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Santa Tereza
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Santa Tereza
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Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
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wTerça-feira, Dezembro 30, 2003


Perspectivas

"No que resta - ainda esplendor - da Mata Atlântica
apesar do declínio histórico, do massacre
de formas latejantes de viço e beleza.
Mostra o que ficou e amanhã - quem sabe? acabará
na infinita desolação da terra assassinada.
E pergunta: ´podemos deixar
que uma faixa imensa do Brasil se esterelize,
vire deserto, ossuário, tumba da Natureza?´"

Carlos Drummond de Andrade

_______________________________________

Sinfonia inacabada

Helena, 18 anos, meiga, bela, sensível e inteligente. Jóia rara que a todos encantava. André, 27 anos, simpático, divertido, sensível, inteligente e gentil. Médico recém-formado, um partidão.

Estava escrito nas estrelas. Tórrida paixão, sublime amor e todos os rótulos dignos do casal que, separadamente já despertava a admiração e as atenções gerais, juntos então, nem se fala. Namoro rápido, casamento aprovado por todos, inclusive pelas famílias.

Ela ingressou na universidade, estudava arquitetura. Ele dividia-se entre o consultório próprio e dois empregos em hospitais. Casamento maravilhoso, nos dois ou três primeiros anos. Depois, o cotidiano, os horários desencontrados, o corre-corre, o cansaço... Não há amor ou paixão que resista.

Jamais tiveram uma briga ou mesmo discussão. Apenas tudo parecia funcionar no piloto automático. Relação mecânica, quase impessoal. O tratamento carinhoso foi, pouco a pouco, sendo substituído pela gentileza educada, fria, quase formal.

Não havia interesses comuns, embora ambos desenvolvessem atividades similares. Participavam de congressos, seminários, todos diferentes, em datas e cidades distintas. Cada qual passou a ter seus próprios amigos e as amizades comuns ficaram escassas.

Um dia, numa festinha do pessoal da faculdade, um rapaz se aproximou de Helena, sem esconder o seu interesse. Dançaram, conversaram, nada mais. Nenhuma infidelidade concreta, mas o suficiente para acender um alarme, o primeiro nos cinco anos de casada. Descobrira que poderia se interessar por outros homens.

Ela não sabia como iniciar uma conversa com ele. Às próprias amigas mais íntimas não conseguia explicar o que faltava ao casamento aparentemente perfeito. Afinal, ainda formavam um casal estimado e admirado por todos. Ele bem sucedido profissionalmente, ela uma promessa de grande futuro, já bem encaminhada. Ambos ainda sabiam cativar a todos com quem conviviam.

Passou a ficar tensa e nervosa, contida. Distraída e ausente, fria. E o pior de tudo: ele nem se deu conta.

Sempre visitava os pais, mas uma noite, sem qualquer motivo especial, dormiu lá. Aos poucos, sem nada dizer, foi fazendo a mudança. Separando-se sem qualquer comunicação. Até que não mais voltou. Foi obrigada a dizer aos pais que se separara. Foi difícil explicar. Claro que não havia outro! E os pais, pensando ser uma crise passageira, não a pressionaram.

Não conseguia mais se adaptar à vida na casa dos pais. E, sem que ninguém soubesse, passou a voltar à tarde. Sempre ia buscar algum pertence que lá deixara. E, já não tendo o que buscar, ia por ir. Aproveitava o ambiente tranqüilo para ler, estudar e até mesmo dormir. Sempre com o cuidado de sair antes da hora da volta dele.

Dez meses nesta situação e aconteceu: uma tarde, um pouco mais cansada, Helena perdeu a hora. Acordou com André acariciando o seu cabelo e perguntando: "perdeu a hora ou resolveu voltar?".


posted by MANOEL CARLOS PINHEIRO at Terça-feira, Dezembro 30, 2003
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wSábado, Dezembro 27, 2003


