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wAgreste |
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Rabiscos e divagações
 Auto-retrato |
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Rabiscos e divagações Contato |
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Praia do Porto - Costa Dourada Litoral Sul de Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Praia de Calhetas Cabo de Santo Agostinho Ponto extremo de Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Chapada dos Guimarães Mato Grosso Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Serra dos Órgãos Estado do Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Campos do Jordão São Paulo Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Provetá - Ilha Grande Estado do Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Candeias Jaboatão dos Guararapes Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Mercado São José - Recife Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Piedade Jaboatão dos Guararapes Pernambuco Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Pouso Alegre Minas Gerais Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Pão de Açúcar Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Nascente - Pão de Açúcar Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Poente - Floresta da Tijuca Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Maracanã Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Niterói Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Quinta da Boa Vista Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Zona Norte Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Santa Tereza Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Santa Tereza Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Santa Tereza Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Micos Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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Vista de Casa Igreja da Penha Rio de Janeiro Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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wSábado, Janeiro 31, 2004 |
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É grave a crise
Supermercado Mundial, Bairro de Fátima, Rio de Janeiro. Cliente mal-educada. Caixa confusa. A embaladora assumiu o controle da situação. Fluência verbal, simples, direta. Cliente malcriada inconformada pela postura da embaladora. Em sua simplicidade, uma mulher jovem, negra, simples embaladora, mostrou-se superior. A cliente sem conseguir reclamar da embaladora, nenhum motivo concreto. Apenas o incômodo de sentir-se inferior, em sua arrogância, a superioridade da embaladora tornou-se uma afronta. A embaladora afastou-se e a cliente resmungou para a caixa: - quem ela pensa que é? A caixa: - uma médica que trabalha como embaladora, desde quando estudava e precisava trabalhar. Aí quem ficou chocado e incomodado fui eu. Simone, a embaladora, não me chocara ao falar corretamente, ao ser gentil e educada. O que me chocou foi o retrato do Brasil deste milênio. Faltam médicos para assistir a nossa população, o nosso sistema de saúde está em coma, o desemprego aumentando. Apenas em um quadro tão dramático uma médica já formada precisa continuar a trabalhar como embaladora de supermercado. E nossas esperanças de mudança foram para o espaço em um avião de US$ 60 milhões.
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MANOEL CARLOS PINHEIRO at Sábado, Janeiro 31, 2004
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wSexta-feira, Janeiro 30, 2004 |
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Guitarra - Federico Garcia Lorca
Começa o choro
da guitarra.
Quebram-se as taças
da madrugada.
Começa o choro
da guitarra.
É inútil calá-la.
É impossível
calá-la.
Chora monótona
como chora a água,
como chora o vento
sobre a nevada.
É impossível
calá-la.
Chora por coisas
distantes.
Areia quente do Sul
pedindo camélias brancas.
Chora a flecha sem alvo,
a tarde sem manhã,
e o primeiro pássaro morto
nas ramadas.
Oh, guitarra!
Coração malferido
por cinco espadas.
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A decisão
Como todos os demais, não jantara. Apenas um lanche com muito suco de frutas. Duas colheres de mel de abelha na hora agá. Parecia um ritual. Banho em silêncio, apenas o barulho do forte jato de água fria. Toalha esfregada com força, como se fosse para ativar a circulação. Trajando apenas o suporte atlético, deita-se na mesa para a massagem. A panturrilha direita, um pouco dolorida, recebeu uma atenção especial. O cheiro forte da terepentina substituindo os incensos dos cultos. Antes de botar o meião e calçar o tênis, enfaixa cuidadosamente o pé e bota a caneleira. Há quem prefira tornozeleira. Os exercícios de aquecimento parecem manobras de um exército de autômatos.
O esforço supremo para ouvir a preleção, uma zoada, palavras dispensáveis de uma ladainha tantas vezes repetida. Apenas a contração nos ovos e a forte vontade de mijar pela décima vez. Não participa de corrente de oração nem entra em quadra com o pé direito. Bobagem tem limite.
