberá do tesoureiro um kit oficial do PT, o chamado "kit gratidão" - afinal, amizade é tudo na vida.
Mas fica no ar a pergunta: o que diria anteontem a República da Companheirada se essa sacolinha fosse conduzida, digamos, pelo funesto PC Farias? Ou, num plano menos distante, pelo finado Sérgio Motta em nome da fantasia tucana dos 20 anos de poder?
Bobagem. Delúbio Soares é um bom homem, filho de pais analfabetos e vítima de discriminação social em sua Buriti Alegre, no interior de Goiás, onde, nos anos 60, certos lugares do cinema da cidade eram reservados aos filhos da elite. Seu passado realmente o isenta de qualquer tipo de suspeita, não é mesmo, Luiz Inácio?
O problema no Partido dos Trabalhadores atualmente é que ninguém fica mais vermelho. Ninguém tem medo de fazer papel ridículo.
O presidente da República manda comprar um Airbus de US$ 56,7 milhões, embora faltem recursos para a manutenção de muitos programas sociais prioritários, como o Brasil Alfabetizado. Uma piada.
O filho e um velho amigo do chefe da Casa Civil conseguem liberar emendas parlamentares para projetos que lhes interessam, sendo que deputado nenhum apresentou, de fato, emenda para tais fins. Um detalhe.
Sem contar as inúmeras contradições entre o discurso pré-Planalto e o mundo real dos gabinetes refrigerados. Antonio Palocci, quem diria, já empurrou carrinho de supermercado pela praça dos Três Poderes para mostrar ao Brasil que o salário mínimo não dava para nada.
Como escreveu Dostoiévski em "O Eterno Marido", "a pessoa bebe a própria tristeza e como que se embriaga com ela". O PT bebeu o próprio poder e se embriagou com ele.
Rogério Gentile é editor-adjunto de Brasil.
Arrevesada transparência - Dora Kramer - Jornal do Brasil
A concepção de transparência político-administrativa adotada pelo PT no governo é tão avançada que não raras vezes transita solerte pelo terreno da desfaçatez.
O caso mais recente da compra dos ingressos, pelo Banco do Brasil, de um show autobeneficente do partido é só um exemplo. Há vários outros. No próprio BB, inclusive, que financiou os R$ 21 milhões necessários à renovação do sistema de informatização do PT, a fim de modernizar a comunicação dos diretórios partidários nessas eleições.
Lá - isso foi no início do ano - como cá, as direções do partido e do banco não viram nada de inadequado nas operações. O financiamento, para o presidente do PT, José Genoino, não encerra conflito de interesses porque, segundo ele, trata-se de um negócio como outro qualquer.
O BB, na visão de Genoino, é um ''banco como outro qualquer''. Da mesma forma, o presidente e o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, consideram despropositados os reparos à aquisição dos ingressos do show em churrascaria de Brasília para arrecadar dinheiro à construção de uma nova sede para o partido em São Paulo.
Delúbio - vale lembrar, o mesmo que barrou a proposta de exibição das contas de campanha na internet sob o argumento de que ''transparência assim é burrice'' -, deu longa e profícua entrevista ao Globo, no último sábado, sobre o caso dos ingressos.
''Todo mundo assistiu ao show, comeu e bebeu. Portanto, não existe nada de errado. As pessoas estavam satisfeitas naquela noite'', diz a certa altura, em peculiar noção sobre a conduta adequada ao ente público e a relação entre o limite da ética e o divertimento resultante de seus atos. Se é bom, vale tudo.
Ele diz que estava tudo certo porque o PT agiu às claras. ''Se o Banco do Brasil comprou ingressos, o que posso fazer?'' O tesoureiro não vê ligação de causa e efeito entre uma coisa e outra. Bem como o presidente do partido, para quem ''uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa''.
Já o dono da churrascaria, cujos negócios privados não estão tão bem protegidos da reação da clientela quanto as operações de estruturação do PT, exibiu discernimento ante ao fato e mais que depressa devolveu os R$ 70 mil gastos pelo BB. Percebeu o que o tesoureiro e o presidente fingiram ignorar.
Ora, se não há realmente nenhuma relação de causa e efeito entre gentilezas do Banco do Brasil ao PT e o fato de o partido ser o governo, se de verdade ''uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa'', por que só agora, que está no poder, o PT renova sua frota de computadores e faz campanha para construção de nova sede com a participação do Banco do Brasil? Se tudo é tão normal assim, o partido poderia perfeitamente ter estabelecido essas relações quando ainda era oposição.