Mutirão da vida - Hélio Contreiras

Tanta seca, tanta morte
Nos caminhos do Sertão
Meus olhos já viram coisa
De cortar o coração
A cara feia da fome
E o povo virando anão
Gente ficando louca
Sem ter água para beber
A fome comendo a fome
À falta do que comer
A fome comendo a fome
À falta do que comer
Eta, fim de mundo
Desgraceira, perdição
A imagem revelada pela televisão
É um coice no estômago
De toda essa nação
Cada um faz o que pode
Pra acudir nessa aflição
Desejando melhor sorte
Ao nordestino seu irmão
Mas o que a gente precisa
É terra, trabalho e pão
Revirando pelo avesso
O poder lá no Sertão
Pra acabar com a penitência
De tamanha escravidão
Pra acabar com a penitência
De tamanha escravidão
E tem terra boa
Reclamando produção
Nas frentes de trabalho
Nas terrras do fazendeiro
A gente encontra a morte
E ele muito dinheiro
Quero a vida feita vida
Vencendo a morte cruel
Vida aqui na terra
E não no reino do céu

______________________________

Amor Agreste

Para existir um grande amor...

Um grande amor depende de cada um saber amar, dar-se;
de cada um fazer-se amar, fascinar;
da perspicácia em perceber os encontros e desencontros;
da capacidade de superar obstáculos;
da coragem de enfrentar desafios;
da ousadia de criar, do velho, o novo...

Um grande amor...

É paixão:
embota os olhos,
arde as entranhas,
provoca sonhos e desvarios.

É harmonia
do aconchego,
do tête-à-tête,
da companhia.

É união,
na vivência,
na convivência,
na feitura do vindouro.

É contradição:
do cotidiano,
da lida,
da vida.

O amor nordeste...

Faminto.
Sedento.
Dolente.
Agreste.

O amor nordeste, amor agreste...

Lânguido, qual maracatu.
O calor do frevo.
O remelexo do baião.
A sutileza do repente.

A fusão dos corpos.
ardentes, suados...
É a brandura de Calunga
no áspero poente da caatinga.

A força da vaquejada.
O escracho do pastoril.
O lirismo do aboio.
O volteio de Cambina Véia.

A fusão dos corpos
ardentes, suados...
É a violência do Caipora
na suave alvorada do lajedo.

Sem o embate da briga de galo,
comendo com os olhos,
afagando com as mãos,
no vai-e-vem cirandeiro.

A fusão dos corpos,
ardentes, suados...
Em busca da metamorfose
do Jaraguá.

A firmeza do bambelô.
O batuque da zabumba.
O salto do caboclinho.
O gemido da viola.

Na fusão dos corpos,
ardentes, suados...
A vertigem
do perder-se, encontrando-se.

A tenacidade do toré.
A delicadeza do bilro.
A beleza do bumba.
A pureza do algodão.

Há o sabor doce e forte do caju
nos corpos ardentes e suados
que, ao fundirem-se,
semeiam o amanhã.

Amor agreste...

A molemolência do mamulengo.
A singeleza do artesanato.
Pintura rupestre, planta silvestre.
Amor agreste.

Com mãos rudes e fortes,
moldadas pelo solo pedregoso,
o agrestino, paciente e perseverante,
cultiva o amor, o sonho, o desatino.

No matulão, lembranças...
No caçuá, saudades...
No peito aberto,
o amor, o sonho, o desatino.

O amor travesso é sonho.
O amor ingênuo é desatino.
O amor agreste é sonho, é desatino.
O desatino do amor menino, traquino.

Embota os olhos,
queima as entranhas,
provoca sonhos e desvarios.
Do agrestino...

Com sangue nos olhos,
fogo nas veias,
amor na mente
e liberdade no coração.


posted by MANOEL CARLOS PINHEIRO at Sábado, Dezembro 27, 2003
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wTerça-feira, Dezembro 23, 2003



Entre dois senhores

De acordo com o espírito natalino, todos ficam mais propensos à reflexão.
Passa-se à meditação sobre o universo e as forças que o movem.
Invarivelmente apegamo-nos às nossas crenças, inclusive nós, os ateus.
Neste momento fico dividido entre qual realmente é responsável pela nossa redenção e salvação:
O Décimo Terceiro Salário ou a Restituição do Imposto de Renda?

Atrapalhado

Distinto senhor da sociedade interiorana viajou a Paris. Um misto de negócios e passeio. Evidentemente não faltaram as compras, entre elas, presentes para os entes queridos. Os perfumes e cosméticos prediletos da esposa, vestidos de griffe para as filhas, vinho para o filho e para alguns amigos mais especiais. Para a sua afilhada, filha do melhor amigo, resolveu comprar um finíssimo par de luvas. Para cada um dos presentes, ele fazia um cartão com uma dedicatória e grudava junto.