À saída do vestiário, o barulho das torcidas fica ensurdecedor. Ninguém quer sentir tremor nas pernas. Danam-se todos a fazerem movimentos bruscos e vigorosos. Saltos, corridas e chutes. Ele não acerta um no gol vazio. É sempre assim, mas na hora do jogo, não vai uma fora.
Brinca com os companheiros, cumprimenta os adversários. Provoca, ri e saúda a torcida que grita seu nome. Apesar da proximidade, não consegue e nem tenta distinguir um rosto na multidão. A torcida é uma coisa só. Não indivíduos. Uma massa ruidosa e instável. Sabe lidar com ela.
Riva aceita o seu cumprimento, mas não o encara. Isto é bom. Gosta de meter medo aos adversários. Tonho o abraça. Ótimo, ao menos no início do jogo não levará pancada. E quando o jogo esquentar, Arnóbio expulsa por qualquer coisa e isto é muito bom. Dois dribles mais atrevidos e mandará um para o chuveiro. É só não se deixar atingir em cheio.
Observa Riva, mas sem deixar que ele veja. Dá para perceber que o craque adversário está um pouco cabisbaixo. Vai tirar proveito disto. Em um lance decidirá o jogo. Se jogasse metade do que Riva joga... Só não é completo porque é instável. Rápido que nem um raio. Bate forte com as duas. Dribla em velocidade e parado. É forte e resistente. Enfim: alia força e técnica como ninguém.
Um refletor mais forte está quase na direção do gol em que Hélio ficará no primeiro tempo. Vai até lá. Discretamente, fica da altura do goleiro adversário de frente para o refletor e já sabe que, puxando um contra-ataque pela esquerda, por cobertura mandará uma bola que Hélio não enxergará.
Nem precisava, mas lembrou a Danilo: nada de espaço para Getúlio, oportunista de primeira. Com Tião se comunica por telepatia, apenas riem um para o outro, leve soco no peito como quem diz: só depende de nós dois. Rafael vem dizer que ele fique em cima de Riva e ele devolve: - Nem precisa falar nada, vou dar um nó e você vai fechar o gol!
O barulho aumenta. A histeria toma conta das torcidas. Maquinalmente dirige-se ao meio da quadra, escolhe o campo e Riva a saída. Arnóbio exige respeito e jogo limpo. A vontade de mijar, os lábios secos, o frio nos ovos. Soa o apito!
Tão logo soou o apito, o mundo pareceu mover-se em câmera lenta. O barulho da multidão mais parece um sussurro. Getúlio, Riva, Genaro e a bomba: ele estica a perna, a bola queima sua coxa e sai pela lateral. A torcida suspira aliviada. Na cobrança antecipa-se a Riva, não passa de primeira, prende e rodopia, finge atrasar para Rafael e lança Tião nas costas de Tonho, chute cruzado, Hélio salva.
É lá e cá. Riva dribla Tião, a torcida adversária vibra, drible longo em Zeca e ele faz barreira, não tenta tomar a bola, inútil. Apenas protege. Riva puxa para dentro, ele passa e volta a perna esquerda protegendo. Riva puxa para fora, protege com a direita e desvia para córner. Não pode deixar Riva gostar do jogo, senão ele vira o cão chupando manga.
Salva quase em cima da linha. Olha para frente e Tião dispara, se lançar é gol certo. Finge não ver que Riva vem para o bloqueio, arma o chute e apenas toca, de leve, a bola para o lado, precisão milimétrica, por entre as pernas de Riva que cai. A torcida, coração na mão, vai à loucura. Ele sabe que não abriu o marcador, mas acabou Riva, mais de meio time adversário.
Riva sempre lançado. Olhar suplicante pedindo que ele lhe roube logo a bola e acabe a agonia. De galinha de casa não se corre atrás. Jamais dá o bote, pois Riva é ágil demais. Acabado no jogo, Riva limita-se a tocar para o lado ou adiantar e perder a bola. No máximo um chutão para fora. A cada tentativa frustrada Riva piora. Não pode ter pena: é um ou outro.