Na condição de governo, o único partido que não poderia valer-se desses instrumentos ditos ''normais'' seria exatamente o PT. A fim de não dar margem à óbvia interpretação de favorecimento.
A alturas tantas da entrevista, Delúbio Soares mostra-se espantado porque ''O Globo transforma uma coisa maravilhosa, que é a transparência, em algo duvidoso''.
O tesoureiro talvez ainda não tenha notado, mas as dúvidas provocadas por episódios como esses - e mais aqueles de propor a empresários o financiamento da reforma do Palácio da Alvorada e de transformar comitês do partido em abrigo de debates entre dublês de financiadores de campanhas e interessados no acesso aos negócios das parcerias público-privadas - não são quanto à transparência em si.
Duvidoso mesmo é o uso do conceito à conveniência do partido como se fora salvo-conduto ao livre manejo do aparelho de Estado para qualquer fim.
Custo da Presidência - Hugo Studart - Revista Dinheiro
Só há um indicador no Brasil que cresce na mesma velocidade da dívida pública: os gastos do gabinete da Presidência da República. Desde 1995, quando Fernando Henrique Cardoso chegou ao poder, as despesas vinculadas ao presidente cresceram dez vezes, num ritmo médio de 10% ao ano. Na era Lula, porém, a expansão tem sido mais acentuada. Entre 2002, último ano da gestão FHC, e o fim 2004, o aumento das despesas será de 150%. Tais dados foram coletados com exclusividade para a DINHEIRO por um grupo de consultores que tem senha especial de acesso ao Sistema Integrado de Administração Financeira, o SIAFI. É lá que estão detalhadas todas as despesas do Orçamento da União. Descobriu-se que, em 1995, o gabinete presidencial gastou R$ 38,4 milhões. Em 2003, primeiro ano de Lula, as despesas alcançaram R$ 318,6 milhões. Para este ano, está previsto o desembolso de 372,8 milhões - ou R$ 1,5 milhão por dia útil de trabalho. Até o dia 2 de julho, o gabinete tinha gasto R$ 120,3 milhões.
A principal causa da evolução das despesas é o inchaço da máquina pública. Itamar Franco entregou o Palácio do Planalto com 1,8 mil funcionários. FHC, por sua vez, enxugou-o para 1,1 mil. No governo Lula, a administração cresceu - e muito. Há neste momento 3,3 mil funcionários trabalhando diretamente na Presidência. No Palácio da Alvorada, existem outros 75. Há um mês, Lula assinou um decreto, de número 5.087, aumentando de 27 para 55 seus assessores especiais diretos. "Pairam sérias dúvidas sobre a qualidade, a prioridade e até mesmo a legalidade dessas despesas presidenciais", diz o deputado Augusto Carvalho, do PPS do Distrito Federal, chefe da equipe que levantou as despesas do gabinete presidencial para a DINHEIRO. "Além de crescentes, essas despesas estão cada vez mais obscuras". Uma das descobertas da equipe que entrou nas entranhas do Planalto diz respeito ao uso crescente dos cartões de crédito corporativos para cobrir as despesas das autoridades, utilizando o nome de funcionários do Planalto, que ganham entre R$ 3 mil e
R$ 5 mil (leia quadro ao lado). Em 18 meses, já foram gastos R$ 6,4 milhões com os cartões. Procurados insistentemente pela DINHEIRO ao longo da semana, assessores do Planalto, da Secretaria de Comunicação, da Casa Civil e o porta-voz presidencial não responderam as questões formuladas pela reportagem.
A máquina presidencial vem inchando por conta de atribuições que vêm sendo colocadas no Planalto. Lula decidiu alocar em seu orçamento sete diferentes ações de governo, como as políticas de comunicação, segurança alimentar e promoção da ética pública. A ação mais cara, contudo, é o chamado apoio administrativo.
Trata-se da gestão direta do Palácio do Planalto, do Alvorada e da Granja do Torto. Para este ano, o Orçamento é de R$ 151,2 milhões. Do total, R$ 140,8 milhões estão sendo gastos na administração dos palácios. Também estão sendo gastos R$ 3,8 milhões para a remuneração de militares que fazem a segurança do presidente e de sua família - há equipes em São Paulo, Florianópolis e Blumenau cuidando dos filhos de Lula.