Para a afilhada escreveu:
"Minha querida, em minha viagem, lembrei-me de ti e te trouxe uma lembrancinha, símbolo do meu carinho. Mesmo sabendo que não tens o hábito de usar tal utensílio, pois nunca vi. Creio que em uma ocasião especial poderás me dar o prazer de vê-la em ti.
Fiquei em dúvida quanto ao tamanho e à cor e me aconselhei com a balconista, a qual, gentilmente a experimentou para que eu visse e lhe ficou muito bem. Afirmou que esta cor não desbota nem mancha. Talvez fique um pouco larga na frente, mas é para que os dedos possam movimentar-se com maior desenvoltura.
Antes de usá-la, recomenda-se colocar um pouco de talco para evitar o mau cheiro e, após o uso, virá-la pelo avesso."

Não entendeu quando o compadre e amigo rompeu a amizade de tantos anos. Da mesma forma que não entendeu onde foi parar a calcinha de renda que trouxera, às escondidas, para uma das meninas, a sua predileta, do Casarão de Dona Laurinda.


posted by MANOEL CARLOS PINHEIRO at Terça-feira, Dezembro 23, 2003
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wSexta-feira, Dezembro 19, 2003


Para Fazer um Soneto - Carlos Pena Filho


Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere um instante ocasional
neste curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial

Ai, adote uma atitude avara
se você preferir a cor local
não use mais que o sol da sua cara
e um pedaço de fundo de quintal

Se não procure o cinza e esta vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse
antes, deixe levá-lo a correnteza

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza
ponha tudo de lado e então comece.

_____________________________


DECA

Rotulador. Isto mesmo! Todo mundo tem uma série de defeitos e eu, é claro, também. Mas um especialmente se destaca. Por mais que eu tente, não adianta, faz parte de minha natureza. Conheço alguém e logo estou, com uma única palavra, tentando definir a sua característica dominante. E, é estranho perceber, as pessoas adotam, inicialmente acrescido ao nome, depois como apelido até tornar-se nome próprio, assumido por todos: amigos, parentes e, até mesmo, pela própria "vítima".

A minha irmã Anália é um exemplo de sucesso dos meus rótulos. Ninguém a conhece pelo nome e ela mesma se apresenta como Deca. Acrônimo que criei para chamá-la de Distraída, Esquecida e Calmamente Ausente. Desde pequena fez jus à denominação. Há uma verdadeira antologia de episódios demonstrativos de sua distração. Ir à aula sem o material escolar; voltar para buscar algo em casa, que evidentemente esquecera, e sair outra vez sem o que viera buscar; ir se inscrever em concursos sem os documentos necessários; ir votar sem o título eleitoral; perceber que saiu sem carteira, na hora de pagar o ônibus; usar uma meia de cada cor; enfim: o cotidiano de esquecimentos. Tudo, para desespero dos demais, com a maior calma, como se não estivesse "nem aí".

Tal a fama que ninguém mais consegue se aborrecer com as distrações de Deca. O que, praticado por outra pessoa, seria motivo de raiva, no caso dela, é motivo de risos. Esqueceu de botar a carta no correio? Há, ah, há!! Não comprou o material que pedi? Só você mesmo, Deca! Comida sem sal? Se não fosse o pescoço, esqueceria a cabeça! É claro que ninguém ousaria entregar-lhe contas para pagar, no último dia de vencimento. Comprar remédio? É melhor outra pessoa.

Como seria de se esperar, inúmeras vezes perdeu todos os documentos. Sem danos maiores, pois os encontrava em casa ou tirava segunda via. Mas desta vez foi diferente. Onde deixou a bolsa com todos os documentos e dois, isto mesmo, dois talões de cheques completos ninguém imagina. Até que tomou todas as providências necessárias. Telefonou para o banco cancelando os cheques e começou a romaria de pedidos de segunda via.

Três dias depois começou tudo. - Anália? Não mora ninguém aqui com este nome. Espere! Deca telefone! - Sim, sou Anália. Não minha senhora. Não fui eu que emiti este cheque. Foram extraviados e bloqueados. Não posso pagar nada. - Não meu senhor, não posso pagar, pois, como já disse, eu bloqueei o talão todo no banco. - Escute, senhora! Eu não passei este cheque! Já disse que não sei porque ele foi aceito, pois foi extraviado!