Aproveitando um lançamento seu, Tião fez o segundo. O primeiro fora dele, na puxada do contra-ataque, pela esquerda, por cobertura, no ninho da coruja. Quando Hélio deu por si, a nega tava lá dentro. Polêmica da semana: se foi frango ou não; se foi no contrapé; se a bola veio de curva. Nem Hélio tinha certeza de que fora o refletor mais forte. Certamente acharia que perdeu o tempo da bola; que estava encoberto; que não dava para alcançar, pois marcava o lançamento. Quem imaginaria um chute do meio da quadra, logo contra Hélio?
O segundo tempo foi um passeio. Tonho desclassificado e Augusto, seu substituto, o único a adivinhar as suas jogadas. Ainda bem que é reserva e já entrou num time derrotado, querendo apenas perder de pouco.
Tabela com Tião e deixa Joca na cara do gol: é o terceiro. Na cobrança da falta, a pretexto de beijar a bola, pegou-a longe de si e botou-a aos seus pés, tirando a barreira da frente do canto esquerdo. Chute de curva, colocado, ainda tocou na trave antes de entrar. Fechando a goleada, jogada de alta velocidade e precisão técnica: puxou o contra-ataque, driblou três e, com um toque de direita, encobriu Hélio que saía desesperado. Horácio, vozeirão inconfundível, passou o resto do jogo gritando: - Sai todo mundo e paga outro ingresso pelo quinto gol! Este menino é de ouro!
Duzentos quilos em cada perna. Parece suar até pelos cabelos. Mesmo assim, pede para ficar até o final. Carlito, o técnico, respeita o seu pedido e o mantém. Limita-se a tocar a bola para os companheiros. Os adversários, não levam em conta os gritos de Argeu e procuram distância dele. Se tropeçar na bola será aplaudido. A torcida só sabe gritar o seu nome. Ainda mandou duas na trave e quase derrubava o ginásio.
O canto da torcida ecoa. Arnóbio ergue o braço e encerra a partida. Os companheiros se antecipam aos torcedores e o erguem. Passa de mão em mão, de ombro em ombro. Volta ao chão, é abraçado. Derrubado. Reerguido.
É campeão! É campeão! Perdeu os sapatos, não importa. É campeão! É campeão! Perdeu as meias, não importa. É campeão! É campeão! Perdeu a camisa, não importa. O seu coração de torcedor foi mais forte que os nervos do menino campeão. E era tudo que não queria: chorou copiosamente.
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MANOEL CARLOS PINHEIRO at Sexta-feira, Janeiro 30, 2004
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wTerça-feira, Janeiro 20, 2004 |
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Quero Ser Tambor - José Craveirinha
Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.
Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
Nem nada!
Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.
Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.
Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até a consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!
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Amuo
O frio parecia entrar nos ossos. Chovera a noite toda. Agora estiou. Logo o sol nascerá. Seria bom não precisar sair do jirau. As juntas queimam, talvez reumatismo. Tateia silenciosamente no escuro. As crianças podem acordar depois. Zefa? Melhor que não acordasse mais.
Calçou a alpercata, pegou o matulão, destravou a tramela e saiu. Légua e meia até o roçado. Sorte ter um jegue que carregue as tralhas. Rapidamente botou a cangalha e, por cima, os dois caixotes, um de cada lado. Distribuiu bem o peso para Gigante não ficar penso. Sultão vem junto.
Se pelo menos tivesse uma japona... A névoa que embaça a vista parece atingir o pensamento. Tudo se mistura e fica meio esmaecido. Raiva de Zefa, aquele troço. Os meninos tão sabidos, será que vão para cidade quando crescerem? Já tem luz em Brejinho, chega até aqui? Ainda bem que acabou a estiagem. A terra esturricada, cheia de pedra não produz. Espiga mirrada, fruta tão pixototinha que mais parece bisquí. Nem mais cabeça tem, só no terreiro, que nem cabeça é. O que não morreu na seca foi pra panela. Um dia vai pra São Paulo. Na volta, rico, com uns cem discos de forró, vai fazer um festão. Sanfoneiro, cantador e muito arrasta-pé. Cachaça à vontade. Buchada e sarapatel. Todo dia leite, munguzá, cuscuz e tapioca. E dormir numa cama de lona. Levantar depois do sol. Pescar e caçar quando bem entender. Besteira, já tá velho demais: trinta e dois no talo! Podia já ser quase avô se tivesse casado cedo. Com ele tudo é devagar demais. E Zefa que só faz aperrear! Um dia dá um jeito nisto. Peixeirada não, por causa dos meninos. Pode ser um veneno, tem tantos por aí. Alguém vai saber? Nunca! Ela vive dizendo que tá pra morrer.