Caso as contas do Planalto sejam vistas sob a ótica do Tesouro Nacional, elas atingem R$ 2,6 bilhões. "É a quantia consumida no período por todos os programas sociais, como o Bolsa Família e o Fome Zero", lembra o economista Ricardo Bergamini, que realizou o levantamento no Tesouro. "É mais do que os R$ 2,2 bilhões liberados para a reforma agrária." Isso ocorre porque Lula atrelou ao gabinete órgãos como as Secretarias da Pesca e da Mulher. "Isso mostra uma total inversão de prioridades", critica o senador Arthur Virgílio Neto, que administrou as despesas do Palácio no governo FHC. "Onde tem gente demais, sobram intrigas palacianas."
Os misteriosos cartões de crédito do planalto - Hugo Studart - Revista Dinheiro
As compras começaram modestas, mas logo tomaram volume. Já em 2000, primeiro ano em que o governo FHC adotou os cartões de crédito corporativos, as faturas somaram R$ 761,7 mil. Em 2002, quando entregou o poder, estavam em R$ 2,4 milhões. Mas com a chegada de Lula ao Palácio do Planalto o uso dos cartões de crédito virou uma febre. Em 2003, o governo gastou R$ 3.811.259,48 com cartões, 37,5% a mais do que no ano anterior. Este ano as compras estão ainda mais aceleradas. Até 15 de junho, dia em que a Secretaria de Administração da Presidência da República pagou as últimas faturas ao Banco do Brasil, os gastos há somavam exatos R$ 2.665.977,20. Nesse ritmo, o Planalto chega a R$ 6 milhões até o final do ano.
É a Secretaria de Administração da Presidência, subordinada ao ministro José Dirceu, que emite os cartões e paga as faturas. No governo FHC, as faturas foram enviadas ao Tribunal de Contas da União com a discriminação de cada compra, com a respectiva nota fiscal em anexo. O governo Lula não tem feito o mesmo. Neste ano, na sua primeira prestação de contas, o governo informou somente o valor total das faturas. A lista das autoridades que receberam cartões virou um segredo de Estado. Em abril, por exemplo, Dirceu foi flagrado em São Paulo pagando um hotel com seu cartão corporativo. Mas seu nome - nem o de nenhuma outra autoridade - não consta nas faturas do Banco do Brasil. Na maior parte das ordens de pagamento, não há referência ao verdadeiro dono do cartão.
Há, contudo, um grupo de 16 funcionários do Palácio do Planalto cujos nomes aparecem tanto nas faturas quanto no Siafi. São eles os ordenadores oficiais de despesas. Estão encarregados de suprir todas as necessidades do presidente, de sua família e dos ministros palacianos. Trabalham com agilidade e compram sem licitação. Alguns chegaram ao Palácio com Lula, como o ordenador Roberto Freire Soares, antigo companheiro de São Bernardo do Campo. A maior parte, contudo, está no Palácio há uma década ou mais. Todos eles têm salários entre R$ 3 mil e R$ 5 mil. Dentro dessa turma, há um grupo especial, o dos "ecônomos". O termo foi criado no regime militar, quando ajudantes de ordens andavam com dinheiro vivo no bolso para pagar despesas dos chefes. Hoje, nas viagens presidenciais, os ecônomos do PT estão sempre perto de Lula, alertas para todas as despesas. Um deles, Adhemar Paoliello, é da nova safra do partido. Em seu nome, há faturas de R$ 79.235,21. O ecônomo-mor de Lula chama-se Clever Fialho. Era um funcionário do protocolo nos tempos de FHC. Também chegou a cuidar da legalidade das licitações. Suas faturas em cartões somam R$ 641.225,54. Outro ecônomo de destaque é Anderson Aguiar, com faturas que somam R$ 192.400,62. O último ecônomo de Lula chama-se Josafá F. Araújo, um agente administrativo que começou como datilógrafo. No governo Lula, já pagou R$ 185.770,46 em despesas do presidente.
MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Agosto 03, 2004
Comentário e zombaria:
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Praia do Porto - Costa Dourada Litoral Sul de Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Praia de Calhetas Cabo de Santo Agostinho Ponto extremo de Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Chapada dos Guimarães Mato Grosso Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Serra dos Órgãos Estado do Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Campos do Jordão São Paulo Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Provetá - Ilha Grande Estado do Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Candeias Jaboatão dos Guararapes Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Mercado São José - Recife Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Piedade Jaboatão dos Guararapes Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Pouso Alegre Minas Gerais Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Pão de Açúcar Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Cristo Redentor Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Nascente - Pão de Açúcar Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Poente - Floresta da Tijuca Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Maracanã Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Niterói Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Quinta da Boa Vista Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Zona Norte Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Santa Tereza Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Santa Tereza Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Santa Tereza Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Santa Tereza Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Micos Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Igreja da Penha Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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