E foi assim por duas semanas. As mesmas explicações, a irritante insistência de quem recebeu cheques de terceiros. Até que o senhor que telefonara, disse:

- Vai pagar sim, minha senhora.

- Não pagarei, já disse! O cheque foi extraviado!

- Este a senhora pagará!

- Claro que não!

- Mas é do seu interesse!

- Como do meu interesse?!?

- É isto mesmo! Deixe-me explicar, mas a senhora terá que pagar os R$ 732,00.

- Como?!? De jeito nenhum! R$ 732,00?! Nem morta!

- Vai pagar, eu lhe garanto! É do seu interesse.

- Por que do meu interesse?

- Porque nós fizemos uma promoção e o seu cupom, referente ao cheque que a senhora vai pagar, foi sorteado. A senhora ganhou um carro zerinho!

posted by MANOEL CARLOS PINHEIRO at Sexta-feira, Dezembro 19, 2003
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wTerça-feira, Dezembro 16, 2003


Fim de Ano

Nesta época, os nossos ouvidos doerão um pouco mais... É um tal de final de ano dito com toda candura por todo mundo. Alguém por acaso diz inicial de ano? Se não pode dizer inicial, como dizer final? É um adjetivo, mas os jornalistas, os publicitários e os historiadores, inimigos militantes do nosso idioma, fazem questão de ignorar isto e continuam a criar uma "nova linguagem", um simples arremedo da "Última Flor do Lácio, inculta e bela".

Eterno aprendiz

Aos 14 anos eu era um típico adolescente interiorano. Acima da média nos estudos, no futebol e pingue-pongue; medíocre no ciclismo. Ao todo equilibrado.

Ela era uns quinze anos mais velha que eu. Considerada a mais bela da cidade. Casada e mãe de três filhos. Freqüentava regularmente a minha casa.

Até então, longe de ser báquico, eu era, no máximo, um eventual onanista. Aos poucos, aproximou-se de mim. Quando me dei conta, passei a sonhar acordado com a paixão impossível.

E aconteceu. Toda a iniciativa, toda a condução foi dela. Antes de uma combinação explícita, como eu tremia à sua aproximação, aos seus toques casuais... Não acreditava no que via, sentia-me incapaz de levar a termo tão audaciosa empreitada.

Foi mais fácil que o imaginado. Tornei-me o seu garoto, o seu brinquedo, o seu instrumento de prazer. Pouco a pouco mais que isso: o seu amante dileto. Sempre à sua feição, seguindo os seus estímulos e, a cada descoberta, um novo encantamento, um novo tipo de êxtase, novas formas de me perder ao seu encontro. O típico relacionamento que vale a pena. É-se um antes, outro depois. Relação transformadora!

A cada dia surgia um projeto de homem. Mais sereno e firme. Paradoxalmente tímido e seguro. Sem que percebesse, passei a despertar o interesse das garotas da cidade. Não mais por ser o primeiro aluno, nem o craque do time de futebol ou o campeão de pingue-pongue. Ninguém sabia a causa de tanto interesse feminino. E ela, não apenas permitia que eu namorasse, até estimulava. Não passavam de namoros no escurinho do cinema, aquelas blitze gerais e nada mais.

Aos 15 anos saí da cidade para completar os estudos. Apenas nas férias voltava. Ficava cada vez mais difícil a fuga. Passava cada vez menos tempo na cidade, preferindo ficar na cidade grande, com novas atividades e amizades. Nunca houve briga ou rompimento, mas acabou.

A sua irmã, de minha idade, tentou namorar comigo e me esquivei. Medo de magoá-la, não merecia. Deu-me muito. Não apenas o sexo sereno e feroz, sensual, meigo e explosivo, deu-me muito mais que isto, ensinou-me o imenso prazer de dar prazer, de aprender a aprender, sempre e cada vez mais...

Faleceu aos 33 anos. Eu estava ausente. Melhor assim, ela reprovaria o meu choro. Permitia-me chorar de emoção, de prazer, jamais de dor. Deixou-me, com a própria mãe, uma carta de amor, empurrando-me para sua irmã...

posted by MANOEL CARLOS PINHEIRO at Terça-feira, Dezembro 16, 2003
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wSexta-feira, Dezembro 12, 2003



Pensamento do dia
Se dinheiro falasse, o meu diria: fui!