A fosfuleira tá falhando na hora de fazer o fogo, deve ser a pedra, pois fluído tem. A lata de flandre esquenta a água do barreiro. Café ralo. É mais econômico. Até que a danada fez um beiju gostoso. Este cotoco nem parece uma enxada, vai ser difícil xaxar o feijão. O milho embonecado, se não der bicho... Fazer as covas da mandioca, pelo menos farinha não vai faltar. Da última vez que foi à cidade foi muito bom. Comprou até uma chita pra Zefa. Ela bem que ficou faceira. Coitada, tem sofrido muito. Mas a culpa é de quem? Para escravo, só falta o tronco, pois o eito já tem. E fome mesmo ninguém passou. Tem dia que pega tatu, outro caça uma ribaçã perto do barreiro. Depois do toró, foi um mundo de tanajura. Ainda bem que tinha feito banha. Até umas talagadas os dois beberam juntos. E depois foi muito gostoso. Mulher fala demais. Parece até criança. E quer que se responda a tudo. Nem se tivesse estudado.
Pensando bem, não tem motivo de queixa. Já sabe o que fazer de noite. Ela quer uma pisa. Não de chibata, pois é como diz aquela música: numa mulher não se bate nem com uma flor. É outro tipo de pisa. Ele sabe dar e ela gosta. Pega ela de jeito. Num instante acaba o amuo.
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MANOEL CARLOS PINHEIRO at Terça-feira, Janeiro 20, 2004
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wTerça-feira, Janeiro 13, 2004 |
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"Metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come"
Josué de Castro
A combinação entre a fome e o desperdício chega a ser perversa.
Veja a imagem, bastante comum, do desperdício de frutas numa cidade do Norte do Mato Grosso
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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MANOEL CARLOS PINHEIRO at Terça-feira, Janeiro 13, 2004
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wSegunda-feira, Janeiro 12, 2004 |
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Sem bala perdida
A violência urbana, característica das grandes cidades brasileiras, instaurou a cultura do medo, notadamente das balas perdidas. Ao mesmo tempo, reforçou o mito da vida rude e simples do campo como contraponto à violência urbana. Muitas pessoas creêm que "no meio do mato" a vida é pura e nela não há violência, muito menos bala perdida. Na Amazônia brasileira, há enormes conflitos de interesses. De um lado, a biodiversidade, a sustentabilidade sócio-ambiental... Do lado oposto, as atividades predatórias: o extrativismo vegetal e mineral, a caça e pesca... Sem uma política de manejo, estas atividades econômicas ameaçam extingüir espécies animais e vegetais, desequilibram os ecosistemas... Na Amazônia não há bala perdida; elas acertam o alvo sempre. Muitas vezes em forma de escárnio, em evidente desafio à ordem e ao poder constituído, como atestam estas perfurações de bala em uma placa no Pará.
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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MANOEL CARLOS PINHEIRO at Segunda-feira, Janeiro 12, 2004
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wQuarta-feira, Janeiro 07, 2004 |
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Ano Novo... vida nova!
Ano Novo... vida nova! Constatação original. Reflexões, planos, promessas...
O presente é uma ponte entre o passado e o futuro.
Daí querermos, desesperadamente, sabermos de onde viemos e para onde vamos.
Neste contexto, uma dúvida atroz: lá tem internet, cartão de crédito e caixa eletrônico?
A Mata do Caboclo
A subida íngreme determina a cadência dos passos miúdos pelas trilhas sinuosas. O sol forte, a brisa suave, ligeiramente fria, o ar puro das montanhas, a paisagem pedregosa do agreste. Todos a pé, nos cavalos apenas os mantimentos. O suor denuncia o esforço da sexta légua da jornada. Corpos magros, musculosos. Rostos empoeirados. Roupas rotas, ligeiramente enlameadas. Botas retorcidas nos pés quase talipes, alpercatas de couro, deixando à mostra as rachaduras dos calcanhares. Olhares serenos e determinados.
A fila indiana heterogênea: dois cavalos, um cachorro, dois homens, uma mulher e quatro crianças. Não fosse a proximidade física, não pareceria viajarem juntos.
Os animais, com os bisacos de milho no focinho, mastigam sem parar para nada, nem mesmo para adubar a terra: cagam em movimento. Balançam as ancas. Às vezes arfam um pouco.
Sultão, perdigueiro, sua sinaleira é o rabo. Endurece ante um ninho. Se de cobras, o pêlo traseiro se eriça. Se de pássaros, com o olhar, pede a autorização, sempre negada, para o ataque. Contém-se ante uma revoada de anu ou ribaçã. Balança o rabo quando as risadas infantis são próximas a gargalhadas.
As crianças, tagarelas, riem de tudo e por nada. Provocam-se à toa. Os adultos, monossilábicos, falam do essencial.
No cume da serra a abertura, ladeada por duas grandes pedras, indica o caminho da encosta a seguir, rodeando-se à esquerda. Não fosse a altura da abertura, pareceria uma gruta. É um túnel, não encravado nas rochas, mas formado pela própria mata, os galhos das árvores encontrando-se no alto. Depois da abertura, o caminho fica mais largo, o túnel mais ainda.
Silêncio absoluto. Os corações parecem bater mais devagar. Cada um, à medida que entra no túnel, retira o seu chapéu. Algo os transformou em um grupo. Parecem tomados pelos mesmos sentimentos e sensações.
Os únicos barulhos são o latejar das frontes e o escorrer do suor. E, muito distante, cigarras e pássaros. As patas de Malhado e de Trigueiro parecem surdo e tarol marciais, dando o toque do cortejo fúnebre. Não há corpo presente.
À medida que se avança, cada qual mergulha em seu próprio mundo. Mais que a escuridão, o que aumenta é a atmosfera de mistério. Chega-se a temer que os outros ouçam os seus pensamentos incontroláveis, os quais, guiados pela sensação mítica e mística, aprofundam-se na essência de cada um. Será a morada de Caipora, a Comadre Fulôzinha?
À esquerda, uma rocha e um lajedo. O silêncio, que já era absoluto, aumenta. Só não dói ou angustia porque há uma imensa paz reinante. O tiro estoura na cabeça de todos e de cada um. É assim toda vez que aqui se passa. A tocaia se repete. O Caboclo foi assassinado outra vez. A revolta, estranhamente, não gera sentimento de vingança, mas um forte clamor por justiça. Por que ninguém mais sabe o nome do assassino? Ele pouco importa. Só o Caboclo permanece. Recarrega a serenidade e a determinação do olhar, não mais cabisbaixo. Todos olham em frente, eretos, cabeça erguida. Deixou-se de entrar para sair da mata. Não é mais o túnel da morte e sim da vida.
Após uma curva à direita, o impacto. Cada um que chega à saída pára um instante. Talvez para se refazer da contração imediata das pupilas ante tanta luz do sol refletido nas cascatas. Talvez para a adaptação ao som intenso da água corrente, do canto dos pássaros e das cigarras, do coaxar dos sapos. Talvez pelo atordoamento do cheiro das frutas. Talvez para a mudança de ânimo.
Lá embaixo está o Sítio das Minas. Imensa área de fruteiras, nascentes e cascatas. Raras casas penduradas nas encostas. A vida que chama. A Mata do Caboclo ficou para trás, conservando o mistério que inspira medo a uns, atrai outros e desperta o respeito de todos.