Sempre que alguém distribui na rua um papelzinho oferecendo dinheiro rápido, eu penso: mais rápido que o meu? impossível! quando penso que ele está chegando, ele já se foi!


A espera

Para que tanta pressa?! Ainda são 18h45 e já estou chegando, afinal marcamos às sete horas. Pronto, cheguei. Com este trânsito louco, nunca se sabe.

Será possível?! O relógio tá parado, faz meia hora que cheguei e ainda faltam cinco pras sete! Pior que não parou. Devo estar um pouquinho ansioso, sei lá.

É... Acho que ela não vai aparecer... Já está mais de hora atrasada. Agora o relógio deve ter parado mesmo. Nada disto, no da rua são sete e cinco. É... Com o trânsito engarrafado, ela não deve ter conseguido chegar na hora, mulher é fogo!

Também é falta de interesse, se estivesse interessada de verdade, chegaria até antes das sete.

Olha aquela mulher ali. Tá há um tempão esperando algum idiota. É, idiota, pois um cara que faz uma mulher destas esperar não vale o que o gato enterra. Rapaz! Que mulherão! Calipígia que só. Pernas torneadas. Toda proporcional, linda! E esperando. Além de tudo é séria, nem pros lados olha. Só falta ser sensível, inteligente e boa de cama. É, porque às vezes é só embalagem, nota dez em alegoria e zero em enredo.

Já aquele babaca ali é igual a mim, tá todo nervoso, é uma chaminé ambulante. Ainda bem que não fumo, senão já estaria com úlcera ou enfartado.

Não vem mais! Também por que marcar logo aqui na 1o de Maio? Lugar mais fora de mão. Eu mereço.

Ah! Não dá pra esperar mais, olha só aquele casal, parece até que vai sair no tapa. De que adianta um encontro destes? Brigar logo na chegada.

Sete e dez! Que é que tô fazendo aqui, plantado na rua esperando? Tem gente que chegou depois de mim e já foi embora.

A mulher maravilha não estava esperando um homem não. Parece ser a mãe dela, logo vi. Não tem cara de ser idiota como eu, fazendo papel de palhaço.

Sete e quinze! Se não vinha, por que não telefonou? Vai dizer depois que meu telefone deu fora de área. O sinal tá alto, mas vai ser a desculpa. Eu é que não vou ligar, afinal ela é que se atrasou. Cheguei como sempre, adiantado. Se eu começar a atrasar quero ver a reclamação. Não gosto de deixar ninguém à toa. Só se for um motivo, como se diz, de força maior.

O telefone, quem será? Ela certamente não se dará nem ao trabalho, eu mereço!
- Diga! Como?! Sou eu sim!
- Como, ONDE estou?! Aqui na rua à tua espera, será que só eu lembrei?
- Onde nós combinamos, no largo da 1o Maio, é claro. Afinal, tu vens ou não?
- Como?! 13 de Maio?!! Ih!!!


posted by MANOEL CARLOS PINHEIRO at Sexta-feira, Dezembro 12, 2003
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wTerça-feira, Dezembro 09, 2003


"Um sambista não precisa ser membro da Academia.
Ao ser natural, com a sua poesia, o povo o faz imortal."


Candeia in Testamento de partideiro

__________________________________

A ressaca

Dizer que ele acordou com ressaca seria um eufemismo. Cefaléia seria minimizar a intensidade da sua dor de cabeça. Ainda bem que gravidez não é um estado masculino, mas a sensação de implantação de blastocisto na cavidade abdominal era tanta que náusea ou enjôo estavam longe de descrever o que sentia.

Poderia até dizer que acordou, mas mais lhe pareceu que recebera uma paulada na cabeça para sair de algum torpor. Ao abrir os olhos, a luz o incomodou, como se um raio atingisse o seu nervo ótico. Ainda bem que as cortinas estavam semicerradas, com claridade suficiente para perceber o mundo à sua volta, mas sem a intensidade de luz que por certo lhe provocaria a sensação de cegueira.

Pouco a pouco começou a raciocinar. Por mais que tentasse, não conseguia lembrar o que fizera na noite anterior ou como chegara àquele local. Começou a ficar apavorado, mas um pouco mais calmo ao perceber que estava em seu próprio quarto. E como voltara para casa? Nem desconfiava. Vagamente lembrava como a provável noitada se iniciara à saída do trabalho e nada mais que isto. Voltou a ficar apavorado...