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MANOEL CARLOS PINHEIRO at Quarta-feira, Janeiro 07, 2004
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wTerça-feira, Janeiro 06, 2004 |
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Anoitecer, na praia - Hermes Fontes
Junto ao mar, as crianças
são mais alegres; as mulheres são
mais harmoniosas,
mais naturais.
E, enquanto a ondulação
das águas marulhosas
arma, em seu ritmo, imprevistas danças
isócronas, mas sempre desiguais;
e a escumilha na praia arma frouxéis de rosas,
efêmeros, sutis, quase irreais;
e as crianças, à beira da água, armam castelos
na úmida areia,
sob os olhos da miss, ou da ama que as ladeia,
e o distraído encanto dos papais;
e os velhos, em seus trajos mais singelos,
sob os toldos velados,
repousados,
sorriem cachimbando,
recordando
coisas imemoriais, ¿
cada mulher que passa é atávica sereia;
é atávico tritão
cada atleta que emerge à ondulação
da correnteza rejuvenescente;
é atávico tritão
aquele nadador adolescente
ora a subordinar o mar fremente
que resfolega e ondeia,
ao ritmo do seu próprio coração...
(...)
_____________________________________________
Imaginemos que a praia descrita poderia ser a da foto à esquerda desta página, logo abaixo do contador de acessos.
O rio Una, nascido na Serra do Ororubá, em Pesqueira, encontra o Oceano Atlântico em São José da Coroa Grande.
O diploma
Sempre foi muito estudioso. Um aluno especial. Participante, disciplinado, questionador. Um pouco impaciente, é verdade. Irritava-se, mais do que gostaria, com a burrice explícita que tomava conta dos colegas. Mas jamais teve conflitos maiores com quem quer que fosse.
E, pouco a pouco, foi se tornando um estudioso, classificado por todos como intelectual. Mas gostava das coisas comuns, coisas das quais intelectual não gosta. Futebol, festas, etc. Fluminense doente. Perto dele, Cartola era Flamengo, Gérson é Vasco e Chico Buarque é Botafogo.
Virou artista. Sem frescura, mas um tanto esquisito para os padrões dominantes. Marxista, cercado de místicos por todos os lados. Franco e direto, entre tantos bajuladores. Comprometido com a aplicação prática de seus princípios, sem patrulhar os carreiristas de plantão.
Pelo talento e pela disciplina férrea, alcançou sucesso profissional. Mas não se sentia bem se não estivesse estudando alguma coisa. Não apenas lendo, isto sempre e muito mais. Cursos extras e regulares. Para cursar filosofia, estudou grego e alemão. Tinha que ler os filósofos no original.
Três graduações, quatro mestrados e cursando o doutorado. Parecia estudante profissional. Os amigos sempre reclamaram que ele adorava um diploma. Na verdade ninguém jamais viu algum pendurado pelas paredes de sua casa. Nem mesmo os prêmios e troféus conquistados em concursos e exposições. Apenas os incluía no curriculum-vitae, fazendo-o parecer uma tese.
Sempre graduações e mestrados, mas não doutorados. Eram todos em áreas diferentes. Complementares, costuma dizer. Doutorado só quando sentir que há um arcabouço teórico, algo a ser realmente construído e produzido, inovador.
Sofria a cada defesa de tese, mas nunca como na do doutorado. Reescreveu-a quatro vezes, sempre dizendo: tá uma merda! Mediocridade e confusão! Rasgava todo o trabalho impresso, deletava os arquivos e reformatava o HD para não sobrarem vestígios. Na quinta vez, sentiu que encontrara o rumo. Desde o início falava aos amigos: não posso conversar muito, pois agora a tese sai, a melhor que já concebi, a minha obra prima. A defesa foi uma apoteose!
Por tudo isto, até os amigos mais gozadores, respeitaram o seu carinho pelo grau obtido e, até mesmo, pelo famoso "canudo". Só a burocracia, misturada aos movimentos de greve, não respeitou tanto carinho. Nove meses, três semanas e cinco dias. Exatamente o tempo entre a requisição e a emissão do diploma. Pensou em chamar os amigos para receber o diploma, fazer a comemoração de praxe. E, pela primeira vez, botaria o certificado na parede. Emoldurado, é claro.
Precisava copiar e enviar para alguns lugares. Aproveitou para scanneá-lo. E começou a fazer algumas cópias. De início muito chinfrins, mas depois, uma beleza. Impressora de excelente qualidade, só diferiam do original por não serem em papel moeda. Cada uma delas sendo colocada de um lado e as ruins de outro.
Guardou as cópias necessárias, rasgou aquelas que estavam ruins e pronto. Decidiu sair para autenticá-las e comprar a moldura. Mas, e o original? Voltou para casa e procurou no scanner, nada! Entre os documentos, nada! Nas gavetas, nada! Em lugar algum...
Após quarenta e cinco minutos parado, tentando lembrar onde colocara o tão querido diploma, ocorreu-lhe uma idéia maluca. Será que foi para o lixo? E lá na cesta de papel estava o original, picado em dezessete pedacinhos!
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MANOEL CARLOS PINHEIRO at Terça-feira, Janeiro 06, 2004
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wSexta-feira, Janeiro 02, 2004 |
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"Não basta que seja pura e justa a nossa causa,
é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós"
Agostinho Neto in Do Povo Buscamos a Força
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Último dia (*)
Naquele dia de outubro de 1950 o Recife estava estranhamente cinzento e soturno. A notícia logo se espalhara. Como e por quais meios, ninguém jamais saberá. O fato é que todos, ao mesmo tempo, tiveram conhecimento da morte do Mestre. Talvez por isto a tristeza e a melancolia pairassem no ar sufocante, resultado do tempo mormacento. Outra grande perda, pois em maio (uma semana após o centenário do Teatro Santa Isabel) já falecera Mário Sette, um baluarte da cultura pernambucana.
Rapidamente organizaram o velório, o mais concorrido de que se teve notícia até então. As pessoas chegavam a pé, a cavalo, de charrete e, até mesmo, de automóvel. O constante movimento fazia crescer, cada vez mais, a já inacreditavelmente imensa multidão. Vinha gente de todo lugar: Iputinga, Afogados, Casa Forte, Alto do Pinho, Cajueiro, Apipucos e Beberibe; até mesmo de Moreno, Maria Farinha, Jaboatão, Itamaracá, Camaragibe, Tejipió e Aldeias. Havia todo tipo de gente: homens e mulheres; idosos e jovens; pobres e ricos; simples e sofisticados; famosos e anônimos.
Pernambuco inteiro queria homenagear aquele que revolucionara o frevo e que, tão repentinamente, partira. O Mestre conquistara o respeito, a admiração e a estima de todos que, de uma forma ou de outra, acompanharam a sua trajetória. Tornara-se uma legenda e, nas duas últimas décadas, consagrara-se como o mais popular compositor de frevos de rua. Formara escola, com inovações estilísticas adotadas pelos novos e talentosos compositores: Capiba, Nelson Ferreira, Duda, Senô e tantos outros, os quais, juntamente com o povo na rua, os passistas, os músicos, os admiradores, deram-lhe o título de Mestre, mais que maestro, compositor ou arranjador: o professor, na música e na vida, um exemplo a ser seguido.
Como em todo velório, as conversas eram sobre os mais variados assuntos. Houve até quem dissesse que a tristeza pela perda da Copa do Mundo o deixara acabrunhado e que seu coração não resistira, mas quem convivia com ele sabia não ser verdade.
Entre tantas personalidades, como era de se esperar, destacava-se Mário Melo, o qual ostentava o título, não de Presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, de menos valia naquele ambiente, mas o de fundador da Federação, além de Presidente de Honra das principais agremiações carnavalescas pernambucanas. Centro das atenções, Mário Melo passava de um a outro assunto. Ora tratava das semelhanças e diferenças entre um maracatu rural e um maracatu nação. Ora do Santa Cruz e da importância de Lacraia, primeiro atleta negro pernambucano, desde o primeiro time tricolor, em 1914. Também falava de política: comentou que o General Abreu e Lima não se encontrava neste cemitério pois o seu enterro foi proibido em solo pátrio, estando do outro lado da rua, naquele outro cemitério, o dos ingleses, na época considerado solo estrangeiro. Havia quem não conhecesse a história de Abreu e Lima. Com sua característica e natural simplicidade, Mário explicou que ele comandara exércitos libertadores ao lado de Bolívar e outros heróis latino-americanos.