Lentamente olhou em volta, evitando qualquer ruído, mas se deu conta que a sua mulher não estava ao lado. Com o esforço de quem tivera os ossos passados num moedor, levantou-se.

Percebeu que o quarto estava com uma arrumação incomum para uma manhã de sábado. Para sua surpresa, havia ao seu lado, na mesinha de cabeceira, um copo d¿água e dois comprimidos de aspirina e, surpresa maior, havia um bilhete de sua mulher dizendo-lhe, num tom carinhoso, que deixara o café pronto na copa e que fora à feira comprar camarão e jerimum. Será possível? O famoso prato ¿camarão na moranga¿ era típico de almoço de comemoração ou jantar romântico, geralmente a dois. Esmola grande, cego desconfia. O que poderia haver de tão errado?

Banho frio. Não apenas para tentar se recompor, mas principalmente para tentar ficar de ¿cabeça fria¿ e raciocinar. No banheiro encontrara roupas perfeitamente arrumadas para ele vestir. Precisava entender o que acontecia ao seu redor.

Embora raras, as suas eventuais bebedeiras provocavam a ira da mulher, além de comoções familiares que pareciam levar o casamento à derrocada. Afinal, ¿a verdade está no fundo do copo¿ qualquer coisa que fizesse bêbado, a bebedeira, longe de ser atenuante, era um agravante. Por isto, algo não se encaixava no contexto desta estranha manhã.

Mais ressabiado que cachorro depois de malfeitoria, desceu para a sala: nova surpresa! A mesa posta. Não uma frugal refeição, mas um verdadeiro café colonial. Até água tônica ao lado do balde de gelo e do copo do liquidificador contendo limão já cortado para a limonada suíça perfeita para curar ressaca. E o requinte dos ovos mexidos sobre uma panela com água quente simulando um banho-maria? O bolo-de-rolo, os biscoitos de castanha-de-caju...

Se não lembrasse do início da noitada até pensaria que bebera para comemorar ter acertado sozinho na loteria com o prêmio acumulado por diversas semanas... Faltava conformidade, compatibilidade, congruência aos fatos.

O jornal estava à mão. Ficou na sala lendo e matutando, quando seu filho de dezoito anos chegou. Com o ar maroto de cumplicidade masculina falou:

- E aí pai! O sol estava quente ontem à noite, né?
- Rapaz! Você viu quando eu cheguei?
- Vi... foi um desastre!
- O que houve? Que horas cheguei?
- Por volta das três da madrugada, todo amarfanhado e até sujo de vômito, mais parecia vindo do armagedon...
- E sua mãe estava acordada?
- Estava um siri na lata.
- Como eu acordei limpo?
- Ah! Foi a sua salvação. Mamãe foi tirar a sua roupa imunda e você começou a espernear e dizer que não queria, a gritar para ela parar e, antes de apagar, até suplicou: - por favor moça não faça isto comigo que sou casado!


posted by MANOEL CARLOS PINHEIRO at Terça-feira, Dezembro 09, 2003
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wSexta-feira, Dezembro 05, 2003


O bicho - Manuel Bandeira


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.


Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.


O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.


O bicho, meu Deus, era um homem.

________________________________


O casamento

A minha amante dá o que quero. Mais que isto: revela-me minhas fantasias, transformando-as em desejos. Desejos realizados viram necessidades básicas, como o ar que respiro. Ela sacia minha sede e minha fome de amor.

Gravitamos um em torno do outro. Adotamos o mesmo linguajar. Compartilhamos angústias e sonhos.

Às vezes, pouco a pouco, afasta-se, impacienta-se, esposa ranzinza.

Cão sem dono, rabo entre as pernas, aquieto-me a um canto. Latir pra quê? Ser enxotado? Melhor calar.

Com o tempo, ela sentirá que, mesmo ao seu lado, estou ausente. E, sedutora, com poucos gestos, me reconquistará e me tomará, outra vez, para si.

Amiga, companheira e amante, a minha esposa dá o que quero e mais que isto.


posted by MANOEL CARLOS PINHEIRO at Sexta-feira, Dezembro 05, 2003
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