Finalmente, chegou a triste hora do enterro. Prantos e mais prantos. Uns choravam silenciosamente, alguns um choro abafado, outros choravam abertamente, mas havia aqueles que apenas marejavam a dor. Começou a lenta e penosa caminhada quando o inusitado ocorreu. O Mestre sentou-se no caixão. Foi um alarido: gente a gritar e a correr para todo lado. O Mestre, aturdido, ainda com algumas flores sobre o corpo, nada entendia. Os que permaneceram próximos ajudaram-no a se levantar e a sair do caixão. Um médico explicou: ¿foi um ataque de catalepsia¿. Catalé o que? Pronto. A notícia ganhou asas outra vez. O Mestre ressuscitou, está vivo! O Mestre teve um ataque de catalé-sei-lá-o-que, está vivo! O Mestre vivo! Para o resto de seus dias carregou o apelido de Mestre Vivo.
Ali mesmo começou a comemoração. Os poucos barezinhos não comportavam a multidão que se espalhava pelas ruas adjacentes. Muita Monjopina e Serra Grande, chambaril e caldinho, não faltou o tradicional bate-bate. E o frevo comendo solto.
Num certo momento, o Mestre começou a rabiscar umas cifras. Depois, mostrou a um excepcional requintista, o qual, enquanto lia, meneava a cabeça em sinal de aprovação. O papel de embrulhar pão circulou entre alguns músicos. Os músicos de bloco (instrumentos de pau e corda) guardaram os seus bandolins, violões, etc. Apenas os tocadores de frevo de rua começaram a organizar uma verdadeira orquestra, completa, com trinta e seis músicos: uma requinta em mi bemol, cinco clarinetos em si bemol, dois saxofones-alto em mi bemol, dois saxofones-tenor em si bemol, sete trompetes em si bemol, dez trombones em dó, duas tubas em mi bemol, uma tuba em si bemol, um bombardino em dó e a percussão: uma caixa-clara, uma caixa-surda, um pandeiro, um reco-reco e um ganzá.
Depois do ocorrido, um milagre a mais ou a menos não faria diferença. Sem qualquer ensaio ou conhecimento prévio da música, a orquestra tocou o frevo recém composto. Foi uma exibição sublime. Nem a Orquestra Municipal ou a Banda do 14 RI, nem os futuros arranjos de Duda, de José Menezes ou da Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco conseguiriam repetir aquela exibição primorosa.
Também foi uma exibição muito estranha. Ninguém ousou marcar o passo. Ao contrário de outros frevos de encontro (e era um legítimo frevo de abafo) este, desta vez, não foi dançado. Em invulgar silêncio, a multidão espremida acompanhou a exibição do frevo ecoante, vertiginoso e rutilante, enfim: fervente. Se naquele momento, outra orquestra viesse ao encontro, até um frevo coqueiro, com sua estridência, faria o efeito das palhetas e semicolcheias de um frevo ventania. A emoção tomou conta de todos e muitos choraram em silêncio. Todos estavam habituados ao saudosismo nostálgico dos frevos de bloco, mas aquele frevo de rua era pura melancolia. Ao final, antes da multidão dispersar e silenciosamente rumar para casa, o Mestre anunciou o título, pressentido por muitos, do frevo: Último dia.
(*) Último dia é um antológico frevo de rua (de encontro) composto em outubro de 1950 por Levino Ferreira, Mestre Vivo, mentor e mais popular compositor do frevo de rua pernambucano.
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MANOEL CARLOS PINHEIRO at Sexta-feira, Janeiro 02, 2004
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